O filme mais bonito do cinema mundial nos últimos anos está na Netflix Divulgação / Wenders Images

O filme mais bonito do cinema mundial nos últimos anos está na Netflix

O filme acompanha Hirayama acordando antes do amanhecer, dobrando a cama, regando plantas e saindo para dirigir uma velha van de serviço por Tóquio. Em “Dias Perfeitos”, dirigido por Wim Wenders e protagonizado por Kôji Yakusho, com participações de Arisa Nakano e Tokio Emoto, esse trabalhador que limpa banheiros públicos repete o mesmo percurso todos os dias. O conflito central está em como pequenas interrupções nessa rotina controlada forçam o personagem a se abrir, aos poucos, para vínculos que julgava encerrados.

Hirayama decide estruturar a própria vida em torno de rituais rigorosos. Escolhe uma fita cassete diferente a cada manhã, pega sempre o mesmo caminho pelas pontes e avenidas, estaciona nos mesmos parques, cumprimenta as mesmas árvores. Ele se agarra a essa repetição porque encontra aí uma forma concreta de estabilidade em meio à velocidade da metrópole. O obstáculo é o corpo cansado, o salário modesto e a sensação de invisibilidade social. O efeito é uma existência discreta, mas sustentada por disciplina íntima, que se revela em cada gesto aplicado ao trabalho.

Nos banheiros que limpa, Hirayama toma dezenas de pequenas decisões. Ajusta espelhos, troca rolos de papel, remove manchas que quase ninguém perceberia, testa torneiras uma a uma antes de ir embora. Age assim porque leva o ofício a sério e porque, ao cuidar de espaços anônimos, sente que ainda interfere de modo concreto no entorno. O obstáculo é a indiferença generalizada, condensada em usuários apressados e em chefes interessados apenas em planilhas. O efeito é transformar uma função desprezada em prática silenciosa de responsabilidade, como se cada cubículo limpo fosse um compromisso cumprido com desconhecidos.

A rotina se desloca quando Takashi, colega mais jovem, passa a dividir com ele a van e os trajetos entre um banheiro e outro. Takashi decide tratar o emprego como passagem, chega atrasado, fala alto, checa o celular sem parar, tenta arrastar Hirayama para bares e encontros porque acredita que qualquer vida interessante precisa de excesso. O veterano aceita ouvir, mas recusa a maioria dos convites, movido por uma mistura de timidez e convicção de que essa agitação esvazia o que lhe importa. O obstáculo é a diferença de ritmo entre os dois. O efeito são cenas em que a serenidade aparente do mais velho mostra fissuras, deixando escapar um humor seco e uma irritação contida.

A maior inflexão vem quando Niko, sobrinha adolescente de Hirayama, aparece em seu apartamento, fugindo de casa depois de conflitos com a mãe. Ele decide acolher a garota sem longas perguntas, oferece futon, refeição simples, um lugar na rotina. Niko aceita porque precisa de abrigo e, ao circular com o tio pelos parques e banheiros, passa a olhar com curiosidade aquele cotidiano que parecia impensável para alguém da sua idade. O reencontro posterior com a irmã, mãe da adolescente, revela um passado de desentendimentos e escolhas divergentes; não exatamente uma briga aberta, mas um afastamento alimentado por expectativas sociais que ele não quis seguir. A motivação dela é recuperar a filha e, em parte, resgatar o irmão para um modelo de vida considerado mais adequado. O obstáculo é a recusa calma de Hirayama. O efeito é mostrar que a vida quieta que ele leva não é produto da inércia, e sim de uma decisão antiga que ainda cobra seu preço.

A cidade, enquanto isso, continua a exigir escolhas constantes: onde estacionar, em qual banca comprar um livro usado, que árvore fotografar com a câmera analógica. Há um trecho em que tudo se reduz a movimentos mínimos. Ele anda. Olha. Espera. Respira. Não comenta. Decide apenas levantar a câmera e registrar a luz passando por entre folhas, porque sente que aquele instante não volta daquele mesmo jeito. O obstáculo é o barulho ao redor, o trânsito, a pressa das pessoas que passam sem ver nada disso. O efeito é a criação de pequenos refúgios de atenção dentro da metrópole, onde tempo e espaço parecem brevemente alargados.

Wim Wenders filma esses deslocamentos com paciência e rigor. Repetidos planos de Hirayama dirigindo, sempre em horários diferentes, permitem notar variações de luz, de clima, de fluxo de carros, e o diretor decide manter a câmera próxima ao rosto e ao painel da van porque quer que o espectador compartilhe esse enquadramento limitado, ou melhor, esse modo de olhar que recorta o mundo em porções manejáveis. A motivação é evitar panorâmicas explicativas e privilegiar o ponto de vista de alguém que aprendeu a sobreviver olhando para o imediato. O obstáculo é o risco de monotonia, contornado por pequenas mudanças de trilha sonora, pela presença de colegas e familiares, por microacidentes do cotidiano. O efeito é fazer de cada curva um acontecimento modesto, em que nada grandioso se anuncia, mas tudo pode ligeiramente mudar.

À medida que os dias avançam, o filme sugere que a estabilidade de Hirayama depende menos da rigidez absoluta e mais da capacidade de admitir alguns desvios. Ele continua acordando cedo, limpando banheiros, ouvindo fitas, fotografando árvores. Ao mesmo tempo, passa a permitir visitas inesperadas, conversas um pouco mais longas, uma ou outra mudança de trajeto. A decisão não é abandonar a rotina e sim deixá-la porosa. A motivação é manter a possibilidade de chamar aqueles dias de seus, sem se fechar completamente para quem bate à porta. O efeito final se concentra num rosto que, ao mesmo tempo, repete gestos conhecidos e parece ainda descobrir, com surpresa discreta, o que pode caber dentro de mais um amanhecer.

Filme: Dias Perfeitos
Diretor: Wim Wenders
Ano: 2023
Gênero: Drama
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★