Ethan Hawke em um mistério que conversa com o espírito de Agatha Christie na Netflix Ben King / Signature Entertainment

Ethan Hawke em um mistério que conversa com o espírito de Agatha Christie na Netflix

Em um bar vazio de Nova York, um atendente ouve a história de um cliente que se apresenta como escritor e oferece “a melhor história que já ouviu” em troca de um drinque. A conversa abre espaço para “O Predestinado”, ficção científica dirigida por Michael Spierig e Peter Spierig, com Ethan Hawke e Sarah Snook, centrada na relação entre um agente temporal e alguém cuja biografia quebra qualquer linha reta de tempo. O conflito central é descobrir se esse encontro pode interromper uma série de atentados ou apenas confirmar um destino já traçado, como se cada salto no tempo fosse menos escolha e mais cumprimento de um roteiro antigo.

O narrador começa pela infância como menina em um orfanato estatal, entre dormitórios compartilhados e tarefas repetitivas. Desde cedo, percebe que a única chance de sair daquele prédio é ser vista como excepcional e decide estudar com disciplina, controlar emoções, evitar confusões. Anos depois, já adulta, é submetida a testes físicos e psicológicos em salas brancas, com janelas cobertas e corredores longos. Aceita cada etapa porque lê naquele processo a promessa de um lugar para alguém com sua inteligência, algo maior que o serviço doméstico reservado às colegas. A motivação é escapar de um futuro estreito e alcançar um programa espacial que recruta jovens brilhantes. O obstáculo é notar que recrutadores elogiam a mente rápida enquanto examinam o corpo com frieza clínica. O efeito é a impressão de pertencer a lugar nenhum e uma desconfiança duradoura diante de qualquer autoridade.

Em outra linha temporal, aparece o agente vivido por Ethan Hawke, funcionário de uma agência secreta encarregada de impedir os ataques de um terrorista conhecido apenas por um apelido. Ele viaja por décadas com uma mala que permite saltos no tempo e recebe ordens de um superior que lê dossiês sobre explosões e vítimas. A cada missão, precisa escolher para qual ano ir e em que rua esperar o próximo movimento. A motivação oficial é salvar vidas; a pessoal inclui dar sentido a ferimentos e cirurgias que já o remodelaram mais de uma vez. O obstáculo é a lógica dos saltos, que espalha cópias de eventos e embaralha causa e efeito, sem garantir se uma correção evita ou provoca tragédias. O efeito é a sensação constante de perseguir alguém sempre um passo adiante.

Quando esses dois caminhos se cruzam no bar, o ambiente vira sala de depoimento disfarçada, com garrafas alinhadas e jukebox ao fundo. O agente decide ouvir a narrativa até o fim antes de revelar o próprio trabalho e propõe um pacto: voltar com o desconhecido a um momento decisivo do passado e oferecer a chance de vingança contra o homem que destruiu sua vida. Ele acredita que, ao mexer nessa ferida, pode aliviar o ressentimento daquela pessoa e, ao mesmo tempo, se aproximar da origem do terrorista que procura há anos. A motivação é resolver duas pendências numa única operação. O obstáculo é que qualquer ajuste em relações afetivas tende a escapar do controle, criando ramificações que nenhuma tabela antecipa. O efeito imediato é uma aliança frágil, sustentada por segredos e promessas pouco explicadas.

A partir daí, o filme acompanha saltos de época, mudanças de cidade e alterações de nome. A pessoa que cresceu como menina passa por cirurgia, adota outro registro civil e tenta habitar um gênero apresentado por médicos como resposta para um desconforto antigo. Ele aceita porque não reconhece o próprio reflexo, ou melhor, especialistas prometem paz interna. A sociedade reage com estranhamento, piadas, portas fechadas, suspeita em entrevistas e encontros casuais. O obstáculo deixa de ser apenas o corpo medido em hospitais e passa a ser o olhar alheio, que reduz existência a curiosidade. O efeito é um isolamento progressivo que torna qualquer oferta de pertencimento ainda mais sedutora, mesmo quando envolta em riscos pouco claros.

Os irmãos Spierig conduzem esses deslocamentos com montagem que evita explicações didáticas e confia na memória de quem assiste. Uma mesma situação retorna em outro momento com enquadramento distinto, pequena mudança de luz, frase que ganha sentido novo. O agente decide voltar a dias específicos com informações adicionais, ajustando conversas, atrasando encontros, antecipando aparições. A motivação é chegar à combinação de escolhas em que o terrorista nunca consiga realizar a explosão mais devastadora. O obstáculo é perceber que muitas intervenções criam as condições para o que se tenta impedir, como se o próprio ato de corrigir montasse o cenário da próxima tragédia. O efeito dramático é transformar cada tentativa de conserto em possível semente do desastre.

O ponto de maior risco chega quando o agente finalmente encontra a versão envelhecida do terrorista em um prédio abandonado, longe de testemunhas e da supervisão de seus superiores. Ali, precisa optar entre seguir o plano simples, que exige uma ação rápida e definitiva, ou escutar o que aquele sujeito tem a dizer sobre repetições, laços e identidade. Ele reconhece gestos. Reconhece expressões. Reconhece cicatrizes. A motivação prática o empurra para encerrar o caso e garantir aposentadoria em data segura. A motivação íntima o aproxima de algo desconfortavelmente parecido com auto-reconhecimento. O obstáculo é entender que qualquer gesto, inclusive recuar, consolida de vez o desenho daquele ciclo. O efeito é deixar tudo suspenso no instante em que decisão e destino parecem quase a mesma coisa.

Depois desse encontro, “O Predestinado” encaminha suas cenas finais sem respostas reconfortantes. O agente continua a usar a mala temporal e a cumprir tarefas burocráticas, mas cada salto traz o peso de tudo o que descobriu sobre si e sobre os limites do que pode corrigir. Já a pessoa cuja história começou em um orfanato e passou por salas brancas, cirurgias e bares vazios precisa decidir como viver com a ideia de que sua vida se aproxima de um círculo quase fechado. As cidades, corredores e explosões permanecem, agora marcados por uma pergunta silenciosa sobre quanto ainda há de escolha real quando o tempo insiste em repetir os mesmos rostos.

Filme: O Predestinado
Diretor: Michael Spierig e Peter Spierig
Ano: 2014
Gênero: Ação/Drama/Ficção Científica/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★