O filme que foi feito para fazer você rir — e você vai gargalhar até o último segundo — na Netflix Divulgação / United Artists

O filme que foi feito para fazer você rir — e você vai gargalhar até o último segundo — na Netflix

Em Miami, um clube noturno de plumas, luzes coloridas e números de drag funciona como extensão de casa para um casal que vive junto há décadas, administrando com naturalidade a fronteira entre palco e cotidiano. Em “A Gaiola das Loucas”, dirigido por Mike Nichols e estrelado por Robin Williams, Nathan Lane e Gene Hackman, o conflito central começa quando o filho desse casal anuncia casamento com a filha de um senador ultraconservador e pede que os pais escondam quem são durante um jantar de apresentação, apostando que a própria felicidade depende dessa camuflagem temporária.

Depois do anúncio, a história se concentra no apartamento sobre o clube, onde Armand aceita reorganizar fotos, quadros e objetos para fabricar a imagem de um lar heterossexual convencional. Ele toma essa decisão porque acredita que está protegendo o futuro do filho, mesmo ao custo de diminuir a presença pública do parceiro. Albert reage com dor e teatralidade, recusando-se a ser apagado da própria casa, mas também tentando não explodir o plano do enteado. O obstáculo é a vida inteira impressa naquele espaço, impossível de desaparecer com marteladas apressadas na parede. O efeito é transformar em farsa doméstica um debate concreto sobre vergonha, respeito e negociação familiar.

Enquanto eles tiram estátuas, roupas e retratos de lugar, o filme acompanha a família da noiva, presa a outro tipo de angústia. O senador Kevin Keeley decide acelerar o anúncio do casamento para se proteger de um escândalo envolvendo seu parceiro de chapa, analisando manchetes e telefonemas com nervosismo crescente. A motivação é usar a imagem de um genro “adequado” como prova viva de valores tradicionais vendidos ao eleitorado. A esposa adere ao plano por lealdade e convicção. O obstáculo é a distância entre a fantasia de uma família exemplar e a realidade da casa que irão visitar. O efeito é fazer da comédia o encontro de dois medos diferentes: o medo do preconceito e o medo da perda de poder.

Nessa altura, a comédia assume o confronto verbal como motor central. Armand tenta ensinar Albert a caminhar, gesticular e falar de modo mais contido, como se masculinidade fosse um conjunto de truques memorizáveis em poucas horas. Ele decide insistir no treinamento porque julga que isso pode evitar um desastre diplomático no jantar. Albert aceita participar, por amor ao filho e desejo sincero de ajudar, mas cada tentativa tropeça em maneirismos que voltam sozinhos, nas mãos, na voz, no riso. A motivação de um é evitar choque direto com o senador; a do outro é provar que consegue ser respeitável sem desaparecer. O obstáculo é a identidade construída ao longo de anos de palco. O efeito é expor o ridículo da normalidade exigida, sempre prestes a desmoronar numa gargalhada.

Quando o senador e a esposa atravessam a porta da casa improvisada, o apartamento se torna campo de batalha silencioso. Cada cumprimento, cada oferta de bebida, cada comentário sobre decoração é cuidadosamente editado pelos anfitriões, que escolhem palavras, escondem quadros, trocam olhares de alerta à menor ameaça. A motivação dos visitantes é confirmar que a família do noivo corresponde ao ideal defendido em discursos, precisando enxergar ali um reflexo de si mesmos. Armand e Albert tentam sustentar a fachada sem trair completamente o que vivem. O obstáculo está nos detalhes que escapam: um gesto mais solto, uma foto esquecida, um objeto estranho àquela ficção. O efeito é uma vertigem cômica crescente, em que qualquer frase ligeiramente fora de tom parece capaz de derrubar a encenação inteira.

O ponto de maior risco aparece durante o jantar, em torno de uma mesa apertada, entre pratos que demoram, cadeiras que rangem e talheres que batem alto demais. A conversa deriva para moralidade sexual, responsabilidade paterna, honestidade política, temas que nenhum lado domina sem contradição. Alguém exagera na opinião, alguém corrige depressa, alguém quase deixa escapar a informação proibida de que o andar de baixo é uma boate de drag queens. As decisões são tomadas em segundos, na escolha de cada palavra, no volume do riso, na aposta num silêncio estratégico. A motivação compartilhada é manter o encontro de pé até o fim da noite. O obstáculo continua sendo a incompatibilidade entre fantasia conservadora e verdade daquela casa. O efeito é empurrar todos para o limite em que ou se assume algo ou se perde o controle.

Paralelamente às trapalhadas de fachada, a relação entre pai e filho ganha contornos mais doloridos. Val quer se casar e acredita que só será aceito se afastar simbolicamente a família em que cresceu, limpando traços que julga inconvenientes. Ele decide pedir ao pai que minta porque teme ver desmoronar sua chance de vida adulta “normal” e teme, também, enfrentar a própria vergonha. Armand precisa decidir até onde acompanha essa vergonha emprestada sem romper com Albert. A motivação paterna oscila entre proteger o rapaz e proteger a dignidade do homem com quem divide palco e intimidade há anos. O obstáculo é a história de cuidado compartilhado, que não cabe em rascunho heterossexual para ser exibido na sala. O efeito é um conjunto de diálogos curtos e secos, em que o humor deixa frestas para a mágoa.

No desfecho, as palavras e disfarces acumulados deixam claro que ninguém pode sair exatamente igual à versão que trouxe para a mesa. Os personagens precisam escolher se insistem no roteiro que agrada ao senador ou se admitem, com humor e cansaço, que aquela casa sobre a boate nunca coube nas fotografias de manual. A motivação passa a ser preservar algum tipo de sanidade afetiva, mais do que agradar convidados de ocasião. O obstáculo ainda é o medo de perder relações e respeitabilidades. O efeito imediato reorganiza alianças ao redor da mesa e mantém viva a dúvida sobre quanto cada um está disposto a pagar para continuar fingindo.

Filme: A Gaiola das Loucas
Diretor: Mike Nichols
Ano: 1996
Gênero: Comédia
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★