Existem alguns filmes que todas as pessoas deveriam assistir pelo menos uma vez na vida: um deles está na Netflix Divulgação / Warner Bros. Entertainment

Existem alguns filmes que todas as pessoas deveriam assistir pelo menos uma vez na vida: um deles está na Netflix

O mundo está cansado. As plantações falham, a poeira invade casas e aulas de ciência viram instruções de sobrevivência básica. Cooper, ex-piloto agora fazendeiro, tenta garantir colheitas suficientes e proteção para os filhos enquanto alimenta, em silêncio, saudade do espaço. Quando descobre, quase por acidente, a existência de um programa secreto que estuda uma saída interestelar para a humanidade, em “Interestelar”, dirigido por Christopher Nolan e com Matthew McConaughey, Anne Hathaway e Jessica Chastain, o conflito central se define entre ficar com a família numa Terra em colapso ou partir para buscar outro futuro possível.

A missão proposta pela velha NASA consiste em atravessar um buraco de minhoca recém-aparecido perto de Saturno e avaliar três planetas, onde expedições anteriores deixaram dados incompletos. Cooper aceita pilotar a nave por acreditar que sua experiência pode aumentar as chances de sucesso e, ao mesmo tempo, por enxergar ali uma chance concreta de dar aos filhos um futuro que a Terra já não promete. Murph, a filha mais nova, vê a decisão como abandono. O obstáculo é o tempo: cada ano gasto longe pode equivaler a décadas para quem fica. O efeito imediato é uma despedida dilacerante, marcada por um relógio de pulso que passa de mão e transforma afeto em contagem regressiva.

No espaço, ao lado da cientista Amelia Brand, Cooper precisa decidir qual planeta visitar primeiro, com combustível limitado e apenas fragmentos de informações. Brand defende priorizar o mundo de um pesquisador com quem mantém vínculo afetivo, convencida de que ele não teria mentido nos relatórios. Cooper, mais pragmático, insiste em seguir os números que indicam outra opção. A motivação de ambos é salvar o maior número possível de pessoas, mas o obstáculo está na incerteza dos dados e na pressão para agir rápido. Cada escolha de rota altera não apenas a duração da missão, como também o tempo que os filhos de Cooper envelhecerão sozinhos.

Quando pousam em um planeta coberto por um oceano raso, cada decisão ganha peso físico imediato. Eles descem. A água sobe. O relógio marca segundos que equivalem a anos na Terra. Um membro da equipe insiste em coletar dados com calma. Outro pede retirada urgente. Cooper tenta acelerar tarefas, calcula riscos, escorrega em estimativas. As ondas se aproximam, enormes, repetidas, e arrastam qualquer pretensão de controle absoluto. O obstáculo é a gravidade que distorce o tempo. O resultado, percebido depois no módulo, é uma pilha de mensagens de vídeo em que os filhos cresceram, envelheceram, se magoaram, enquanto ele quase não saiu do lugar.

Na Terra, Murph se torna adulta e passa a trabalhar ao lado do professor Brand em uma equação que deveria permitir erguer estações gigantes e retirar parte da população do planeta. Ela escolhe dedicar talento e raiva a esse projeto porque acredita que o pai ainda pode voltar, mas também porque enxerga ali a única via para impedir que as pessoas definhem em fazendas inúteis. O obstáculo é um segredo guardado pelo mentor, que impede solução completa do problema e transforma décadas de pesquisa em possível engano coletivo. Ao perceber a omissão, Murph decide confrontar a mentira institucional, o que muda o foco da sua busca: deixa de esperar apenas uma nave que retorne e passa a tentar resolver, com os próprios meios, a gravidade que prende todos ao chão.

Enquanto isso, no espaço, a perda de combustível após o fracasso no primeiro planeta obriga Cooper e Amelia a refazer planos com margem mínima. Eles precisam escolher entre dois destinos restantes, um apoiado em dados mais consistentes, outro sustentado por sinais frágeis e pela lembrança da expedição anterior. Cooper, pressionado pelo relógio da nave e pelos recursos que se esgotam, inclina-se para a opção que preserva ainda alguma chance de retorno. Amelia argumenta que certas decisões científicas inevitavelmente carregam componente afetivo, porque dados nunca vêm sem interpretação. O obstáculo é a desconfiança mútua, alimentada por revelações parciais sobre as verdadeiras intenções da missão. O efeito dessa divergência é um rastro de culpa que acompanha qualquer resultado, seja ele qual for.

Quando descobrem que parte do plano original talvez nunca tenha incluído o retorno dos astronautas, o risco muda de escala íntima. Cooper passa a medir escolhas não apenas em anos perdidos com os filhos, mas na possibilidade de passar o resto da vida isolado, transformado em peça descartável de um projeto pensado em gabinetes distantes. Ele decide apostar em uma manobra que envolve se aproximar perigosamente de um buraco negro para ganhar impulso e enviar dados vitais de dentro de uma região quase inacessível. A motivação mistura desejo de corrigir um cálculo incompleto e insistência em cumprir a promessa feita a Murph antes de partir. O obstáculo é a força de gravidade extrema, que ameaça destruir nave e corpo. O efeito imediato é separar ainda mais o destino de Amelia e Cooper, colocando cada um em rota solitária.

A forma como Nolan filma essas escolhas reforça a sensação de relógio apertado. Em sequências de acoplamento de naves ou mudança de órbita, a câmera se prende ao interior dos módulos, limitando o campo de visão ao que os personagens realmente veem, o que reduz a possibilidade de antecipar perigos e aproxima o espectador dos cálculos apressados. O som alterna ruídos mecânicos internos com silêncio quase total no espaço, fazendo cada batida de motor marcar também a passagem de tempo para quem espera do outro lado da tela da nave, em uma fazenda coberta de poeira. Em certos momentos, a montagem intercala um gesto de Cooper girando um comando com imagens de Murph adulta diante de estantes carregadas de equações, como se um movimento respondesse ao outro em salas separadas por décadas.

Na casa da família, o quarto de Murph se transforma em laboratório, arquivo e altar ao mesmo tempo. Ela decide permanecer naquele espaço, mesmo quando poderia refazer a própria vida em outro lugar, porque acredita que ali existe alguma pista concreta não decifrada, algo que o pai sempre tentou indicar, mesmo sem saber. O obstáculo não é apenas científico; trata-se da dificuldade de perdoar alguém que partiu e, ao mesmo tempo, reconhecer que aquela partida possibilitou qualquer chance de solução. O efeito dessa insistência é condensar a saga familiar em poucos metros quadrados, onde livros, poeira e luz que entra pela janela funcionam como ponte entre tempos.

Quando “Interestelar” se aproxima de seu momento de maior risco, tempo e família já estão tão amarrados que cada cálculo orbital implica aceitar a idade da filha e a memória do passado rural que se esvai. Cooper, perdido em ambiente extremo, toma uma decisão que pretende ligar diretamente sua experiência à equação que Murph tenta resolver na Terra. Ele não sabe se será ouvido, nem quanto tempo levará para qualquer sinal alcançar quem precisa recebê-lo. Ela, cercada por autoridades apressadas e pessoas que desejam abandonar o planeta de qualquer jeito, escolhe entrar mais uma vez no quarto de infância, olhar para objetos antigos e reconsiderar aquela promessa feita muitos anos antes. A Terra continua coberta de poeira, a nave ainda enfrenta forças descomunais, e a ligação entre os dois se concentra num conjunto finito de gestos, números e lembranças que precisam caber dentro de um único instante compartilhado.

Filme: Interstellar
Diretor: Christopher Nolan
Ano: 2014
Gênero: Aventura/Drama/Ficção Científica
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★