O dia em que Mark Twain quis desenterrar Jane Austen (com o próprio fêmur)

O dia em que Mark Twain quis desenterrar Jane Austen (com o próprio fêmur)

A frase de Mark Twain sobre Jane Austen, em que ele diz querer “desenterrá-la e golpeá-la com o próprio osso da perna”, não surgiu num palanque público nem em entrevista agressiva, mas numa carta privada. De acordo com edições de sua correspondência, em 13 de setembro de 1898, escrevendo ao amigo e pastor Joseph Twichell, o autor americano transformou em imagem hiperbólica a impaciência que sentia ao reler “Orgulho e Preconceito”.

O trecho completo da carta ajuda a relativizar o tom apenas violento. Twain admite não se considerar crítico profissional e afirma que só critica livros que realmente detesta. Em seguida, confessa que “os livros de Jane Austen me enlouquecem de tal forma que não consigo esconder meu frenesi do leitor” e que por isso precisa interromper qualquer tentativa de escrever sobre ela. A imagem do osso da perna usado como arma funciona como clímax dessa escalada verbal.

O autor de “As Aventuras de Huckleberry Finn” não reservou sua implicância para a correspondência íntima. Em livro de viagens publicado no fim do século 19, Twain descreve a biblioteca ideal como aquela que não contém nenhum volume de Jane Austen, “mesmo que não tenha mais livro algum”. A formulação foi reproduzida em biografias e coletâneas de citações, reforçando a imagem de antagonismo entre dois nomes centrais do cânone em língua inglesa.

De um lado está Austen, escritora inglesa associada a tramas de cortejo, casamentos e salões no fim do século 18 e início do 19. Ao longo desse período e do início do século 20, sua obra passou de pouco conhecida a cultuada por grupos de admiradores — os “Janeites” — e contestada por outros leitores, segundo estudos de recepção. Do outro, está Twain, figura da literatura americana do pós-Guerra Civil, ligado a cenários ao ar livre, humor áspero e crítica social explícita.

A hostilidade declarada de Twain é frequentemente interpretada por críticos como resultado de um choque de sensibilidades literárias. A prosa contida, irônica e de superfície calma de Austen contrasta com a preferência do escritor americano por exagero, oralidade e sátira. Ao colocar na mesma carta a incapacidade de criticá-la “sem frenesi” e a vontade de agredi-la com o próprio osso, Twain encena uma persona de leitor irritado que reage à elegância do texto com resposta deliberadamente grosseira.

Pesquisadores da cultura de Austen observam que a mesma carta revela, por trás da pose de ódio, um dado objetivo: Twain lia “Orgulho e Preconceito” repetidas vezes. A expressão “toda vez que leio” pressupõe retorno constante ao romance. Essa recorrência levou ensaístas contemporâneos a sugerir que o desconforto não impedia a leitura, mas talvez a motivasse, aproximando a atitude do que hoje se chama “hate reading”, a prática de consumir uma obra que irrita, mas continua irresistível.

O alvo escolhido também não é neutro. No fim do século 19, quando Twain escreve a Twichell, Austen já começava a ser transformada em ícone de um certo gosto literário de classe média, associado a refinamento, domesticidade e romance. O ataque é lido por especialistas como reação a esse culto nascente, que fazia da autora uma espécie de patrona de um ideal de civilidade britânica. Ao zombar dela com imagens violentas, Twain ridiculariza, indiretamente, o público que a reverencia.

Com o crescimento do mercado de correspondência de escritores e, depois, com a digitalização de acervos, o trecho passou a aparecer em coletâneas de insultos literários e em colunas que exploram bastidores da vida literária.

No século 21, a mesma passagem é comum em plataformas de citações, em posts de redes sociais e em listas de “piores opiniões de grandes autores sobre clássicos”. Em comunidades virtuais dedicadas a Jane Austen, o comentário é citado em debates sobre masculinidade na crítica literária, resistência histórica à autoria feminina e fronteiras entre discordância estética e desprezo. Em fóruns de leitores de Twain, costuma ser apresentado como exemplo do humor agressivo associado ao escritor.

Para analistas da vida literária, a circulação contemporânea da citação cria um efeito particular: uma imagem concebida em registro privado, num diálogo entre amigos, ganha status de declaração pública definitiva sobre outra autora. Ao ser recortada do contexto epistolar, a frase se aproxima de uma espécie de “tweet” permanente, disponível para ser usada como arma em discussões sobre o valor de Austen. A transformação da carta em munição retórica exemplifica um padrão em que documentos pessoais de figuras canônicas são reapropriados para alimentar disputas de gosto.

Sob a perspectiva de gênero, a virulência verbal de Twain alimenta uma leitura mais autocrítica da cultura literária. O contraste entre a imagem de violência física e a natureza dos romances de Austen — centrados em conversas, gestos contidos e negociações sociais — expõe uma tradição de desvalorização do trabalho narrativo associado ao doméstico e ao feminino, apontada por pesquisadoras de literatura inglesa. Ao investir contra a autora com vocabulário quase cartunesco, Twain deixa entrever o incômodo de parte do establishment masculino com o prestígio crescente desses romances.

O episódio oferece um retrato de como a história literária registra conflitos. Entre duas obras que raramente dialogam diretamente, a narrativa que sobrevive no imaginário é a do insulto espirituoso, reproduzido em capas de livros, vídeos e imagens compartilháveis. A carta de 1898, guardada num primeiro momento como documento pessoal em arquivos, hoje aparece ao lado de retratos de Austen e Twain, convertida em slogan involuntário de uma rivalidade mais complexa que a imagem do fêmur sugere.