A salvação é um encargo que cada um administra da maneira como julga conveniente. É sempre possível que depois de um histórico de errâncias um homem reconstrua sua vida, devotando mais cuidado a suas atitudes, paranoico até frente à mais pálida chance de replicar as falhas que o jogaram num limbo perverso, por mais que não tivesse culpa e nada pudesse fazer em sua defesa. Em algumas circunstâncias, o passado é como um monstro que pensamos encerrar numa gaiola de ouro, nutrindo-o e o acalentando, até que ele, enfim, apresenta sua verdadeira força. O amor talvez seja o único adversário poderoso o bastante para vencê-lo, escudado na promessa de nunca se acabar, mas à medida que os dias, os meses, os anos correm, o tempo prova-se uma força tirânica, capaz de destruir todo laço. Leopold Gursky, o protagonista de “A História do Amor”, é dessas pessoas que permanecem presas num momento infeliz de sua jornada, despertando no público emoções controversas. O filme de Radu Mihăileanu desbrava o território agreste do amor refém da memória, trazendo à luz reflexões poéticas e lúgubres. Romeno radicado na França, Mihăileanu e a corroteirista Marcia Romano adaptam o livro de mesmo nome de Nicole Krauss dando ênfase à premissa de que há eventos que congelam o indivíduo em sua desdita. Por mais que ele não queira.
“Era uma vez um rapaz que amava uma moça”. Esse começo aparentemente banal esconde uma narrativa intrincada, que se enrodilha em seus mil detalhes e seduz quem assiste, depois de uma certa aversão inicial. Leo é um imigrante judeu vivendo sozinho em Nova York, mas suas lembranças não se cansam de remetê-lo à Polônia de sua juventude, quando conhecera Alma Mereminski, a garota com quem planejava casar-se antes que o nazismo tratasse de reduzir seus sonhos a pó. Não fosse a doida ilusão de rever Alma, Leo já teria desistido, e o diretor enfronha-se nos causos do velho para juntar as duas pontas do filme. Mihăileanu vai e vem no que o protagonista conta, a ruína financeira e moral causada pela guerra, a diáspora que o obrigou a deixar seu shtetl, junto com outros três milhões de judeus, e, por fim, a chegada à Grande Maçã, caótica e fascinante. É o Leo octogenário quem narra suas desventuras, o solitário morador de um apartamento diminuto em Chinatown, e um flashback leva o espectador a conhecê-lo na flor da idade. Derek Jacobi encontra o tom exato de ranzinzice e ternura do personagem, amalgamando sua interpretação ao Leo jovem de Mark Rendall, que evoca o romantismo que se perdeu nele.
Alma também saíra da Polônia com destino a Nova York, mas casou-se com outro homem, e esse é o filme dentro do filme. Por trás dessa subtrama, aparece uma outra Alma, que dá corpo a elucubrações acerca do amor gorado e seus traumas. Um livro chamado “A História do Amor” esconde o argumento mais interessante, evidenciado por Mihăileanu, ocasião em que Gemma Arterton e Sophie Nélisse brilham ao frisar que o tempo até enfraquece o amor verdadeiro, mas jamais o sufoca.
★★★★★★★★★★