Autor: Eberth Vêncio

Como interpretar sonhos sem cair no ridículo

Como interpretar sonhos sem cair no ridículo

Enquanto eu dormia, minh’alma saiu pra dar um rolezinho e nunca mais voltou. Papai não gostou nada da brincadeira. Sou espirituoso. Ele é espiritualista. Às vezes me chama de espírito-de-porco. Ele cria e crê piamente que as almas dão sim os seus passeios enquanto estamos dormindo. Ninguém enxerga, mas lá estão elas, a rosetar pelo limbo. Por que motivo elas não permanecem ali, nem eu, nem ele saberíamos dizer. Eu, se fosse uma alma com hábitos noturnos, pessoalmente, ainda que pequena, ainda que valesse a pena, não voltaria para o meu corpo nem às custas de um despertador gritando na escrivaninha.

Eu sou feito de música

Eu sou feito de música

Eu sou feito de música. Mesmo quando estou dormindo, eu sou feito de música. Certa noite, sonhei que uma clave de sol perseguia-me pela pauta de uma partitura escura. A história toda foi uma espécie de ópera, um misto de drama e riso. Pode não parecer, mas o som é feito de luz, principalmente quando eu me sinto mais solitário, pra baixo, semínimo, breve, grave, pior que um violoncelo quando rompe uma das cordas. Não me recordo quando foi que rompi com a lira. Meus pensamentos andam pragmáticos demais, pesados demais, dignos da poesia concreta.

Atingi a impressionante marca de 1 milhão de amigos e ninguém pra acender a porcaria do cigarro

Atingi a impressionante marca de 1 milhão de amigos e ninguém pra acender a porcaria do cigarro

Atingi a impressionante marca de 1 milhão de amigos e ninguém pra acender a porcaria do cigarro. Força de expressão. Eu não fumava. Eu não metia há meses. E mais: não permitiam que se fumasse ou que se metesse dentro de hospitais, a não ser a raça médica e o selecionadíssimo corpo de enfermagem cujo índice de rejeição entre os molambos da ala masculina beirava zero.

Para ajudar a destruir um mundo pior

Para ajudar a destruir um mundo pior

Todos da equipe acordaram com aquele gostinho de sangue na boca. Era como se tivessem chupado um stent enferrujado a noite inteira. Isso parecia até piada, pois eles demonstravam não possuir coração algum dentro do peito, somente ideias mirabolantes. Enquanto dormiam, feriram-se nos lábios de tanto sonharem com um mundo pior. Nada era tão ruim que não pudesse ser piorado. Um deles sofreu um choque anafilático ao morder a própria língua. Não lamentei. O acidente foi merecido.

Eu gosto de ler Paulo Coelho, de tomar injeção e de comer jiló

Eu gosto de ler Paulo Coelho, de tomar injeção e de comer jiló

Eu gosto também de me resfriar com as chuvas de verão. Gosto da coriza, dos 40 graus de febre, de curtir ressaca brava e de preparar fumegantes chás de boldo. De amarga, já basta a vida? Ao contrário das seriemas e do resto da humanidade, eu gosto das cobras (porque, como eu, elas engolem sapos). Eu gosto de votar em políticos que adesivam o meu carro com fotos, números e slogans, que encham semanalmente o tanque de gasolina, e que coloquem créditos no meu aparelho celular. Eu gosto de acordar bem cedo no domingo e votar no primeiro candidato cretino que me venha à mente. Bom mesmo é vender o voto.

E se Deus for a mulher?

E se Deus for a mulher?

A multidão dolente desceu a duna pelo caminho mais fácil. Ele não. Ele tomou um tranco por trás desferido pela própria companheira — um golpe seco e preciso, mais conhecido como “alavanca dos cretinos” — fazendo com que rolasse feito um rocambole pelo íngreme paredão de areia, até se estatelar na praia, de barriga pra cima, braços e pernas abertos, largado. Enfim, o sujeito parecia uma estrela-do-mar morta de sede. A maré subia. O conceito com a esposa decrescia mais rápido que o cagar da gaivota no barquinho a deslizar no macio azul do mar.