Autor: Eberth Vêncio

Em São Paulo, a cada dia, uma pessoa enlouquece

Em São Paulo, a cada dia, uma pessoa enlouquece

Há certas coisas que acontecem no mundo que você nem se dá conta. No mundo, a cada dez minutos, alguém pega AIDS e o controle remoto da TV. Nos países miseráveis da África, a cada cinquenta anos, um negro come a alcatra de alguém que já morreu. Em Brasília, a cada quinzena, quinhentos correligionários saem para jantar juntos e tramar contra o erário. No Congresso Nacional, a cada semestre, dez deputados investem quase todas as suas economias obtidas com propina para abrir uma pizzaria no Plano Piloto. Na sede campestre do Supremo Tribunal Federal, a cada final de semana, ou um juiz cava um pênalti, ou anula um gol legítimo. A torcida vai à loucura. No Brasil, a cada quatro anos, um malandro veste a sua armadura de vidro e, na cara dura, garante que vai salvar a pátria amada.

50 tons de cinza: o amor é fogo que arde sem se ver?

50 tons de cinza: o amor é fogo que arde sem se ver?

Lia parcamente. Vivia porcamente. Não gostava de poesia. Nunca ouvira falar em Luís Vaz de Camões. Era viciado em sexo, mas, péssimo nas traições. Regra geral, algo sempre saía errado. Por exemplo: o lance da tortura erótica com uma vela de sete dias durou apenas sete minutos e foi um verdadeiro fiasco: o sujeito foi parar num pronto-socorro com queimaduras de segundo grau nos colhões. Em matéria de aventuras extraconjugais, era assíduo, mas, desajeitado.

A esperança não apenas já morreu, como começa a cheirar mal

A esperança não apenas já morreu, como começa a cheirar mal

Os extremistas vão fazendo escola. A coisa toda da crueldade começa bem cedo. Lembro-me, por exemplo, de uma história indigesta da minha meninice, quando um bando de pirralhos substituiu com esperma o catupiry de uma empadinha, e obrigou que um garoto do colégio degustasse a iguaria adulterada sob a sua mira implacável. Pura traquinagem de criança, deu pra notar? A sofisticação em brutalizar só toma corpo com o tempo.

Eu queria ser Clint Eastwood para dar um tiro na sua cara

Eu queria ser Clint Eastwood para dar um tiro na sua cara

O calor que tem feito esses dias deve estar cozinhando os meus miolos. Um sujeito chegou perto de mim e disse me passa a carteira. Mesmo com o trabuco na mão, eu não passei a carteira porque não ando com carteiras. Entreguei uma mochila com coisas de pouco valor como livros, um kit de barbear e um pacote de camisinhas. Não leio, não me barbeio e não meto há tempos, desde sábado. O cara montou na garupa de um cavalo, digo, de uma moto na qual um comparsa o aguardava, e ambos vazaram dali mais rápido que o evacuar de um ganso.

As melhores coisas a gente pode fazer na chuva

As melhores coisas a gente pode fazer na chuva

Tem gente que quer se casar. Tem gente que quer comprar uma bicicleta. Tem gente que quer trocar de carro. Tem gente que quer dar uma volta ao mundo. Tem gente que viaja demais na maionese. Tem gente que quer perder uns quilos. Tem gente que acha a vida muito pesada. Tem gente que quer botar umas tetas novas. Tem gente que quer um cargo comissionado. Tem gente que quer fazer um check-up. Tem gente que quer pular de uma ponte. Tem gente que quer ter um filho. Tem gente que não fala mais com os pais. Tem gente que só quer a herança. Tem gente que rasga dinheiro. Tem gente que fala rasgado. Tem gente que perdeu a esperança.

Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com o meu trator

Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com o meu trator

Não se dizia outra coisa em Shitland: o prefeito surtou. Sob seu ponto de vista e dos baba-ovos, ele fazia uma gestão supimpa, histórica, revolucionária, a melhor de toda a vida. Nem a sua mãe concordava. A velhota ficou nervosa quando o pimpolho — por medidas de contenção de gastos e também porque não gostava da poesia de Manuel Bandeira — ordenou a demissão sumária de milhares de vagalumes nos postes de luz, deixando a cidade às escuras, numa clara retaliação aos namorados.