Eu não gosto de nada que o mundo gosta

Eu não gosto de sonhar dormindo mais do que eu sonho ao permanecer acordado. Eu não gosto do altruísmo narcisista das redes sociais. Eu não gosto de carinho quando estou nervoso. Eu não sou um cãozinho faminto que rola e late. Ainda que seja amargo como eu, eu não gosto de chocolate. Eu não gosto de esconder os ovos de Páscoa das crianças nos arbustos do jardim. Eu não gosto de brincar com os sentimentos dos outros. Eu não gosto de ficar bêbado até dizer a verdade.

Eu não mereço ser encoxado

Quando me dei conta, tinha um sujeito bufando atrás de mim, e não era um zagueiro de futebol fazendo uma marcação homem a homem, embora, admitamos, a vida é um jogo escroto. Aconteceu que eu viajava em pé dentro de um metrô lotado quando, sem que eu percebesse — juro por Deus, prezados ateus! — um camarada esfregou-se pra valer na minha mochila de couro de ornitorrinco (suponho que, na confusão do aperto, o folgado supusesse que a tal mochila não era uma mochila, se é que me entendem) ao ponto dele ouvir os sininhos dobrarem e quase acender um cigarro dentro daquele compartimento infernal hermeticamente fechado, o qual os gestores públicos chamam, cinicamente, “meios de transporte em massa”.

O amor quando acontece, a gente esquece logo que sofreu um dia

Tirou a bala da coxa dela e sentiu que aquele estremecimento interior devia, sim, ser o tal amor à primeira vista. Pensem numa mulher bonita. Imaginem agora que ela flutue, que possua um par de pernas tão gigantescas e acolhedoras que façam com que qualquer sujeito se sinta na obrigação de derrubá-las, como se fosse um avião penetrando nas Torres Gêmeas. Ah… Certa vez, namorei uma trinca de gêmeas siamesas que miavam no quintal dos meus delírios como gatas embriagadas de amor. Uma gozava em falsete, outra fazia a segunda voz, e a terceira não dava um só piu, um ui que fosse: odiava-me.

Por mim, linchamos o miserável e depois vamos à missa

“O moleque ter sobrevivido foi obra de Deus”, disse o vendedor de loterias, que era crente feito o cão (se me permitem o chiste herético). Era uma daquelas tardes modorrentas na louca cidade, quando um caminhão desgovernado bateu num caminhão do Governo que bateu numa moto que conduzia um casal que morreu esmagadim na hora sem saber de quê nem pra quê. Não vou aumentar a estória, nem fazer piada com a dor alheia, mas contarei o fato a minha maneira: isto aqui é uma crônica baseada em fatos reais que mais parecem inventados.

10 canções fundamentais do rock brasileiro nos últimos 50 anos

Uma lista com as dez melhores canções de rock brasileiro em todos os tempos, só os clássicos, uma espécie de repertório fundamental “Para gostar de rock”, indispensável aos neófitos em música, uma trilha sonora redentora para ser ensinada às crianças, em escolas de Ensino Básico e Fundamental, ao invés simplesmente enfileirá-las numa esteira até caírem num gigantesco moedor de carnes, conforme denunciado pelo Pink Floyd no filme “The Wall”.

65 dicas essenciais para se dar bem no sexo e, quem sabe, no amor e nos jogos

Se for preciso, minta. Se for impreciso, está perfeito. Jogue buraco com a mãe dela. Jamais abra contas conjuntas. Faça um 69 e todas as outras combinações numéricas possíveis. Lave suas próprias cuecas. Nunca palite os dentes num restaurante. Escreva alguns versos para ela, ainda que as rimas fiquem pobres. Não vai ficar rico. Então, curtam juntos o pouco que o seu dinheiro consegue comprar.

Mais de mil palhaços no salão

Resolvi escrever e publicar esta crônica após o carnaval, pois eu tinha certeza que quase ninguém a leria, multidão ocupada em pescar traíra nas lagoas da vida; em queimar contrafilé na laje; em cantar antigas marchinhas carnavalescas politicamente incorretas (como aquela que põe em xeque a opção sexual do cabeludo Zezé, e outra que debocha de um vovô cuja pipa já não sobe mais); em travestir-se; em pesar a mão na maquiagem; em espremer-se atrás de um trio elétrico lotado de mulheres gostosas seminuas e um punhado de músicos exauridos que tocam sem parar que nem playback.

Minha entrevista com Elton John

Assim que adentrei o camarim de Elton John senti o baque dos 19 graus centígrados na cacunda, uma exigência do cantor para tocar em Goiânia, capital plantada no meio do cerrado, na quentura do centro-oeste brasileiro. Elton pareceu-me gordinho, usava um roupão de cor grená e tinha os pés massageados por um serviçal efeminado adornado com mais anéis e piercings do que um varal de roupas no jardim, o qual utilizava um cosmético local feito à base de pequi, produto genuinamente goiano, que deixa a pele hidratada, macia e, claro, com aquele aroma de pequi que o Elton simplesmente achou o máximo.

Happy-hour para estupradores, cucarachas e afins

O estupro foi tenso, mas, divertido. A primeira coisa que fizeram ao chegar àquele boteco copo-sujo foi esparramar sobre a mesa ensebada a féria do dia e pedir que o proprietário da espelunca — um conhecido, reconhecido e admirado traficante da comunidade do Caixote Quebrado — descesse rapidinho uma cerva estupidamente gelada, a fim de comemorarem o sucesso do ataque. Era meio que uma confraternização pela meta atingida, ferramenta de gestão muito utilizada pelos gestores de pequenas e médias empresas, vocês sabem, apesar da informalidade daquela corja.

Cada escritor tem os leitores que merece

Envelhecer é uma merda, sim, eu sei, é verdade. Mas, com o passar dos anos e algum grau de esforço observatório (tá bom: pensar cansa muito, é difícil, vá lá…), é possível chegar a algumas conclusões quanto à vida, às pessoas, especialmente à conjuntura amalucada do habitat em que se (sobre)vive. Com a velheira em andamento, eu descobri por exemplo que a maioria das gentes gosta dos feriados; de acordar tarde; do bife bem passado; do ovo com a gema mole; de apalpar nádegas durinhas; do coito sem camisinha; de chupar balinha; de reclamar do governo; de reclamar da sogra.

Por que é mesmo que a gente usa drogas?

Foi assim com o laureado ator americano. Foi assim com uma caravana de outras estrelas do cinema, da música, do show business, enfim. É assim com a legião de viciados incógnitos, pessoas comuns com hábitos e dependências tão comuns que os têm conduzido a uma miséria para lá de comum: a ruína da dignidade, o esfacelamento dos relacionamentos, o isolamento, a associação ao crime, a autodestruição por overdose. Mudam os atores, mas o roteiro do dramalhão permanece o mesmo.

As 10 músicas mais chatas de todos os tempos

Caro leitor, qual a música mais chata que você já ouviu em todos os tempos? Fiz uma enquete virtual com amigos e contatos nas redes sociais e, listei a seguir as muito provavelmente 10 Músicas Mais Chatas de Todos os Tempos. Mesmo sabendo que os nossos chatos são melhores que os chatos de outras nações, por uma questão de bairrismo, de reserva de mercado da chatice, e para evitar bullying por todo território nacional, poupei o pessoal da MPB deste ranking às avessas. Confira aí se a brincadeira faz sentido ou se foi eu que acordei chato à beça hoje.

Crescer faz mal à saúde dos sonhos

Você se lembra que pretendia mudar o mundo, mas, o máximo que conseguiu foi mudar de endereço e de analista? Você se lembra que tinha certeza absoluta que no final tudo daria certo, mas percebe que atualmente tem algo de muito errado na ordem do dia, quando um punhado de gente acredita que sempre haverá algum espaço para as coisas piorarem mais um pouquinho? Você, por outro lado, se lembra também que naquela época toda criança tinha salvo conduto para sonhar o quanto quisesse, ainda que o sonho fosse muito esdrúxulo, do tipo “voar que nem passarinho”?

Que tal um rolezinho na biblioteca?

Não sei a quantas andam as coisas aí na sua cidade, mas, por aqui, meu chapa, os filmes do Quentin Tarantino até pareceriam lorotas da Galinha Pintadinha: neguinho tá pitando crack, bordando e matando só pra ver o tombo. Nos dizeres dos malas, tá tudo dominado. Antes que os chatos de plantão me acusem de branquelo preconceituoso por eu ter utilizado o termo “neguinho” no sentido pejorativo, aviso logo que não sou segurança de shopping center pra ficar apartando gente de acordo com o grau de melanina na carcaça, não.

Estupros coletivos, pesadelos particulares

Eu sei que acabamos de adentrar o ano de 2014, e ainda há milhares de pessoas arrotando cidras cereser e gozando merecidas férias, e muitos ainda se ocupam em anotar numa embalagem de padaria as metas para o ano que se inicia. Não quero atrapalhar a digestão, muito menos, as férias de ninguém com as minhas reflexões acerca das reincidentes atrocidades humanas. Mas acontece que a ruindade do homem não respeita os pipocos do champanhe. Na engenharia da maldade, não existe o botão de “Pause”.

Dicas inacreditáveis para se fracassar em 2014

Indesejável leitor, se você se dispôs a ler este texto: meleca! Você deve ser um curioso terminal, um fracassado contumaz ou uma criatura que se dependura num cabide de empregos governamentais para servir café frio aos colegas, assediar as gostosas companheiras de ócio no palácio ou prestigiar os eventos festivos do seu partido. A ordem dos detratores não altera o salvo conduto.

Coisas que você vai pedir, mas Papai Noel não vai trazer

Lamento empatar o seu amigo oculto, arranhar a lataria do espírito natalino que se apoderou da redoma planetária nos últimos dias, mas, existem certas coisas que você vai pedir ao Papai Noel e ele não vai trazer de jeito nenhum. Eu sei que já estou até ficando com fama de escritor maldito de tanto destilar as mazelas humanas nos meus textos, portanto, se você prefere sair para doar (se desfazer) a sua sacola de roupas velhas e puídas para os relegados de um asilo ou, ainda, se propõe a assistir da última fila, por questões de presbiopia e segurança, ao coral de facínoras desafinados da penitenciária local cantando o Jingle Bells, ao invés de ler esta crônica burlesco-natalina, fique à vontade.

As 10 melhores canções dos Beatles

Entre os dias 20 de novembro e 3 de dezembro, pedimos aos leitores, colaboradores, seguidores do Twitter e Facebook que apontassem quais são as melhores músicas da banda inglesa Beatles, 723 participantes responderam a enquete. A partir das indicações, foi elaborada uma lista com as 10 melhores, sintetizando a opinião dos leitores. Discutível como qualquer lista, esta também não pretende ser abrangente e reflete apenas a opinião dos participantes da enquete.

Eu vou criar polêmicas porque hoje é sábado

Se chover, eu vou tomar um banho, porque hoje é sábado. Todos os dias, antes de sair e surtar, eu leio um poema do Vinícius. Poeta, meu poeta camarada, por que o ontem, o hoje e o amanhã não podem ser vividos como se sábado fossem? É apenas segunda-feira, e o mau humor é sorvido com torradas no desjejum silente, mesmo assim, eu já vejo nuvens em forma de bundas. Por que será que hoje tá com cara de sábado, querida?