Autor: Eberth Vêncio

Poesia não enche barriga

Poesia não enche barriga

“Uma mulher que palita os dentes num restaurante não possui a menor credibilidade, muito menos merece um soneto” — pensou cheio de inconformismo, enquanto derramava café expresso no túnel esofágico. Chamou o gerente, reclamou do preço da chuleta, do atendimento do garçom, do calor que fazia ali dentro, da morena que arrancara nacos de carne presos entre os molares, do intestino solto do recepcionista, de qualquer coisa que justificasse o não pagamento da gorjeta pelos serviços prestados.

Lista dos sonhos que nunca envelhecem

Lista dos sonhos que nunca envelhecem

Fazer um recall da Big Bang. Disputar o céu com os pássaros usando apenas as minhas asas de cobra. Morrer pela boca num beijo bem velhinho dormindo num dia de domingo e despertar no paraíso com a cabeça repousada no colo da vovó com Deus uma mulher (que surpresa incrível!) a coar o café. Enterrar pessoas só de brincadeirinha única e exclusivamente na areia. Construir castelos na praia sem ter medo da maré.

Guia rápido para tomar o poder e manter as amizades

Guia rápido para tomar o poder e manter as amizades

“Perdi um amigo”, ele disse. Não que o dito cujo tivesse se lascado e morrido. Não era nada isso. Não que ele estivesse nalgum paradeiro desconhecido, errando de maneira insana, a esmo, sem eira nem beira. Também não. Ele apenas supunha que alguém descartaria a sua amizade. Era isso. Ele não quis desdenhar da situação, dizer que não estava nem aí pra paçoca. Pois pertencia àquele tipo de gente cujos amigos podiam ser contados nos dedos que ainda assim sobrariam falanges. Daí o desassossego sincero, condoído, que sentia por causa do entrevero. “Nos dias de hoje, perder um amigo não é brinquedo, não é coisa que se comemore”— concluiu, mais frustrado que uma freira morta ao bater na porta do céu e descobrir que, na verdade, ele nunca existira.

Só leia isso se não tiver mais nada pra fazer

Só leia isso se não tiver mais nada pra fazer

Não me queiram mal, não me desentendam, não vão pensar que eu pirei. É que, realmente, hoje estou feliz. E com felicidade se brinca. Sinto-me tão alegre que poderia até lhes escrever um texto fofo e otimista, desses que falam do amor vencendo no final. Afinal, o que seria do mundo se não houvesse o contrapeso de uma rima à altura da dor?

Amai-vos uns aos outros, mas só se for pra valer

Amai-vos uns aos outros, mas só se for pra valer

Não. Eu não quero um empréstimo consignado. Eu não quero informações privilegiadas de um ex-diretor do Banco Central que atua no mercado financeiro. Eu não quero saldo ilimitado no cartão de crédito. Aliás, eu não quero que me enviem mais cartão algum com a primeira anuidade grátis. Eu não quero as menores taxas de juros do mercado. Eu não quero que você faça “aquele meio campo” pra mim durante a reunião. Eu não quero ser promovido a nada.

Amor à pátria é o cacete. Eu gosto mesmo é de dinheiro

Amor à pátria é o cacete. Eu gosto mesmo é de dinheiro

É época de eleições no Brasil. Os ânimos e a intolerância estão exaltados, e o país parece muito claramente dividido em duas vertentes políticas que, ao menos nos discursos dos candidatos e nas bravatas das redes sociais, parecem antagônicas. Se bem que, depois que o Homem Sem Dedos e O Caçador de Marajás beijaram-se na boca, nada mais parece tão diferente e inovador como se supunha.

Os homens — estes, sim — deveriam lamber os seus cães

Os homens — estes, sim — deveriam lamber os seus cães

Para o meu cão, deixo o mundo: osso duro de roer. Para o mundo-cão, deixo um esqueleto no armário: resquícios do poeta que minguou em mim. Para os grande cânions, deixo pequenas demonstrações de desespero: os meus latidos de inconformismo a ecoarem, a ribombarem contra as rochas e confundirem os ecos. Para ondas e correntes, deixo as minhas braçadas rio acima.
Para o jardim de inverno, deixo os tais sonhos de uma noite verão. Vocês verão — prezados lírios — que, de tão simplórios, até poderiam ser chamados delírios, ao invés de sonhos.