Autor: Eberth Vêncio

Vou atirar um avião contra os Montes Urais para provar que te amo

Vou atirar um avião contra os Montes Urais para provar que te amo

“A cidade é uma moça”. Partindo dessa premissa, aportou no Rio, onde nadou, nadou, nadou, nadou em busca de um amor, mas morreu na praia. Foi reanimado com falta de jeitinho pelos simpáticos cariocas praianos, com mate gelado na fuça e um sol a pino a esturricar o seu coração partido. Partiu, então, para São Paulo, terra das oportunidades e das atrocidades. O nome pomposo de santo apostólico romano não impediu que a louca metrópole o engolisse. E mais: ao contrário do que o poeta baiano cantou em Sampa, nada de diferente aconteceu no seu coração ao cruzar a Ipiranga e a Avenida São João.

Que Deus jamais me faça nascer mulher ou escritor

Que Deus jamais me faça nascer mulher ou escritor

Bolei. Será que os homens também sofrem as agruras de uma TPM? Deve ter um pedaço de ovário a germinar num canto qualquer das minhas entranhas, atrás de uma tripa, sei lá. Só pode. Quem sabe, ele brotará calado na curva estomacal, disfarçado de víscera irrelevante, lado a lado com o meu panceps. O bom e velho panceps. O que será isso?

Eu não preciso de delação premiada para confessar o quanto odeio tudo isso

Eu não preciso de delação premiada para confessar o quanto odeio tudo isso

Pode parecer veadagem da minha parte, mas senti uma vontade danada de me casar com aquele cara. Era um pilantra garrido, rico a granel, de pele boa, com um charmoso sotaque carioca, e que transmitia uma segurança do cacete. Pensei deve ter tido aulas de oratória com o cão-tinhoso. Valendo-se de um português perfeito, o pulha de black-tie garantiu que repatriaria cerca de duzentos milhões de patacas, a pedido da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da União, do Papa Francisco e da Xuxa.

Lugar de mulher é na cozinha

Lugar de mulher é na cozinha

Enquanto lavava as louças, ouviu pelo rádio que no próximo domingo seria comemorado o Dia Internacional da Mulher. Na altura do campeonato, achava aquilo irrelevante. A meta era se matar antes do final da quaresma. Acredite quem puder: a única carne vermelha que comiam naqueles dias era o seu coração vazio servido num prato fundo.

Em São Paulo, a cada dia, uma pessoa enlouquece

Em São Paulo, a cada dia, uma pessoa enlouquece

Há certas coisas que acontecem no mundo que você nem se dá conta. No mundo, a cada dez minutos, alguém pega AIDS e o controle remoto da TV. Nos países miseráveis da África, a cada cinquenta anos, um negro come a alcatra de alguém que já morreu. Em Brasília, a cada quinzena, quinhentos correligionários saem para jantar juntos e tramar contra o erário. No Congresso Nacional, a cada semestre, dez deputados investem quase todas as suas economias obtidas com propina para abrir uma pizzaria no Plano Piloto. Na sede campestre do Supremo Tribunal Federal, a cada final de semana, ou um juiz cava um pênalti, ou anula um gol legítimo. A torcida vai à loucura. No Brasil, a cada quatro anos, um malandro veste a sua armadura de vidro e, na cara dura, garante que vai salvar a pátria amada.

50 tons de cinza: o amor é fogo que arde sem se ver?

50 tons de cinza: o amor é fogo que arde sem se ver?

Lia parcamente. Vivia porcamente. Não gostava de poesia. Nunca ouvira falar em Luís Vaz de Camões. Era viciado em sexo, mas, péssimo nas traições. Regra geral, algo sempre saía errado. Por exemplo: o lance da tortura erótica com uma vela de sete dias durou apenas sete minutos e foi um verdadeiro fiasco: o sujeito foi parar num pronto-socorro com queimaduras de segundo grau nos colhões. Em matéria de aventuras extraconjugais, era assíduo, mas, desajeitado.