Autor: Revista Bula

Aos 47 anos, o tumor interrompeu a vida. Mas a canção se recusou a morrer. Ela já havia virado lenda

Aos 47 anos, o tumor interrompeu a vida. Mas a canção se recusou a morrer. Ela já havia virado lenda

Do apartamento em Copacabana ao palco vigiado de “Opinião”, do cinema de Goiânia ao estúdio dos meses finais, Nara Leão transformou delicadeza em critério. Deu nome inteiro a compositores esquecidos, escolheu sílabas com precisão, sustentou pausas como quem guarda uma promessa. Entre 1964 e 1989, atravessou censura, exílio afetivo, reabertura política e doença, deixando um método simples: ouvir antes de cantar. A sua voz, baixa e firme, ainda ensina atenção; o legado aparece nas contracapas, nas fichas técnicas e nas escutas domésticas.

O poeta maldito que fez o país cantar e morreu esquecido aos 47 anos: a tragédia de Sérgio Sampaio

O poeta maldito que fez o país cantar e morreu esquecido aos 47 anos: a tragédia de Sérgio Sampaio

Entre uma janela mal fechada em Santa Teresa e um palco que ainda ressoa, a vida de Sérgio Sampaio atravessa pensões, estúdios de lâmpada quente e mesas de bar onde o convite cabe no verso de um guardanapo. Há um refrão que o país adotou e há canções guardadas em cozinhas, corredores, fitas. A história corre por dentro de censuras miúdas, de vendas tímidas, de plateias pequenas, e insiste em ficar. Quando a cidade se silencia, a marcha retorna, baixa e precisa, chamando de novo o bloco para a rua.

No dia em que completou 36 anos, ela decidiu que não haveria mais manhã seguinte. Antes, escreveu a própria tragédia

No dia em que completou 36 anos, ela decidiu que não haveria mais manhã seguinte. Antes, escreveu a própria tragédia

Filha ilegítima num país em convulsão, Florbela Espanca cresceu entre silêncios e salas de visitas que mediam cada gesto. Estudou, casou-se três vezes, divorciou-se quando isso custava reputação, escreveu do corpo e pagou o preço. Perdeu o irmão, enfrentou consultórios e noites em claro, sustentou a própria voz numa república instável e sob a sombra que antecedeu o Estado Novo. No aniversário de 36 anos, em Matosinhos, escolheu o fim.

Ela foi a primeira mulher a vender 100 mil discos de samba. Venceu a fome e o machismo. Morreu aos 40 anos, de forma absurda

Ela foi a primeira mulher a vender 100 mil discos de samba. Venceu a fome e o machismo. Morreu aos 40 anos, de forma absurda

Em 1983, o Brasil aprendeu a esperar à porta de um hospital e, com a notícia, ganhou um silêncio que ainda marca o peito. Esta crônica acompanha Clara Nunes da infância em Paraopeba à consagração no Rio, atravessa quadras, estúdios e televisão, visita a clínica, o velório na Portela e o rastro que ficou na música e na vida comum. Sem mitificar, nomeia feridas, gestos e decisões de som. O resultado é um retrato com rito, respeito e futuro, atento ao país que ela afinou.

Casou aos 12. Foi mãe aos 13. Perdeu dois filhos para a fome. E fez da dor um monumento

Casou aos 12. Foi mãe aos 13. Perdeu dois filhos para a fome. E fez da dor um monumento

Elza Soares nasceu em 1930, no Rio das periferias invisíveis, e atravessou um século em que governos apararam vozes e prometeram modernização com fome. Saiu de um barraco de madeira e zinco para palcos sob censura, recolheu-se quando precisou respirar, voltou com fôlego inteiro e ocupou espaço. Na velhice, reinventou-se, enfrentou moralismos, devolveu trabalho. Fez da própria vida uma leitura do país: dor sem espetáculo, alegria sem máscara, música como sobrevivência.