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No verão de 1940, Noah Calhoun (Ryan Gosling), um jovem trabalhador de uma madeireira, se apaixona por Allie Hamilton (Rachel McAdams), que passa as férias com a família numa pequena cidade do sul dos Estados Unidos. Ela é rica, ele tem poucos recursos, e os pais da garota consideram essa diferença motivo suficiente para impedir o namoro. Em “Diário de uma Paixão”, de 2004, o diretor Nick Cassavetes acompanha esse relacionamento desde os primeiros encontros, quando a empolgação dos dois ainda consegue deixar em segundo plano as cobranças que logo terão de enfrentar.

A história chega ao espectador pela leitura de Duke (James Garner), morador de uma casa de repouso que dedica parte de seus dias a fazer companhia a uma residente com a memória comprometida, interpretada por Gena Rowlands. Com um caderno nas mãos, ele conta o romance dos jovens, enquanto ela escuta e reage ao que ouve. Cassavetes intercala os encontros na instituição com os acontecimentos do passado, preservando o interesse tanto pelo casal quanto por aquela senhora que deseja saber o que acontecerá na página seguinte.

Um namoro com prazo de validade

Noah se interessa por Allie num parque de diversões e insiste em conseguir um encontro. Há certo exagero nessa apresentação, que associa uma atitude arriscada do rapaz à disposição de conquistar a garota. O charme de Gosling ajuda a passagem, embora a insistência de seu personagem possa parecer menos encantadora do que o diretor pretende. O relacionamento ganha força depois, quando os dois podem conversar, passear, discutir e descobrir o prazer da companhia um do outro.

Rachel McAdams é decisiva para que Allie tenha personalidade além da condição de moça rica apaixonada. Sua personagem é expansiva, curiosa e capaz de contrariar Noah. Ela deseja estar com ele, mas também tem vontades próprias, entre elas o interesse pela pintura. Os dois brigam com a mesma disposição com que procuram se reconciliar. Essa convivência, às vezes barulhenta e um pouco cansativa, dá ao namoro uma intimidade que faz falta em muitos romances mais preocupados com declarações do que com pessoas.

Gosling oferece um contraponto mais contido. Noah tem confiança para se aproximar da jovem, mas percebe que sua dedicação ao trabalho não basta para conquistar a aprovação dos pais dela. Entre os dois atores, existe uma combinação convincente de atração, implicância e afeto. Quando o verão começa a terminar, a possibilidade da separação pesa porque já vimos o que eles gostam de fazer juntos.

Os pais também escolhem o namorado

Anne Hamilton (Joan Allen), mãe de Allie, não considera Noah adequado para a filha. Sua rejeição nasce do dinheiro que ele não possui e da vida que, aos olhos dela, jamais poderá oferecer. Allen interpreta essa mulher com uma firmeza educada que torna suas intervenções particularmente desagradáveis. Anne acredita estar protegendo a jovem e usa a autoridade de mãe para decidir quais experiências ela pode viver.

Cassavetes acerta ao mostrar que a diferença financeira interfere no namoro por meio de pessoas e decisões. Os pais têm condições de levar Allie embora, encerrar as férias e interromper os encontros. Noah pode protestar, mas não dispõe dos mesmos recursos. A separação deixa os dois dependentes de notícias que precisam atravessar essa distância.

O rapaz escreve cartas sem receber resposta. Allie também espera por um contato, sem conhecer tudo o que acontece com a correspondência. O silêncio alimenta a impressão de abandono e ajuda a afastá-los durante anos. Nesse trecho, o sofrimento recebe mais espaço do que seria necessário. A repetição da espera insiste numa tristeza que o espectador já compreendeu, embora Gosling preserve alguma sobriedade diante do sentimentalismo.

Um noivado e uma história pendente

Durante o período de afastamento, a Segunda Guerra Mundial atravessa a vida dos personagens. Allie conhece Lon Hammond Jr. (James Marsden), um militar de família rica com quem inicia outro relacionamento. Ele reúne as qualidades que seus pais valorizam e, além disso, é gentil com ela. O noivado oferece uma possibilidade de felicidade que não pode ser descartada apenas porque Noah foi seu primeiro amor.

Marsden tem o mérito de dar simpatia ao pretendente. Lon não precisa ser grosseiro ou egoísta para que o espectador torça pelo outro casal. Sua presença torna a situação de Allie mais delicada, pois existe alguém que confia nela e pode ser ferido por uma mudança de planos. Gostar de uma pessoa não apaga os sentimentos por outra, e McAdams expressa essa divisão sem fazer da personagem uma jovem incapaz de decidir qualquer coisa.

Quando Allie reencontra Noah, o passado deixa de ser uma lembrança confortável. Ela precisa descobrir se ainda deseja aquela relação e o que está disposta a fazer a respeito. O reencontro também revela o quanto os anos de distância foram preenchidos por suposições. Cassavetes dá espaço à atração dos atores, mas cobra seu preço em discussões e hesitações. Há afeto entre os dois, junto de mágoas que um abraço não resolve.

A paciência de quem conta

Na casa de repouso, Garner e Rowlands trabalham num registro mais delicado. Duke acompanha as reações da ouvinte, espera por sua atenção e prossegue com o relato. Ela pode se interessar, desconfiar ou perder o vínculo com aquilo que acabou de escutar. Rowlands torna essas mudanças perceptíveis com pequenas alterações no rosto e na maneira de responder.

Essas passagens estão entre as melhores de “Diário de uma Paixão”. Garner dá calor à companhia de Duke sem transformar cada gesto numa declaração solene. Diante dele, Rowlands preserva a personalidade de uma mulher que tem curiosidade e opiniões, apesar das dificuldades de memória. A doença interfere no encontro, mas os atores mantêm o interesse na conversa entre aquelas duas pessoas.

Cassavetes por vezes insiste demais em provocar lágrimas. Algumas situações já carregam emoção suficiente antes de receberem tamanho destaque. Ainda assim, o elenco sustenta o romance quando o sentimentalismo ameaça ocupar todo o espaço. McAdams e Gosling dão vivacidade ao namoro, enquanto Garner e Rowlands valorizam o tempo dedicado a alguém. Entre uma discussão dos jovens e uma pausa na leitura, permanece a vontade de acompanhar aquelas pessoas. Duke abre o caderno, retoma a história e conquista mais alguns minutos de atenção de sua ouvinte.


Filme: Diário de uma Paixão
Diretor: Nick Cassavets
Ano: 2004
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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