O papel higiênico fornecido a Ngũgĩ wa Thiong’o na prisão era duro o suficiente para receber escrita. Décadas depois, ao lembrar o episódio, o escritor ainda encontrava algum humor nessa qualidade involuntária do material. Era ruim para a finalidade declarada, mas servia para um romance. Em 1978, detido numa penitenciária de segurança máxima do Quênia, começou a ocupar aquelas folhas com a história que o mundo conheceria como “Devil on the Cross”.
Ngũgĩ havia sido preso no fim de 1977, depois de escrever com Ngũgĩ wa Mirii a peça “Ngaahika Ndeenda”, conhecida em inglês como “I Will Marry When I Want”. A montagem envolvia moradores de uma comunidade e tratava de desigualdade e exploração. Usava o gikuyu, língua falada pelo público com quem os autores queriam conversar. O governo queniano interrompeu a experiência teatral e encarcerou Ngũgĩ, que permaneceu detido até dezembro de 1978.
A lembrança da prisão costumava levá-lo a uma pergunta incômoda. Ele já criticara a sociedade de seu país em romances e peças escritos em inglês. Por que a reação assumira aquela forma quando passou a escrever teatro em gikuyu para homens e mulheres comuns? Em entrevista à NPR, em 2020, explicou que o episódio tornou impossível separar a escolha de uma língua das relações de poder que permitiam a algumas pessoas falar e impunham silêncio a outras.
O raciocínio tinha antecedentes bastante concretos. Educado durante o domínio britânico, Ngũgĩ recordava os castigos escolares por falar sua língua materna. No depoimento gravado pelo Museu Reina Sofía, mencionou surras e placas humilhantes que as crianças eram obrigadas a carregar. O inglês, em compensação, dava acesso ao prestígio escolar e à vida intelectual. Aprender outro idioma vinha acompanhado de uma instrução sobre o valor daquele que a criança trouxera de casa.
O Quênia tornou-se independente em 1963. A prisão ocorreria catorze anos depois, sob um governo africano. Essa passagem entre regimes ajuda a entender a persistência do problema que interessava ao escritor. Uma língua podia continuar excluída dos espaços de prestígio mesmo depois que a bandeira colonial fosse retirada. Ao escolher o gikuyu para o novo romance, Ngũgĩ se dirigia a leitores cuja existência sua formação literária em inglês nem sempre colocara em primeiro plano.
O livro escrito na cadeia foi seu primeiro romance nesse idioma. A personagem central, Wariinga, enfrenta a exploração de patrões e homens poderosos num Quênia marcado pelo dinheiro e pelas desigualdades. A apresentação da Penguin destaca a passagem entre o sofrimento individual da jovem e o reconhecimento de uma desordem social mais ampla. Mesmo confinado, o autor continuava interessado no que se passava do lado de fora. A prisão forneceu as condições de escrita; a ficção não ficou limitada a descrever a cela.
Para escrever, era preciso vencer também um hábito mental. Em entrevista à Universidade da Califórnia em Irvine, Ngũgĩ contou que algumas palavras lhe ocorriam primeiro em inglês, língua em que aprendera a formular certos conceitos. O gikuyu era familiar e, ao mesmo tempo, exigia trabalho. Guardas que o falavam acabaram participando de discussões sobre vocabulário. O romancista encontrou ali interlocutores ocasionais, sem que isso alterasse a natureza da relação entre quem guardava e quem estava preso.
Primeiro, em gikuyu
O texto nasceu no idioma do autor e ganhou uma tradução inglesa feita por ele.
O que mudou na escolha do idioma?
Ngũgĩ passou a criar sua ficção em gikuyu. O inglês continuou presente nas traduções e em outros gêneros de sua produção. A mudança não significou uma proibição absoluta de usar o inglês.
“Caitaani mũtharaba-Inĩ” saiu em 1980. A tradução inglesa, feita pelo próprio autor, foi publicada em 1982 com o título “Devil on the Cross”. Traduzir o livro depois de escrevê-lo em gikuyu preservava uma diferença importante para ele. A língua africana passava a ser o lugar de criação da obra, da qual se partia para alcançar outros leitores. O inglês continuou presente em traduções, ensaios e memórias. A decisão sobre sua ficção não foi um desaparecimento completo desse idioma de sua vida de escritor.
Em 1982, Ngũgĩ foi para o exílio. Continuou escrevendo em gikuyu enquanto vivia em países de língua inglesa e desenvolveu em livros e entrevistas sua reflexão sobre cultura, memória e dominação. Morreu em 2025, aos 87 anos. O romance da prisão permaneceu entre as obras que fizeram seu nome circular muito além do Quênia, inclusive em edições cuja aparência respeitável não deixa adivinhar a origem material do manuscrito.
A história é extraordinária, mas o próprio Ngũgĩ oferecia um detalhe que a devolvia à escala do trabalho. Enquanto procurava as palavras, disse à universidade, ocupava a cabeça com elas, em vez de se concentrar nas condições da prisão. Havia uma frase por resolver, depois outra. E o papel áspero, por uma vez, ajudava.

