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Bula AchadosEnciclopédias impossíveis

Em setembro de 1976, num apartamento no centro de Roma, Luigi Serafini começou a desenhar uma enciclopédia. Não havia país a descrever, povo a catalogar ou ciência a organizar. A fauna, as plantas, os instrumentos e até o alfabeto seriam inventados por ele. Ainda assim, o trabalho exigia a seriedade de quem pretende explicar o mundo inteiro. Durante cerca de três anos, o arquiteto e artista italiano se dedicou a fabricar um conhecimento que ninguém poderia consultar.

O resultado chegou às livrarias em 1981, em dois volumes publicados por Franco Maria Ricci, com o nome de “Codex Seraphinianus”. Suas páginas se comportam como as de uma enciclopédia convencional. Há ilustrações classificatórias, sequências de metamorfoses, observações ao lado de espécies estranhas e linhas cuidadosamente manuscritas. É possível reconhecer a gramática visual do conhecimento. O problema começa quando se tenta descobrir exatamente o que se está conhecendo.

Algumas criaturas parecem animais atravessados por objetos domésticos. Certos vegetais obedecem a regras botânicas que jamais passaram pelo crivo da natureza. Um casal apaixonado, numa das imagens mais conhecidas, termina transformado em crocodilo. Em outras páginas, anatomia, arquitetura, máquinas e costumes recebem a mesma minúcia de um atlas ilustrado. Serafini desenhou tudo com a disciplina de um naturalista a serviço de um universo que ele próprio acabara de inventar.

Por décadas, a escrita que acompanha as imagens atiçou uma turma de leitores interessados em decifrar o segredo do livro. Há caracteres recorrentes, agrupamentos que parecem palavras e sequências capazes de convencer um observador de que existe uma sintaxe. O próprio autor tratou de esfriar a investigação. Em entrevista à revista italiana “Artribune”, em 2022, explicou que a grafia é assêmica, desprovida de significado. Os sinais nasceram de um movimento intuitivo da mão. Não escondem uma mensagem esperando tradução.

A enciclopédia que não se traduz
Escrita assêmica
Os desenhos classificam um universo inventado; a grafia manuscrita tem aparência de linguagem, mas não comunica um significado definido, segundo o próprio autor.
1976–1978 · criação das pranchas1981 · primeira publicaçãoRoma · Luigi Serafini
O que significa “assêmica”?

É uma escrita visual destituída de significado linguístico convencional. Diferentemente de uma cifra, não há um texto original a recuperar por meio de uma chave secreta.

Serafini, portanto, realizou uma experiência bastante cruel com quem confia nos livros. Enfileirou todos os sinais de autoridade de uma obra de referência, inclusive o aparato de desenhos e legendas, e retirou a informação que o leitor foi procurar. O resultado não precisa de mistério sobrenatural para causar estranheza. Parece mais incômodo saber que aquelas letras foram feitas para se parecerem com letras e nada nos devem.

A publicação teve uma história à altura. Segundo contou o artista ao jornal italiano “Corriere della Sera”, ele levou o projeto a Milão e passou dois dias esperando reconhecer o editor Franco Maria Ricci pela fotografia que possuía. Quando o encontrou, seguiu-o até o escritório e colocou desenhos sobre sua mesa. Ricci permaneceu em silêncio. Meses depois, aceitou publicar o trabalho. É uma forma de apresentação pouco recomendável a quem pretende vender um original a uma editora, mas funcionou.

Entre os admiradores estava Italo Calvino, que escreveu sobre aquela enciclopédia de parentescos impossíveis. Calvino percebeu que a perturbação vinha da familiaridade das coisas representadas. Mãos podem terminar em ferramentas; seres vivos incorporam formas de máquinas e utensílios; tudo parece estar a uma mutação de distância do que conhecemos. A estranheza dispensa monstros inteiramente novos. Bastam pequenas alterações nas relações entre os objetos.

Em 2013, quando uma nova edição chegou ao público pela Rizzoli, Serafini voltou a explicar a intenção da escrita em entrevista à “Wired”. Queria provocar no adulto a sensação da criança que abre um livro antes de saber ler. A criança percebe que os adultos compreendem aqueles sinais e começa a imaginar o que contêm. Há certa graça em dedicar anos de trabalho a devolver ao leitor uma incompetência que ele passou a infância inteira tentando superar.

A escolha do formato é decisiva. Se aquelas imagens fossem expostas numa galeria, talvez funcionassem como quadros surrealistas de forte apelo ornamental. Transformadas em livro, ganham vizinhos, classificações, regularidade, uma falsa promessa de sistema. O leitor não olha apenas uma criatura absurda. Começa a compará-la com a criatura da página seguinte, à procura de uma evolução, de uma família ou de um erro de taxonomia. A enciclopédia faz o seu trabalho mesmo quando não ensina coisa alguma.

Desde a primeira edição, “Codex Seraphinianus” passou por novas publicações e por um circuito de colecionadores. A edição comemorativa de quarenta anos, lançada pela Rizzoli, acrescentou quinze desenhos inéditos e recebeu novo projeto gráfico do próprio autor. A explicação do conteúdo, contudo, continua indisponível. Não por falta de estudo ou porque a chave esteja bem guardada, mas porque essa chave nunca existiu.

Há uma pergunta mais divertida do que descobrir o que dizem aquelas páginas. Por que a impressão de que elas dizem alguma coisa resiste à declaração do próprio homem que as escreveu? Talvez porque ler envolva também acreditar numa ordem do mundo. Serafini explorou justamente esse hábito. O leitor atravessa páginas inteiras, reconhece padrões, procura concordâncias e, quando fecha o volume, percebe que foi capaz de acompanhar uma enciclopédia sem entender uma única palavra.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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