Em 1971, um manuscrito apareceu numa exposição do Grolier Club, em Nova York, e conseguiu um feito pouco frequente para um livro antigo. Quanto mais os especialistas o examinavam, mais desconfiavam dele. As páginas de papel de casca vegetal traziam figuras e uma contagem ligada ao planeta Vênus. O proprietário dizia tratar-se de uma obra maia anterior à conquista espanhola. A origem era nebulosa. Faltava justamente aquilo que costuma acompanhar uma descoberta arqueológica respeitável, a documentação do lugar onde o objeto fora encontrado.
O colecionador mexicano Josué Sáenz havia adquirido o manuscrito na década de 1960, depois de uma história de saque e comércio clandestino de antiguidades. Esse passado contaminou a recepção científica. Num mercado em que uma peça rara pode valer uma fortuna, qualquer objeto sem procedência conhecida desperta perguntas desagradáveis. As perguntas eram razoáveis. Algumas respostas demoraram quase meio século.
Durante décadas, o volume ficou conhecido como Códice Grolier, por causa da instituição nova-iorquina que o exibira. Tinha aproximadamente dez folhas preservadas de um conjunto que originalmente chegaria a vinte. Os desenhos eram diferentes daqueles encontrados nos mais conhecidos códices maias de Dresden, Madri e Paris. A escrita parecia reduzida. Os personagens, severos e isolados, estavam associados a uma tradição visual que os pesquisadores ainda discutiam. Bastava uma dessas diferenças para alimentar suspeitas. Havia várias.
O conteúdo não era um romance, nem uma espécie de agenda doméstica. Era um calendário divinatório dedicado a Vênus. A observação desse planeta ocupava lugar relevante em tradições mesoamericanas, vinculada à contagem do tempo, a presságios e a práticas rituais. Os signos representados nas folhas pertenciam a uma forma de conhecimento que reunia astronomia, religião e política. Separar uma coisa da outra, com a facilidade de quem consulta hoje um almanaque, teria pouco sentido.
O códice voltara ao México em 1974. Ainda assim, sua classificação permaneceu em disputa. Havia razões para acreditar na antiguidade de seu papel, mas papel antigo pode receber tinta muito depois de fabricado. Um falsificador suficientemente hábil poderia comprar um suporte verdadeiro e produzir uma pintura falsa. Essa possibilidade precisava ser considerada, junto com a composição dos pigmentos e a coerência dos elementos representados.
A mudança decisiva veio de uma investigação multidisciplinar coordenada pelo Instituto Nacional de Antropologia e História, o INAH, iniciada em 2017. Especialistas examinaram os materiais, os desenhos e a relação entre as páginas e as tradições culturais da época. A datação por radiocarbono situou o papel entre 1021 e 1154. Pigmentos como o azul maia e outras substâncias empregadas pelos artistas pré-hispânicos ajudaram a avaliar a plausibilidade do objeto. A análise se concentrou numa combinação de provas, não num único truque de laboratório.
Como a autenticidade foi estabelecida?
Pesquisadores combinaram datação por radiocarbono, análise de fibras e pigmentos, contexto iconográfico e estudos sobre o calendário de Vênus. Uma amostra antiga de papel não basta, isoladamente, para autenticar uma pintura.
Em 2018, o INAH anunciou formalmente sua autenticidade. A obra passou a receber o nome oficial de Códice Maia de México e foi reconhecida como patrimônio arqueológico sob guarda da Biblioteca Nacional de Antropologia e História. O gesto corrigia uma injustiça curiosa. Um documento que havia atravessado cerca de novecentos anos acabou submetido a uma espécie de julgamento de identidade pelos últimos cinquenta.
A importância da confirmação vai além da vitória de um colecionador contra críticos. O códice é considerado o mais antigo manuscrito legível preservado das Américas. Sobreviveu à deterioração natural de um material muito frágil, à destruição de livros indígenas no período colonial e, já no século XX, ao circuito de saques e vendas que lhe retirou informações preciosas sobre o contexto de origem. Seu percurso ajuda a explicar por que estudar um livro antigo não consiste apenas em traduzir suas páginas.
Em 2022, o Museu Getty, em Los Angeles, apresentou o manuscrito numa exposição dedicada ao enigma de sua autenticidade. O episódio deu ao público a oportunidade de ver algo pouco compatível com a ideia de tesouro vistoso. São folhas sóbrias, com imagens econômicas e uma paleta limitada. Não têm a aparência de uma joia feita para impressionar visitantes. A raridade está justamente na sobrevivência de uma linguagem que os pesquisadores ainda tentam compreender em todas as suas relações.
Também é impossível recuperar integralmente aquilo que o saque levou embora. Saber a idade do papel e reconhecer o repertório iconográfico não devolve automaticamente a caverna, a sepultura, a cidade ou o conjunto de objetos ao qual o manuscrito possa ter pertencido. A ciência consegue responder se as folhas são antigas. Outras perguntas, que dependiam da posição do achado no mundo, foram prejudicadas pelo modo como ele entrou no mercado.
Uma das satisfações discretas da história é imaginar o códice guardado, por tantos anos, sob a suspeita de que alguém moderno estivesse imitando os antigos. Era antigo de verdade. Mas sua autenticidade, reconhecida em 2018, não o transforma numa peça transparente. Continua sendo um livro difícil, incompleto e, por isso mesmo, mais interessante do que seria uma falsificação perfeitamente explicada.

