Em 1961, na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, o psicólogo Stanley Milgram (Peter Sarsgaard) convida pessoas comuns para uma pesquisa sobre memória e aprendizagem. A tarefa consiste em aplicar choques elétricos a um homem sempre que ele erra uma resposta. Pelo menos, essa é a explicação oferecida aos voluntários. Em “O Experimento de Milgram”, de 2015, o diretor Michael Almereyda acompanha o pesquisador interessado em descobrir por que alguém aceita obedecer a uma autoridade mesmo quando precisa contrariar a própria consciência.
O homem que supostamente recebe as descargas é James McDonough (Jim Gaffigan), um colaborador da pesquisa. Os choques são falsos, mas os participantes desconhecem esse detalhe. Instalados diante de um painel, eles acreditam ter nas mãos a capacidade de provocar sofrimento em outra pessoa. Quando os protestos chegam da sala vizinha, o responsável pela sessão pede que continuem. O desconforto nasce dessa combinação entre uma ordem educada, o prestígio de uma universidade e a dificuldade de interromper uma tarefa que alguém apresentou como necessária.
Uma ordem educada também pesa
Almereyda dedica boa parte do início às sessões, permitindo que o espectador acompanhe as hesitações dos participantes. Eles escutam as reclamações, demonstram preocupação e procuram orientação. A pessoa encarregada do procedimento, porém, insiste na continuidade. Ninguém precisa parecer cruel para colaborar com uma crueldade. Basta aceitar que o homem de jaleco sabe o que está fazendo e assumirá a responsabilidade pelo resultado.
Essa dinâmica dá força às cenas. Os voluntários chegaram para ajudar uma pesquisa e acabam divididos entre a obrigação assumida e o pedido de um desconhecido. Interromper exige discordar de quem representa a instituição. Continuar permite permanecer no papel de colaborador, embora o sofrimento ouvido na outra sala torne essa colaboração cada vez mais penosa. A familiaridade da situação incomoda. Há uma tarefa, alguém responsável por supervisioná-la e uma pessoa tentando fazer tudo corretamente.
Gaffigan contribui muito para esse efeito. Seu McDonough tem uma presença acessível, cotidiana, que impede o espectador de tratá-lo apenas como parte do equipamento. Antes dos protestos, existe um homem com quem os participantes tiveram contato. Quando sua voz passa a pedir atenção, cada nova instrução para prosseguir exige ignorar alguém que, poucos minutos antes, estava ali ao lado.
O pesquisador também toma decisões
Milgram desenvolve sua investigação sob a influência das perguntas deixadas pelo Holocausto. Ele quer compreender a disposição de pessoas comuns para cumprir ordens violentas e aceitar a autoridade de quem as emite. Almereyda apresenta essa inquietação sem transformar o cientista numa figura acima de qualquer suspeita. Para estudar a obediência, ele engana os voluntários sobre a finalidade das sessões e os submete a uma experiência emocionalmente desgastante.
Peter Sarsgaard é uma escolha feliz para esse personagem. Sua atuação reservada preserva a curiosidade intelectual de Milgram, mas também certa dificuldade de se aproximar das pessoas que observa. O pesquisador fala, explica e defende suas escolhas com uma segurança que nem sempre torna agradável estar em sua companhia. O ator deixa espaço para que o espectador admire sua inteligência e questione sua conduta.
Quando Milgram se volta para a câmera, ganha a oportunidade de apresentar suas razões a quem assiste. Almereyda usa esse contato para atravessar informações que poderiam pesar em conversas excessivamente explicativas. O recurso também produz uma ambiguidade interessante. O cientista controla a apresentação de suas ideias, enquanto os participantes só podem agir dentro das condições que ele estabeleceu. Mesmo fora do laboratório, é difícil esquecer quem preparou a experiência.
Sasha conhece o homem por trás dos testes
A aproximação com Alexandra, chamada de Sasha (Winona Ryder), oferece acesso à vida afetiva do pesquisador. O namoro inclui uma visita ao laboratório, onde ela conhece o trabalho que ocupa tanto espaço em sua rotina. Mais tarde, a relação acompanha as dificuldades de alguém cuja reputação passa a depender de uma pesquisa controversa.
Ryder traz afeto e atenção a essas passagens. Sua presença permite observar Milgram longe do painel e das instruções aos voluntários. Ainda assim, Sasha merecia mais espaço. Em vários trechos, ela permanece ligada à função de companheira compreensiva, enquanto os interesses do marido recebem tratamento muito mais generoso. A atriz sugere uma intimidade que o roteiro nem sempre se dispõe a desenvolver.
Essa diferença faz falta porque a convivência poderia revelar aspectos do personagem que suas próprias explicações deixam de fora. Milgram está acostumado a formular perguntas sobre o comportamento alheio. Ao lado de Sasha, existe a possibilidade de conhecê-lo por gestos, pausas e dificuldades domésticas. São passagens que dão algum descanso às exposições e tornam o cientista menos distante.
Quando as perguntas voltam para Milgram
A divulgação dos experimentos provoca críticas aos procedimentos empregados. O pesquisador precisa responder pelo sofrimento imposto a pessoas que aceitaram colaborar sem conhecer a verdadeira natureza da tarefa. O interesse científico da investigação convive, então, com uma questão incontornável. Que condições alguém aceita ao entrar numa pesquisa e quais informações precisa receber para fazer essa escolha?
O desconforto dos voluntários pesa mais que qualquer explicação sobre obediência. Sarsgaard sustenta bem a passagem do observador seguro para o profissional obrigado a defender suas decisões, sem transformar a contestação num simples ataque a um homem incompreendido.
Há trechos em que a quantidade de ideias deixa as relações humanas em segundo plano. Milgram fala bastante, e o roteiro por vezes parece satisfeito em lhe oferecer a palavra. As melhores cenas, porém, permanecem aquelas em que uma pessoa escuta um protesto, olha para quem supervisiona a sessão e precisa escolher o próximo gesto. É diante daquele painel que “O Experimento de Milgram” prende a atenção com mais força. O voluntário pode manifestar preocupação, pedir garantias e procurar amparo na autoridade, mas ainda é sua mão que alcança o botão.

