Há quem atravesse uma história inteira sem enxergar mentalmente o rosto do protagonista, a sala onde ele entrou ou a rua descrita na primeira página. O texto avança, os acontecimentos fazem sentido, a vontade de saber o que vem depois continua. Só aquela sessão de cinema que tantos leitores dizem carregar na cabeça deixa de acontecer.
Para uma parcela dessas pessoas, visualizar cenas nunca foi uma etapa da leitura. Elas têm afantasia, nome dado à ausência de imagens mentais voluntárias. A condição diz respeito à capacidade de evocar essas imagens, e não à visão dos olhos. Tampouco autoriza concluir que alguém seja incapaz de imaginar, compreender uma situação ou criar uma história.
A distinção parece pequena até esbarrar numa das recomendações mais comuns feitas a quem começa a ler ficção. Imagine a cena. Veja o personagem. Entre naquele lugar. As instruções supõem que todos disponham de uma espécie de tela interior e possam ligá-la com alguma boa vontade. Um leitor sem imagens mentais pode cumprir a tarefa por outros caminhos, sem perceber de imediato que os demais estão descrevendo uma experiência diferente.
Em 2024, Laura J. Speed, Lynn S. Eekhof e Marloes Mak publicaram na revista Consciousness and Cognition uma investigação sobre essa diferença. O estudo reuniu 47 participantes com afantasia e 51 de um grupo de comparação. Depois de lerem uma narrativa breve, eles responderam a perguntas sobre a experiência. As pesquisadoras também examinaram seus hábitos de leitura.
O resultado que mais interessa a quem gosta de livros cabe numa frase só. A pesquisa não encontrou diferença estatisticamente significativa na apreciação da história entre os dois grupos.
Isso não quer dizer que a leitura tenha sido igual. Em média, os participantes com afantasia relataram menor absorção pela narrativa e menor envolvimento emocional com os personagens. Descrições de cenários e ações também foram menos apreciadas por esse grupo. É possível, portanto, gostar da história e percorrê-la com uma distribuição diferente de interesses. O prazer final não precisa vir dos mesmos lugares.
Como interpretar
Não houve diferença estatisticamente significativa na apreciação da história. Isso não demonstra experiências idênticas nem se aplica automaticamente a todos os leitores.
Há um cuidado importante nessa comparação. A ausência de uma diferença estatística não prova que todos os leitores tenham gostado igualmente do texto. O trabalho estudou grupos específicos e uma experiência delimitada de leitura. Não oferece um retrato completo de qualquer pessoa com afantasia, muito menos uma classificação de quem lê melhor. O dado torna mais difícil, isso sim, presumir que uma ficção sem imagens mentais seja necessariamente uma ficção empobrecida.
A pergunta muda quando se pensa na quantidade de coisas que um romance pode fazer com palavras. Uma frase pode ser engraçada pela ordem em que entrega a informação. Uma conversa pode nos prender pelo que deixa de dizer. Há suspense na espera por uma resposta, prazer no ritmo de um período e curiosidade diante de um personagem contraditório. Nenhum desses efeitos exige que o leitor consiga desenhar interiormente a estampa de uma cortina.
Isso também recomenda alguma prudência na maneira de conversar sobre livros. Quando duas pessoas comentam a mesma passagem, podem concordar sobre os acontecimentos e ainda assim ter vivido experiências mentais pouco parecidas. A comparação não fica menos interessante por causa disso. Talvez fique mais precisa quando se abandona a suposição de que ambas assistiram ao mesmo filme particular.
Na apresentação dos resultados feita pela Universidade Radboud, as pesquisadoras observaram ainda que os hábitos de leitura dos grupos não diferiam. Entre os participantes com afantasia havia, inclusive, quem escrevesse ficção. Esse detalhe impede que a conversa termine numa lista de ausências. Pessoas que não produzem imagens voluntárias também procuram histórias e podem se dedicar a inventá-las.
Para o leitor, a consequência mais prática é modesta. Não há obrigação de converter cada parágrafo numa cena visual para merecer o livro que está lendo. Alguns acompanharão a cor do céu. Outros, a escolha de uma palavra ou a demora de uma resposta. A página continua à disposição de todos.

