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No início dos anos 1980, o deputado americano Charlie Wilson (Tom Hanks) decide usar sua influência no Congresso para financiar a resistência afegã à ocupação soviética. Democrata do Texas, ele se envolve na causa por insistência de Joanne Herring (Julia Roberts), uma socialite conservadora que deseja enfraquecer a União Soviética. Para transformar essa disposição em armas e dinheiro, os dois contam com Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), um agente da CIA pouco afeito à diplomacia entre colegas. Esse trio improvável sustenta “Jogos do Poder”, comédia política de 2007 dirigida por Mike Nichols, na qual uma guerra distante passa a depender de conversas entre pessoas acostumadas a conseguir o que querem.

Charlie tem fama de mulherengo, gosta de festas e não parece interessado em cultivar uma imagem exemplar. Ainda assim, ocupa lugares estratégicos em comissões parlamentares e conhece os caminhos para conseguir verbas. Hanks trabalha bem essa combinação de frivolidade e competência. Seu personagem pode parecer distraído pelas próprias diversões, mas sabe a quem telefonar quando precisa de um favor. A simpatia que facilita suas conquistas pessoais também lhe dá acesso a colegas capazes de aprovar gastos militares.

Uma causa chega ao gabinete

Joanne conhece esse potencial e cobra do deputado uma participação maior no apoio aos afegãos. Rica, influente e anticomunista fervorosa, ela dispõe de contatos suficientes para aproximá-lo de autoridades e colocar o assunto em sua agenda. Roberts interpreta uma mulher que apresenta pedidos com a segurança de quem já espera uma resposta favorável. Há sedução nessa relação, mas também uma cobrança persistente. Charlie pode gostar da companhia dela, porém aceitar suas sugestões significa assumir compromissos que vão além de um jantar agradável.

A visita ao Paquistão, onde o parlamentar conhece a situação de refugiados afegãos, muda o peso dessa cobrança. O sofrimento deixa de ser apenas um assunto apresentado por uma apoiadora rica. Diante das pessoas atingidas pela ocupação, ele passa a defender uma ajuda maior aos combatentes. Hanks preserva os hábitos e a vaidade de Charlie, sem impor uma transformação moral completa. O deputado continua sendo o mesmo homem, agora disposto a empregar suas habilidades políticas numa causa que exige recursos muito superiores aos disponíveis.

Essa continuidade é um dos acertos da atuação. Seria fácil apresentar as festas como sinal de um passado vergonhoso e a dedicação aos afegãos como prova de redenção. Hanks sustenta uma figura mais contraditória. Charlie pode agir por compaixão e continuar gostando dos privilégios do cargo. Sua capacidade de convencer os outros depende, em parte, dessa desenvoltura que também alimenta sua reputação.

A CIA entra na conversa

Gust oferece ao deputado o conhecimento necessário para transformar intenção em apoio militar. Não basta aprovar dinheiro. É preciso descobrir quais armas podem enfrentar os equipamentos soviéticos, quem aceita fornecê-las e de que maneira elas chegarão aos combatentes. O envolvimento americano também precisa permanecer encoberto, o que acrescenta intermediários e exigências à operação.

Hoffman dá a Gust uma impaciência deliciosa. Ele conhece seu trabalho, despreza a incompetência e tem pouca disposição para tratar superiores com a reverência esperada. Ao lado do Charlie cordial de Hanks, parece alguém que esgotou a cota de gentilezas há muitos anos. A graça está nessa convivência entre dois profissionais que precisam um do outro, embora tenham maneiras muito diferentes de pedir uma providência.

Nichols aproveita a dupla para dar fluidez às informações políticas e militares. As conversas esclarecem o funcionamento da operação enquanto os personagens tentam resolver problemas concretos. O espectador acompanha pedidos, resistências e concessões sem precisar receber uma aula sobre cada instituição envolvida. O roteiro de Aaron Sorkin favorece esse ritmo, com diálogos nos quais uma provocação pode acompanhar uma informação decisiva.

A distribuição das armas exige colaboração entre países cujas relações estão longe de ser amistosas. Paquistaneses, israelenses, egípcios e americanos precisam conciliar interesses para apoiar a resistência afegã. Charlie usa seus contatos, enquanto Gust procura soluções para as dificuldades do abastecimento. A distância entre as declarações oficiais e os acordos aceitos em particular rende algumas das passagens mais divertidas.

Aliados que mal se toleram

Há algo de desconcertante em observar tamanha desenvoltura. Pessoas que tratam certas diferenças como intransponíveis passam a admitir exceções quando surge um objetivo comum. Nichols extrai a comédia desse comportamento sem apagar o destino dos recursos discutidos. Por trás das conversas espirituosas, há uma população exposta à violência e combatentes que dependem de equipamentos para enfrentar uma força militar superior.

Joanne mantém a pressão sobre Charlie, embora receba menos espaço para contradições do que seus parceiros. Roberts lhe dá presença e firmeza, mas a personagem permanece mais próxima de uma convicção inabalável. Hanks e Hoffman têm maior liberdade para alternar entusiasmo, irritação e desconforto. São essas variações que tornam a parceria dos dois tão atraente, sobretudo quando a boa vontade esbarra nas exigências de uma operação clandestina.

Quem fica longe das decisões

A concentração nos bastidores americanos também estabelece uma limitação. Os afegãos têm menos oportunidades de expressar seus interesses do que os estrangeiros empenhados em ajudá-los. Conhecemos melhor os hábitos de Charlie, as certezas de Joanne e as reclamações de Gust do que as pessoas que receberão as armas. A escolha favorece a comédia e o desempenho do elenco, mas mantém a experiência da guerra a certa distância.

Mesmo assim, “Jogos do Poder” ganha força ao acompanhar um parlamentar que precisa converter preocupação em votos e orçamento. Charlie sabe despertar simpatia, mas cada pedido exige mais do que uma boa conversa. Seu empenho passa por colegas com prioridades próprias, autoridades cautelosas e parceiros que esperam vantagens. Hanks mantém o sorriso de quem está acostumado a conseguir favores, agora obrigado a voltar aos gabinetes para pedir dinheiro destinado a uma guerra do outro lado do mundo.


Filme: Jogos de Poder
Diretor: Mike Nichols
Ano: 2007
Gênero: Biografia/Comédia/Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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