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O professor Marty Anderson (Chiwetel Ejiofor) acompanha o desaparecimento da internet, a interrupção de serviços e uma sucessão de desastres nos Estados Unidos, em um presente que parece estar chegando ao fim. Enquanto tenta descobrir o que está acontecendo e manter contato com a ex-esposa, Felicia Gordon (Karen Gillan), ele vê anúncios que agradecem pelos 39 anos de um desconhecido. Esse homem é Charles Krantz, o Chuck (Tom Hiddleston), cuja vida dá nome a “A Vida de Chuck”, drama de fantasia dirigido por Mike Flanagan e apresentado pela primeira vez em 2024.

Adaptada de uma história de Stephen King, a produção começa com uma situação desconcertante. Há motivos de sobra para entrar em pânico, mas a publicidade continua funcionando, ocupada em homenagear um sujeito de aparência comum. Quem é Chuck? Por que seu rosto está por toda parte? Marty tampouco sabe. Entre conversas interrompidas e notícias cada vez piores, o professor procura alguma informação que o ajude a decidir o que fazer.

Um rosto em meio ao caos

Flanagan permanece por um bom tempo ao lado de Marty. A escolha pode frustrar quem espera conhecer logo o protagonista, mas permite acompanhar a deterioração do cotidiano antes de descobrir sua ligação com o homem dos anúncios. O medo cresce à medida que tarefas banais deixam de ser possíveis. Conseguir falar ao telefone, receber notícias ou chegar à casa de alguém passa a exigir um esforço que, até pouco antes, seria desnecessário.

Ejiofor dá ao professor uma perplexidade convincente. Marty faz perguntas porque precisa de alguma orientação, embora as pessoas ao redor estejam tão perdidas quanto ele. Seu comportamento preserva algo reconhecível em meio à fantasia. Diante de uma crise, muita gente continua procurando uma informação, uma pessoa responsável, um aviso que explique a situação. O problema é que os canais disponíveis estão desaparecendo.

A insistência dos anúncios acrescenta uma graça desconfortável a esse cenário. Tudo parece desabar, mas alguém ainda está agradecendo a Chuck. Flanagan aproveita o absurdo sem transformar o professor em alguém que faz piadas diante de qualquer ameaça. Marty tem preocupações mais urgentes, entre elas a possibilidade de perder o contato com Felicia.

Uma conversa antes do silêncio

A relação entre os antigos parceiros dá peso à primeira parte. O casamento acabou, mas a intimidade permanece nas conversas e na preocupação de um com o outro. Gillan interpreta Felicia com um cansaço que dispensa grandes demonstrações de desespero. Ao lado de Ejiofor, constrói uma proximidade feita de atenção, familiaridade e assuntos que ganham outra importância quando o tempo parece escasso.

A vontade de ficarem juntos nasce desse vínculo. Enquanto os acontecimentos ultrapassam qualquer capacidade de intervenção, os dois ainda podem escolher uma companhia. Flanagan acerta ao dar espaço a essa decisão, embora algumas conversas repitam a sensação de impotência já estabelecida. A demora produz apreensão, mas também deixa certos trechos mais arrastados do que precisariam ser.

A história é dividida em três capítulos apresentados em ordem inversa. Depois de acompanhar Marty e Felicia, o espectador conhece outros períodos da vida de Chuck, até chegar à infância. Vale preservar as ligações entre essas partes. A descoberta depende da mudança de perspectiva, e antecipá-la tiraria boa parte do interesse de acompanhar pessoas que, a princípio, parecem pertencer a histórias diferentes.

O contador começa a dançar

Quando Chuck assume o centro da atenção, a atmosfera muda. Durante uma viagem profissional, o contador escuta um músico de rua e começa a dançar. A roupa social e a aparência discreta pouco anunciam a disposição daquele homem para ocupar a calçada. Aos poucos, pessoas param para assistir, e uma interrupção entre compromissos ganha um espaço inesperado no dia.

Hiddleston faz a sequência funcionar porque se entrega ao movimento. Há esforço físico, prazer e uma pequena dose de atrevimento em dançar diante de desconhecidos. A cena permite conhecer Chuck por uma atitude que escapa à descrição de seu emprego. Antes de saber muito sobre ele, já se percebe a diferença entre o homem que caminhava pela rua e aquele que resolveu ficar.

Flanagan alonga a apresentação e concede ao ator uma liberdade bem-vinda. Depois de tanta preocupação com falhas de comunicação e desastres, acompanhar alguém dançando muda o ritmo da sessão. O diretor nem sempre tem a mesma confiança nos demais trechos. Em certas passagens, insiste em explicar sentimentos que os atores já transmitiram, tornando algumas falas mais enfáticas do que a situação pede.

A infância na casa dos avós

A história ganha outra dimensão quando Chuck aparece menino, interpretado por Benjamin Pajak. Após perder os pais, ele vai morar com os avós paternos, Sarah (Mia Sara) e Albie (Mark Hamill). Sarah compartilha com o neto o gosto pela dança. Albie oferece afeto, mas também carrega a dor da perda e uma relação difícil com a bebida.

Hamill preserva a contradição do avô, capaz de acolher o garoto e, ainda assim, tornar a convivência inquietante. Uma parte da casa permanece proibida para Chuck, que precisa lidar tanto com a curiosidade quanto com a autoridade de Albie. Flanagan instala o mistério dentro do ambiente familiar, sem perder de vista a criança que tenta se adaptar à nova moradia.

Na adolescência, vivida por Jacob Tremblay, Chuck leva a dança para a escola. O que aprendeu com Sarah passa a ajudá-lo a se aproximar de colegas e a enfrentar a vergonha de ser observado. Tremblay mantém o acanhamento do personagem, tornando sua disposição para participar mais interessante do que uma demonstração de talento sem hesitação.

“A Vida de Chuck” tem seus excessos de explicação e pede paciência na primeira parte. Ainda assim, Flanagan obtém dos atores a delicadeza necessária para sustentar os encontros, as perdas e os pequenos riscos assumidos pelo protagonista. Entre eles, há um especialmente bem realizado. Chuck precisa deixar a segurança de assistir aos outros e aceitar um convite para dançar. Quando entra na pista, a lembrança das aulas com a avó ganha novos parceiros.


Filme: A Vida de Chuck
Diretor: Mike Flanagan
Ano: 2024
Gênero: Drama/Fantasia/Ficção Científica
Avaliação: 4.5/5 1 1
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