Vencedor do prêmio NETPAC no Festival de Berlim, “Quando Vi Você” chegou à MUBI com uma história de infância e exílio. Annemarie Jacir acompanha um menino palestino que quer reencontrar o pai e se recusa a aceitar a espera como único futuro possível.
Quando Vi Você (2012)
Um menino quer voltar para casa. Parece um desejo simples, até que uma fronteira o transforma numa impossibilidade. É dessa distância entre o que a criança pede e o que os adultos conseguem oferecer que nasce o drama de Annemarie Jacir. Produzido em 2012, o longa integrou o Forum da Berlinale de 2013 e recebeu o prêmio NETPAC, concedido ao cinema asiático. Sua chegada ao catálogo brasileiro oferece a oportunidade de conhecer esse trabalho da cineasta palestina.
Na Jordânia de 1967, Tarek, de onze anos, vive com a mãe, Ghaydaa, num campo de refugiados. Os dois foram separados do pai durante a guerra e aguardam uma possibilidade de retorno. Inquieto com a rotina do abrigo, o garoto procura uma saída e acaba encontrando um grupo de combatentes na floresta. A convivência abre outro mundo para ele, enquanto a mãe tenta protegê-lo de riscos que sua curiosidade ainda não permite medir.
Mahmoud Asfa interpreta Tarek em seu primeiro trabalho como ator. Ruba Blal vive a mãe, e Saleh Bakri aparece como Layth. A diferença entre as maneiras de mãe e filho encarar a mesma situação sustenta o interesse da premissa: ela precisa garantir que ambos sobrevivam ao presente; ele insiste em perguntar por que não podem simplesmente regressar. A infância torna visível o absurdo de uma espera que os adultos aprenderam a administrar.
Há uma escolha de encenação que ajuda a entender o projeto. Em entrevista incluída no material de lançamento, Jacir explica que alongou uma sequência musical ao redor de uma fogueira para permanecer nos rostos dos jovens. A pausa permite reconhecer indivíduos, desejos e vínculos num grupo que poderia ficar reduzido à sua função política. A diretora também relata ter pedido ao elenco que passasse noites na floresta de Dibeen, aproximando os intérpretes da paisagem das filmagens.
A indicação interessa a quem procura um drama sobre deslocamento que preserve espaço para a curiosidade e a esperança. O desejo de reencontro dá uma dimensão íntima à história coletiva: antes de compreender a fronteira, Tarek conhece a falta que alguém faz. É por essa experiência concreta, reconhecível mesmo longe daquele território, que a narrativa encontra seu caminho até o espectador.

