Existe na natureza de todo indivíduo uma fração ambivalente, dotada de luzes e sombras, tão cheia de arestas e de reentrâncias, de escarpas e precipícios, que nós mesmos raramente nos aventuramos a ir até lá. Surpreendente sob muitos aspectos, a vida muitas vezes parece um sonho ruim, um pesadelo mais e mais realista em que as infelicidades nossas de cada dia só são superadas pelo que não aceitamos que exista. É aí que Daniel Sánchez Arévalo quer chegar com “Colisão Implacável”, trabalho em que dá uma prova de que faz o que quiser na carreira. Seu primeiro suspense policial renega o óbvio, e Arévalo parece determinado a se desafiar, investindo numa estrutura narrativa desconexa. Mas há método em seu caos.
Crises e crimes
A crise econômica que varreu a Espanha no início dos anos 2010, na esteira da quebra do Lehman Brothers, uma instituição financeira a bancar créditos para moradia destinados às famílias remediadas da América, é o pano de fundo de uma estimulante investigação acerca da ganância e da fragilidade da lei e do ordenamento jurídico. Esse foi o cenário perfeito para que a genuína revolta popular se misturasse a oportunistas como o grupo de ladrões que invade um banco no centro de Madri, aproveitando-se do clima de inconstância e niilismo que domina a cidade. O plano seguia como o esperado, mas eles arrombam um dos cofres e não acham os diamantes que estavam procurando, apenas uma das más premonições para o que se dá a seguir. Arévalo e o corroteirista Ramón Campos vão desdobrando essa cena em possibilidades várias para o que de fato aconteceu, concentrando-se nas personalidades, comportamentos e reações dos gatunos. Nenhum deles, claro, merece o nosso crédito.

