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Na Nova Inglaterra de 1630, William (Ralph Ineson) deixa uma comunidade puritana após desafiar seus líderes religiosos e leva a mulher, Katherine (Kate Dickie), e os cinco filhos para viver perto de uma floresta. Convencido de que pode sustentar a família sem abrir mão de suas crenças, ele constrói uma casa e começa a cultivar a terra. A plantação, porém, fracassa. Quando o bebê desaparece enquanto está sob os cuidados da filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy), o casal passa a procurar culpados entre os próprios filhos. Esse é o ponto de partida de “A Bruxa”, terror de Robert Eggers em que a ameaça da fome se mistura ao medo do diabo.

A escolha de William cobra um preço de todos. Longe da comunidade, os familiares precisam trabalhar para garantir a própria sobrevivência, sem vizinhos a quem recorrer. O pai fala com a segurança de quem tem Deus ao seu lado, mas demonstra pouca habilidade para resolver os problemas da propriedade. Ralph Ineson faz dessa diferença entre convicção e competência uma das características mais incômodas do personagem. Sua voz grave impõe respeito, mesmo quando ele já não tem muito a oferecer além de ordens e orações.

Uma brincadeira interrompida pelo horror

Thomasin brinca com o irmão caçula, cobrindo e descobrindo os olhos, quando a criança some. Eggers transforma um gesto carinhoso em uma cena aterrorizante sem precisar prolongá-la. A adolescente olha para o lugar vazio, procura o bebê e não consegue explicar o que aconteceu. Para os pais, ela era a responsável por cuidar dele. Para ela, resta o desespero de ter perdido alguém que estava ao alcance de suas mãos.

Anya Taylor-Joy dá à personagem uma combinação convincente de fragilidade e irritação. Thomasin ainda busca o afeto dos pais, mas está cansada de receber tarefas e cobranças sem que suas necessidades sejam consideradas. O desaparecimento piora uma convivência em que ela já ocupava um lugar ingrato. Tem idade suficiente para assumir responsabilidades, mas continua jovem demais para que os adultos levem sua palavra a sério.

Katherine sofre pela ausência do bebê e se agarra à religião para tentar suportá-la. Kate Dickie preserva a dor dessa mãe mesmo quando ela passa a tratar a filha com crueldade. Seu sofrimento também envolve o destino espiritual da criança, numa casa em que qualquer conversa pode desembocar em pecado, condenação e salvação. Thomasin permanece por perto, trabalhando e ajudando, mas sua presença passa a despertar ressentimento em vez de gratidão.

A fome atravessa a porta

O fracasso da colheita torna as discussões ainda mais difíceis. William precisa alimentar os filhos, embora a terra não produza o necessário. Retornar ao assentamento exigiria admitir que sua decisão colocou todos em perigo. Ficar significa insistir numa propriedade que não oferece sustento. O orgulho paterno ganha, assim, um custo bastante concreto. São os filhos que terão de dividir a pouca comida disponível.

Caleb (Harvey Scrimshaw), o menino mais velho, tenta ajudar o pai a buscar alimento na floresta. Ainda criança, ele assume preocupações que deveriam pertencer aos adultos. Scrimshaw expressa bem essa mistura de disposição, medo e culpa. O garoto quer colaborar, proteger a irmã e corresponder às expectativas religiosas da família, mas mal consegue lidar com os próprios sentimentos.

Eggers dá peso a essas necessidades antes de intensificar o horror. Entrar na mata envolve procurar comida e aceitar um risco. Permanecer em casa significa esperar por alguém sem saber o que houve do lado de fora. A floresta está sempre próxima, ocupando o horizonte da propriedade, mas ninguém consegue vigiar o que existe entre suas árvores. Para quem precisa sair em busca de sustento, manter distância nem sequer é uma escolha viável.

Quando os irmãos viram suspeitos

Os gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson) também dificultam os dias de Thomasin. Desobedecem, provocam a irmã e brincam em torno do bode Black Phillip. Em outra casa, parte desse comportamento poderia render apenas uma bronca. Ali, onde os adultos já temem a presença do mal, as palavras das crianças adquirem uma gravidade perigosa.

Thomasin tenta se impor, perde a paciência e responde às provocações. O problema é que qualquer coisa dita por raiva pode reaparecer depois sob a forma de acusação. Eggers constrói o desconforto a partir dessa intimidade familiar. Todos conhecem os hábitos uns dos outros e sabem onde ferir. Quando a suspeita de bruxaria entra nas conversas, pequenas desavenças passam a alimentar o medo dos pais.

A religião ocupa cada canto da casa, mas oferece pouco consolo aos filhos. William e Katherine procuram sinais de pecado nas atitudes das crianças enquanto têm dificuldade para reconhecer os próprios erros. O pai exige confiança mesmo quando falha. A mãe pede obediência mesmo quando acusa sem provas. Thomasin precisa continuar convivendo com ambos, pois depende das mesmas pessoas que começam a tratá-la como ameaça.

Uma filha sem direito à defesa

O maior acerto de “A Bruxa” está na atenção que Eggers dedica a essa convivência. O sobrenatural assusta, mas a hostilidade dentro da casa também tem força para deixar o espectador inquieto. Taylor-Joy sustenta o interesse por Thomasin sem transformá-la numa jovem destemida ou numa vítima sem vontade própria. Ela sente medo, guarda ressentimentos e deseja ser amada. Suas reações pertencem a uma adolescente que precisa se defender sem ter para onde ir.

O ritmo exige paciência. Eggers prolonga silêncios, acompanha tarefas e permite que as recriminações se repitam. Em alguns trechos, a insistência nas discussões pesa, embora ajude a transmitir o desgaste de viver naquele lugar. Uma ordem pode interromper uma conversa. Uma suspeita basta para invalidar uma explicação. Dentro de uma casa pequena, Thomasin não consegue sequer se afastar por muito tempo de quem a acusa.

A ameaça externa alcança uma família que já perdeu a capacidade de se amparar. A fome, o luto e o orgulho tornam cada erro mais perigoso. No centro dessa disputa, Thomasin tenta cumprir suas obrigações e preservar algum vínculo com os pais. Quanto mais eles procuram uma culpada, menos espaço deixam para que a filha seja ouvida.


Filme: A Bruxa
Diretor: Robert Eggers
Ano: 2015
Gênero: Fantasia/Suspense/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
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