Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega a Nova York, em 1926, com uma mala que daria trabalho a qualquer fiscalização aduaneira. Dentro dela, o pesquisador britânico abriga criaturas mágicas que recolheu durante suas viagens. Uma confusão com a bagagem permite que alguns desses animais escapem, obrigando o visitante a procurá-los antes que revelem a existência dos bruxos à população. Essa busca movimenta “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, aventura de 2016 dirigida por David Yates e escrita por J. K. Rowling, na qual um homem mais confortável entre bichos do que entre pessoas precisa pedir ajuda a desconhecidos.
O primeiro deles é Jacob Kowalski (Dan Fogler), um trabalhador que deseja abrir uma padaria. Ele vai ao banco tentar conseguir um empréstimo, cruza o caminho de Newt e acaba levando a mala errada. Para quem saiu de casa preocupado com dinheiro, descobrir animais impossíveis dentro de uma bagagem representa uma mudança considerável de prioridades. O encontro também compromete o segredo que os bruxos americanos protegem com rigor. Jacob é um “não mágico”, nome dado naquele país às pessoas sem poderes, e sua participação na confusão atrai a atenção das autoridades.
Uma busca pelas ruas de Manhattan
Newt precisa recuperar os fugitivos, mas sua preocupação vai além dos problemas que eles podem causar. Ele conhece seus hábitos, sabe do que precisam e reconhece o perigo de entregá-los a pessoas dispostas a tratá-los apenas como ameaças. Redmayne dá ao personagem um jeito retraído, com o olhar frequentemente desviado e certa dificuldade para sustentar conversas. A interpretação por vezes carrega nos trejeitos, embora essa timidez ganhe sentido quando o pesquisador se aproxima de um animal e passa a agir com segurança.
É uma boa escolha para um protagonista de aventura. Newt depende da experiência, da paciência e da disposição para observar. Uma varinha ajuda, mas não substitui o conhecimento sobre a criatura que ele tenta recolher. As melhores passagens da procura nascem dessa diferença entre o que os outros temem e aquilo que ele reconhece. Também há graça no contraste com Jacob, que acompanha tudo sem ter recebido sequer uma introdução ao assunto. Fogler reage ao absurdo com uma mistura de susto e curiosidade que torna fácil gostar dele.
Yates permite que o espectador descubra esse universo na companhia do padeiro. Jacob tem perguntas, hesita antes de se aproximar e se encanta quando o medo dá uma trégua. Sua presença oferece uma porta de entrada acolhedora para quem não conhece as regras desse mundo. Mais do que pontuar a aventura com piadas, ele estabelece uma relação afetuosa com Newt e dá ao pesquisador alguém com quem dividir o trabalho.
Tina tem algo a provar
A situação se complica quando Tina Goldstein (Katherine Waterston) identifica as infrações cometidas pelo visitante. Funcionária do Congresso Mágico dos Estados Unidos, o MACUSA, ela já ocupou uma função de maior prestígio e tenta recuperar a confiança dos superiores. Apresentar Newt às autoridades parece uma oportunidade de demonstrar competência. O problema é que a urgência do britânico em proteger os animais nem sempre combina com os procedimentos que ela pretende seguir.
Waterston traz firmeza à personagem sem apagar sua insegurança profissional. Tina quer ser ouvida, mas trabalha numa instituição que já a colocou de lado. Sua relação com Newt começa com desconfiança e ganha interesse porque os dois têm preocupações legítimas, embora discordem sobre o que fazer. Ela conhece as regras locais. Ele sabe cuidar das criaturas. Para sair da confusão, ambos precisam considerar o conhecimento do outro.
No apartamento que Tina divide com a irmã, Queenie Goldstein (Alison Sudol), a aventura ganha uma pausa bem-vinda. Queenie lê pensamentos e recebe os visitantes com uma espontaneidade que contrasta com a reserva dos demais. Sua aproximação com Jacob tem delicadeza e uma graça discreta. Diante de alguém capaz de acessar o que ele pensa, o rapaz dispõe de pouquíssimos recursos para esconder o encantamento. Sudol e Fogler aproveitam essa transparência para criar uma cumplicidade que dá vontade de acompanhar por mais tempo.
Uma cidade cercada de suspeitas
Enquanto o grupo procura os animais, Nova York enfrenta acontecimentos destrutivos que tornam as autoridades ainda mais desconfiadas. Percival Graves (Colin Farrell), um dos nomes de maior poder no MACUSA, participa da investigação e pressiona aqueles que podem oferecer informações. Farrell mantém uma postura controlada, suficiente para tornar seus encontros desconfortáveis. Perto dele, as justificativas de Newt parecem ter pouco espaço para ser ouvidas.
Do lado de fora da comunidade bruxa, Mary Lou Barebone (Samantha Morton) promove uma campanha contra a magia. Seu filho adotivo, Credence (Ezra Miller), vive sob uma disciplina severa, num ambiente em que acolhimento e proteção fazem falta. A presença dos dois acrescenta uma violência humana à história. Os animais podem assustar quem os desconhece, mas as pessoas também sabem perseguir, intimidar e ferir sem precisar de qualquer encantamento.
Esses núcleos tornam o enredo mais sombrio, embora nem sempre convivam bem com a leveza da busca pelas criaturas. Yates alterna a companhia agradável do quarteto com interrogatórios, suspeitas e ameaças que exigem espaço para se desenvolver. Em algumas passagens, a investigação interrompe encontros que mereciam durar mais. A vontade de apresentar tantos assuntos pesa sobre uma aventura cujo maior atrativo está em observar aquelas pessoas aprendendo a confiar umas nas outras.
O encanto cabe na mala
A visita ao interior da bagagem de Newt está entre os trechos mais cativantes de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”. Ali, Jacob descobre um espaço muito maior do que o exterior permite supor, com ambientes destinados às diferentes criaturas. O pesquisador alimenta, acompanha e protege seus animais. A dedicação aparece no trabalho cotidiano, e Redmayne fica especialmente à vontade quando pode demonstrá-la por meio de gestos.
Há prazer nessa descoberta porque os bichos possuem necessidades e comportamentos próprios. Eles dão trabalho, despertam curiosidade e exigem cuidados que continuam depois do primeiro espanto. Quando Yates reserva tempo para essa convivência, a fantasia ganha proximidade. O espectador deixa de apenas admirar seres extraordinários e passa a torcer para que retornem em segurança.
Mesmo com o excesso de ameaças disputando atenção, o vínculo entre Newt, Jacob, Tina e Queenie sustenta a aventura. Cada um chega ao grupo carregando uma preocupação bastante reconhecível, do desejo de abrir um negócio à necessidade de recuperar respeito no emprego. A magia aproxima essas pessoas, mas são a hospitalidade, a curiosidade e a disposição para ajudar que tornam sua companhia agradável. Quando Newt sai novamente em busca dos animais, já existe uma boa razão para querer acompanhá-lo pelas ruas de Manhattan.

