Em outubro de 1973, a primeira-ministra de Israel, Golda Meir (Helen Mirren), precisa responder aos ataques de Egito e Síria durante a Guerra do Yom Kippur. Cercada por assessores militares que divergem sobre a gravidade da situação, ela busca conter o avanço inimigo e conseguir apoio dos Estados Unidos. Esse período concentra a ação de “Golda – A Mulher de Uma Nação”, drama de 2023 dirigido por Guy Nattiv, que acompanha as decisões da governante enquanto ela também enfrenta um câncer. Entre reuniões de emergência e sessões de tratamento, sua resistência física passa a disputar espaço com as exigências do cargo.
O recorte ajuda a situar o espectador. Em vez de percorrer a vida inteira da protagonista, Nattiv acompanha uma crise específica, na qual informações insuficientes e avaliações equivocadas deixam milhares de soldados em perigo. O problema começa antes dos ataques, quando os alertas sobre a preparação militar dos países vizinhos recebem interpretações diferentes dentro do governo israelense. Mobilizar tropas tem custos, mas esperar também. Quando os combates começam, os responsáveis pela defesa precisam agir sem a segurança que demonstravam nas reuniões anteriores.
Uma guerra acompanhada do gabinete
Os ataques acontecem em 6 de outubro, durante o Yom Kippur, uma das datas mais sagradas do calendário judaico. As tropas egípcias avançam na região do Canal de Suez, enquanto as sírias atacam nas Colinas de Golã. Para a primeira-ministra, a dificuldade passa a ser responder a duas frentes de combate, avaliar pedidos de reforço e escolher quais recomendações merecem confiança. As notícias chegam por telefonemas, relatos e reuniões, quase sempre acompanhadas de alguma informação que contraria as expectativas de quem está na sala.
Nattiv mantém o espectador perto da chefe de governo e distante de boa parte das batalhas. A escolha favorece a apreensão de esperar por notícias sem saber quanto da situação já mudou. Também exige atenção. Entre mapas, nomes e propostas militares, nem sempre é fácil distinguir o peso de cada operação. Há passagens em que os assessores parecem existir apenas para apresentar o próximo problema. Ainda assim, a concentração nos gabinetes oferece uma perspectiva interessante sobre a distância entre autorizar uma missão e receber a notícia de suas perdas.
Os homens que também hesitam
O ministro da Defesa, Moshe Dayan (Rami Heuberger), retorna da frente de combate abalado pela situação nas Colinas de Golã. Sua insegurança agrava a pressão sobre a governante, que precisa tomar decisões apoiada em autoridades igualmente sujeitas ao medo e ao erro. O chefe do Estado-Maior, David Elazar (Lior Ashkenazi), apresenta alternativas para reagir aos avanços adversários, mas as operações propostas envolvem riscos que ninguém pode eliminar.
Essas reuniões estão entre os trechos mais reveladores da atuação de Mirren. Ela escuta, observa e deixa transparecer o esforço necessário para continuar perguntando quando todos esperam uma ordem. A personagem preserva a autoridade, embora seu cansaço fique cada vez mais perceptível. Sob a caracterização pesada, a atriz trabalha sobretudo com a voz, os silêncios e pequenas reações aos relatos que recebe. O resultado tem mais força quando a interpretação permite perceber a pessoa por trás do cargo, com dúvidas que uma sala cheia de generais não consegue resolver.
Há, porém, certa repetição nessa dinâmica. Um militar apresenta uma dificuldade, outro sugere uma saída e a primeira-ministra precisa autorizar o próximo passo. Quando faltam relações mais desenvolvidas entre os participantes, o acúmulo de reuniões perde parte da intensidade. Mirren sustenta essas passagens, mas alguns coadjuvantes recebem pouco espaço para existir além de suas funções.
A ajuda americana tem condições
A necessidade de equipamentos e apoio militar leva Golda a procurar Henry Kissinger (Liev Schreiber), secretário de Estado dos Estados Unidos. Ele precisa considerar os interesses americanos no conflito, enquanto ela tenta obter recursos para responder aos ataques. A relação entre os dois dá ao drama um ritmo menos dependente de mapas e atualizações militares. Nas conversas, a cordialidade permite aproximações, mas não elimina as divergências.
Schreiber oferece um bom contraponto à protagonista. Seu Kissinger escolhe as palavras com cuidado e preserva uma postura diplomática mesmo quando precisa impor condições. Mirren responde com firmeza e uma familiaridade que torna esses encontros mais vivos. Os dois conseguem sugerir uma relação na qual simpatia pessoal e interesses de Estado convivem sem muita tranquilidade. Para a líder israelense, conseguir ajuda exige persuadir um aliado que também pretende influenciar suas decisões.
O corpo pede uma pausa
Longe das discussões militares, Golda depende dos cuidados de sua assistente, Lou Kaddar (Camille Cottin), enquanto enfrenta o tratamento contra o câncer. A presença de Lou permite acompanhar uma intimidade ausente nas reuniões oficiais. Ali, a mulher cercada por pedidos e cobranças precisa aceitar ajuda para atravessar o próprio dia.
Os cigarros constantes, os procedimentos médicos e o desgaste físico tornam essa rotina particularmente penosa. Nattiv insiste nesses elementos, por vezes além do necessário, mas oferece a Mirren oportunidades de expressar uma vulnerabilidade que a personagem procura conter diante dos ministros. Cottin participa desse núcleo com discrição. Sua atuação acrescenta afeto sem transformar cada cuidado numa ocasião para uma grande demonstração de sofrimento. Quando o tratamento termina, porém, as notícias da guerra continuam esperando.
Um retrato próximo e limitado
A proximidade com a primeira-ministra é também a principal restrição de “Golda – A Mulher de Uma Nação”. Os israelenses recebem rostos, dúvidas e momentos de fragilidade, enquanto egípcios e sírios aparecem sobretudo nas informações militares. A experiência de acompanhar o conflito fica, portanto, muito condicionada às preocupações do gabinete. O sofrimento da protagonista recebe atenção maior que as perspectivas daqueles contra quem seu governo combate.
Esse desequilíbrio merece consideração numa obra centrada em uma figura histórica tão controversa. Nattiv obtém bons resultados ao acompanhar a pressão cotidiana do cargo, mas oferece menos elementos para questionar a perspectiva de sua personagem. A atuação de Mirren dá consistência a esse retrato, especialmente quando um telefonema interrompe a aparente segurança de uma reunião. Basta chegar outra notícia para que a primeira-ministra precise examinar o que autorizou e decidir qual pedido atender a seguir.

