Candy Black (Drew Barrymore) já foi uma estrela de comédia, mas perdeu o trabalho depois de agredir uma colega durante uma filmagem. Anos depois, isolada em sua mansão em Long Island, nos Estados Unidos, ela recebe uma ordem judicial para se internar em uma clínica de reabilitação. Sem disposição para cumprir a determinação, procura alguém que possa assumir a tarefa. Essa é a proposta de “Duas por Uma”, comédia de 2020 dirigida por Jamie Babbit, na qual Barrymore interpreta tanto a atriz decadente quanto Paula, a antiga substituta contratada para enfrentar o tratamento em seu lugar.
A ideia parece conveniente para as duas. Candy quer ficar em casa, longe das câmeras e das cobranças. Paula precisa de dinheiro e deseja voltar a trabalhar no cinema. A semelhança física permite que uma se apresente com o nome da outra, mas o acordo tem uma condição. Depois da internação, a estrela deverá retomar a carreira e empregar novamente sua antiga funcionária. Para conseguir alguns meses de sossego, Candy promete voltar à profissão da qual pretende escapar.
A celebridade que ninguém quer contratar
Antes do escândalo, Candy havia construído uma carreira em comédias de humor físico, daquelas em que cair e levar pancadas fazem parte do expediente. Fora das cenas, porém, seu temperamento e o abuso de substâncias tornaram a convivência difícil. Quando um incidente no estúdio termina com uma colega ferida, o vídeo circula pela internet e encerra o que ainda restava de sua reputação profissional.
Barrymore interpreta essa mulher sem pedir que o espectador goste dela desde o primeiro minuto. Candy é grosseira, impaciente e acostumada a tratar os outros como funcionários disponíveis para qualquer capricho. Há algo de engraçado na falta de cerimônia, mas também um cansaço que aparece quando ela precisa falar sobre o retorno ao trabalho. Seu desejo de abandonar os estúdios ganha interesse porque contraria a expectativa de uma estrela disposta a tudo para recuperar a fama.
Babbit, entretanto, pesa a mão na apresentação da personagem. A sucessão de comportamentos desagradáveis estabelece sua personalidade antes que apareça qualquer razão para acompanhá-la com alguma simpatia. O afastamento permite conhecer uma mulher menos agressiva, interessada em marcenaria e numa vida sem plateia. Essa mudança é mais atraente do que as grosserias que ocupam a abertura.
Paula quer sair dos bastidores
Paula vive uma situação bem menos confortável. Sem emprego e dormindo no carro, ela vê o convite da antiga patroa como uma possibilidade de recuperar alguma estabilidade. Seu trabalho como substituta consistia em ocupar o lugar da atriz durante preparações técnicas das filmagens. Agora, a função inclui uma internação e uma identidade emprestada. O departamento de recursos humanos teria algumas perguntas sobre essa contratação.
Barrymore dá à personagem uma delicadeza insistente, acompanhada de uma vontade cada vez maior de agradar às pessoas certas. Candy dispensa oportunidades porque pode sobreviver sem elas. Paula se agarra a qualquer contato que prometa um novo serviço. Essa diferença torna o acordo menos simples do que parecia. Enquanto uma compra distância dos próprios compromissos, a outra passa a depender deles.
O problema cresce quando a substituta começa a gostar da atenção recebida. Falar em nome de uma atriz conhecida oferece vantagens que seu antigo emprego nunca proporcionou. Ela deixa de apenas cumprir uma tarefa e passa a interferir nas escolhas da mulher que a contratou. A vontade de voltar aos bastidores dá espaço ao desejo de permanecer diante das câmeras.
O arrependimento tem cachê
As aparições em programas de entrevistas estão entre as situações mais interessantes da comédia. Paula pode pedir desculpas por atitudes que não teve, receber por isso e ajudar a recuperar uma imagem que nunca foi sua. Candy, por sua vez, fica dispensada do constrangimento de demonstrar arrependimento em público. A sinceridade é o único item dessa prestação de serviço que ninguém parece muito interessado em conferir.
A presença de Louis (T.J. Miller), ligado à carreira da estrela, reforça esse ambiente em que cada compromisso pode representar uma nova fonte de renda. A possibilidade de voltar a trabalhar importa mais do que investigar quem está assumindo as obrigações da atriz. Babbit consegue alguma acidez ao apresentar essa disponibilidade para aceitar uma versão mais simpática de Candy.
A fraude, porém, exige bastante tolerância. Pessoas próximas acreditam no disfarce com uma facilidade que enfraquece parte das situações. O roteiro também repete a diferença entre a patroa arredia e a funcionária entusiasmada depois que essa oposição já foi estabelecida. Barrymore sustenta o interesse pela maneira de falar e pela postura de cada mulher, embora nem sempre consiga compensar as facilidades da história.
Um encontro fora das câmeras
Longe dos compromissos profissionais, Candy mantém contato com Steve (Michael Zegen), um homem que compartilha seu interesse por marcenaria. Nas conversas, ela usa Cathy Tyler, seu nome civil, e preserva a identidade de celebridade. A perspectiva de conhecê-lo pessoalmente oferece algo que os convites de trabalho não conseguem despertar nela. Pela primeira vez em anos, há um encontro ao qual deseja comparecer.
Zegen dá a Steve um jeito acessível que ajuda a tornar compreensível o interesse de Cathy. Com ele, a personagem pode conversar sobre uma habilidade que valoriza, sem precisar repetir a figura desastrada de suas antigas comédias. Barrymore fica mais convincente nesses trechos de intimidade, quando a irritação cede espaço à expectativa de ser aceita por alguém.
O romance também cria um impasse para Paula. Se a patroa estiver satisfeita longe do cinema, a promessa de retomar as filmagens poderá nunca ser cumprida. O que representa uma possibilidade de felicidade para uma ameaça o emprego da outra. A partir desse desacordo, a convivência ganha uma hostilidade que as gentilezas já não conseguem esconder.
“Duas por Uma” tem uma premissa fértil e uma protagonista capaz de dar personalidade às duas mulheres, mas perde força ao insistir em situações pouco convincentes. Os melhores trechos nascem de desejos fáceis de reconhecer, o de deixar um trabalho que se tornou insuportável e o de conseguir uma oportunidade depois de tantas portas fechadas. Basta que cheguem um convite de filmagem e a possibilidade de um encontro para que o acordo entre Candy e Paula deixe de atender às duas.

