Na Inglaterra da segunda metade do século 19, o estudioso James Murray (Mel Gibson) assume a organização de um dicionário que pretende registrar as palavras da língua inglesa e seus diferentes usos. A tarefa exige muito mais do que conhecimento de idiomas. É preciso pesquisar livros, reunir citações e convencer os responsáveis pela publicação de que tantos anos de trabalho darão resultado. Em “O Gênio e o Louco”, de 2019, dirigido por Farhad Safinia, uma ajuda valiosa chega pelas cartas do médico americano William Chester Minor (Sean Penn), internado em um hospital psiquiátrico após matar um homem durante um delírio persecutório.
Os dois passam a colaborar sem que Murray conheça as circunstâncias em que seu correspondente vive. Para o editor, aquelas contribuições representam a possibilidade de avançar em um projeto monumental. Para Minor, a pesquisa oferece uma ocupação durante o confinamento e algum contato com o mundo além dos muros. A amizade nasce desse interesse compartilhado pelas palavras, embora nenhum dos dois consiga deixar seus problemas do lado de fora da correspondência.
Um dicionário grande demais
Murray é autodidata e precisa demonstrar sua capacidade diante de homens que valorizam títulos e vínculos universitários. Gibson lhe dá uma postura firme, às vezes solene demais, mas também um entusiasmo que ajuda a aproximá-lo do espectador. Ele acredita no trabalho, mesmo quando a quantidade de material sugere uma tarefa grande demais para uma vida inteira. Aceitar o posto significa assumir os atrasos de uma pesquisa que já vinha sendo desenvolvida antes de sua chegada.
A solução é pedir a participação de leitores de todo o país. Cada pessoa pode procurar palavras em livros e enviar trechos que documentem seus significados em diferentes épocas. O que parece uma atividade restrita a especialistas passa a depender da colaboração de desconhecidos. Antes da internet, reunir tanta gente em torno de uma pesquisa exigia papel, correio e uma paciência que os patrocinadores do dicionário nem sempre estavam dispostos a oferecer.
Safinia torna esse trabalho compreensível ao apresentar a distância entre o desejo de registrar uma língua e o esforço necessário para isso. Uma palavra pode ter vários sentidos, e cada definição precisa de exemplos. Enquanto Murray pede tempo para pesquisar, os responsáveis pela publicação querem resultados. A cobrança ameaça seu emprego e também pesa sobre a família, que precisa conviver com sua dedicação quase integral aos verbetes.
Um leitor atrás dos muros
Em Broadmoor, Minor enfrenta crises nas quais acredita estar sendo perseguido. O assassinato que o levou à instituição nasce de uma dessas experiências, mas seu sofrimento não apaga a morte de um inocente. Essa é uma dificuldade que Sean Penn precisa sustentar em cena. Seu personagem possui conhecimento, generosidade e capacidade de concentração, ao mesmo tempo que carrega a responsabilidade por uma perda irreparável.
Penn aposta em gestos tensos, alterações na voz e expressões de medo. Há passagens em que a atuação parece insistir demais na perturbação do médico. Quando ele se ocupa dos livros, porém, o ator encontra uma presença mais contida e comovente. A pesquisa lhe permite ser reconhecido por uma habilidade, além de ser observado pelos sintomas da doença.
Depois de prestar socorro a um funcionário, Minor recebe permissão para manter uma pequena biblioteca. Ao tomar conhecimento do pedido de Murray, começa a procurar citações e enviar suas descobertas. A leitura ganha um propósito que ultrapassa a passagem das horas. Seus conhecimentos passam a ter utilidade fora do hospital, embora o acesso aos livros continue sujeito às decisões de quem administra sua vida ali dentro.
A aproximação entre os protagonistas funciona melhor quando Gibson e Penn deixam espaço para a curiosidade e a escuta. Murray recebe uma contribuição intelectual valiosa de alguém que muitos considerariam incapaz de participar daquele trabalho. Ainda assim, o reconhecimento do editor não resolve a condição de seu colaborador nem oferece proteção contra futuras restrições.
A vida de quem ficou
Eliza Merrett (Natalie Dormer), viúva do homem assassinado, traz uma perspectiva indispensável à história. Enquanto os dois pesquisadores se aproximam pelas cartas, ela precisa sustentar os filhos sem o marido. Minor oferece parte de sua pensão à família, mas receber esse dinheiro significa aceitar ajuda da pessoa responsável por sua perda.
Dormer dá consistência à hesitação de Eliza. A necessidade financeira não elimina a raiva, e a compaixão tampouco surge sem resistência. A atriz consegue sugerir sentimentos contraditórios sem transformar cada encontro em uma demonstração ostensiva de sofrimento. Sua presença impede que a admiração pela inteligência do médico faça esquecer o que aconteceu com a família da vítima.
As visitas ao hospital permitem uma aproximação entre os dois, e os livros também passam a fazer parte dessa relação. Minor ajuda Eliza a aprender a ler, oferecendo um conhecimento que ela poderá compartilhar com os filhos. São passagens delicadas, embora Safinia por vezes carregue a emoção e pareça pedir uma reconciliação mais simples do que a situação comporta. O interesse está nas dúvidas da viúva, inclusive quando elas resistem ao desejo de tornar os encontros reconfortantes.
O trabalho cobra seu preço
Na casa dos Murray, Ada (Jennifer Ehle) enfrenta outra forma de desgaste. O marido abraça uma tarefa imensa, mas a rotina familiar continua exigindo atenção, dinheiro e presença. Ehle dá peso a essas cobranças sem fazer da personagem uma adversária do dicionário. Ada conhece o valor do trabalho e também o custo de sustentá-lo dentro de casa.
Safinia perde parte da sutileza ao apresentar certas disputas acadêmicas. Alguns opositores de Murray parecem existir apenas para dificultar sua permanência, o que empobrece discussões que poderiam envolver critérios de pesquisa, orçamento e prazo. O excesso de solenidade também pesa em passagens nas quais os personagens já têm motivos suficientes para sofrer.
Há interesse em acompanhar alguém procurando uma citação, uma viúva aprendendo a ler ou um editor reconhecendo a qualidade de uma carta. Gibson, Penn e Dormer dão humanidade a essas situações, apesar dos excessos dramáticos. Entre as cobranças de Oxford e as restrições de Broadmoor, Murray precisa continuar o dicionário e defender a participação do homem cujas contribuições se acumulam sobre sua mesa.

