“Mal de Família” faz uma combinação deliciosa de humor sombrio, ressentimento e suspense. Vencedora do BAFTA de série dramática, a produção da Apple TV acompanha cinco irmãs e um casamento que transforma qualquer reunião de família num campo minado emocional.
MAL DE FAMÍLIA (2022)
As irmãs Garvey têm uma relação de cumplicidade que o casamento de Grace torna cada vez mais difícil. Seu marido, John Paul, interfere na vida de todas e exerce um controle humilhante dentro de casa. Quando ele morre, a investigação de um seguro desperta perguntas sobre as circunstâncias do óbito. A narrativa alterna o período anterior à morte e seus desdobramentos, deixando o espectador acompanhar a deterioração das relações e calcular o que cada irmã poderia ter feito.
O contraste que parece improvável na manchete está no centro da série. Em 2023, “Bad Sisters”, seu título original, venceu o BAFTA de série dramática, enquanto Anne-Marie Duff recebeu o prêmio de atriz coadjuvante. O reconhecimento ajuda a localizar o tom: o humor pode ser feroz, mas a vulnerabilidade de Grace exige outra atenção. A comédia encontra espaço na reação das irmãs, nas tentativas de controlar o desastre e no atrito entre personalidades muito diferentes.
Sharon Horgan, que também interpreta Eva, desenvolveu a adaptação com Brett Baer e Dave Finkel a partir da série belga “Clan”. A trama se passa na Irlanda e tira proveito da intimidade construída pelo elenco. As conversas têm a velocidade de pessoas que se conhecem há muito tempo: interrompem, provocam, presumem intenções. Pequenas disputas entre as irmãs continuam presentes mesmo quando elas encontram uma razão para agir juntas.
Claes Bang interpreta John Paul com uma crueldade que frequentemente se disfarça de brincadeira ou preocupação. Esse detalhe dá peso às cenas domésticas: um comentário pode diminuir alguém diante dos outros e ainda permitir que o agressor se apresente como ofendido. A série sustenta a indignação sem abandonar o suspense sobre o que aconteceu, e mantém a identificação com personagens capazes de decisões muito questionáveis.
A primeira temporada tem dez episódios na Apple TV e estabelece o jogo entre a investigação e o passado da família. Vale pela combinação entre mistério bem conduzido, diálogos ácidos e um conjunto de atrizes que dá história a cada troca de olhares. O riso costuma chegar acompanhado de incômodo, sobretudo quando a reunião familiar parece prestes a voltar ao normal e alguém encontra a frase exata para estragar tudo.

