Adriana Esteves, Débora Bloch e Cauã Reymond integram o elenco de “Justiça”, indicada em duas categorias do Emmy Internacional. No Globoplay, a série de Manuela Dias faz quatro histórias se cruzarem em Recife e põe à prova nossa pressa de julgar os outros.
JUSTIÇA (2016)
Quatro pessoas são presas depois de acontecimentos numa mesma noite em Recife. Sete anos mais tarde, deixam a prisão e tentam voltar a um mundo que continuou sem elas. Uma mãe, uma jovem, um homem tomado pela perda e outro marcado por um crime encontram famílias reorganizadas, ressentimentos e possibilidades incertas de recomeço. As histórias se aproximam por encontros aparentemente laterais, até que uma personagem vista de passagem ganha o centro de outro capítulo.
A estrutura é um dos grandes acertos de Manuela Dias. Cada núcleo modifica a percepção dos demais e obriga o espectador a desconfiar de julgamentos rápidos. Uma decisão tomada sob medo, luto ou necessidade pode ganhar outro peso quando se conhece quem vai sofrer suas consequências. O roteiro trabalha com responsabilidade e desigualdade sem transformar todos os envolvidos em exemplos abstratos: eles têm desejos, contradições e motivos para esconder parte do que fizeram.
O reconhecimento internacional veio em 2017, com indicações ao Emmy Internacional de série dramática e de atriz para Adriana Esteves. Como Fátima, a intérprete encontra força nos gestos cotidianos de uma mulher que tenta preservar a família. Débora Bloch, Cauã Reymond, Jéssica Ellen e Jesuíta Barbosa ajudam a sustentar o conjunto, que exige mudanças de perspectiva sem perder o vínculo emocional com cada trajetória.
Recife participa dessa construção. As gravações passaram por lugares como Boa Viagem, o mercado de São José e Brasília Teimosa. Sob a direção artística de José Luiz Villamarim, a cidade oferece proximidades físicas que convivem com enormes distâncias sociais. Vizinhos, colegas e conhecidos dividem espaços, mas dispõem de recursos muito diferentes quando precisam ser ouvidos, protegidos ou acreditados.
A recomendação é a primeira temporada, de 2016, com vinte episódios no Globoplay. Convém acompanhar a ordem dos capítulos para perceber os cruzamentos e as mudanças de ponto de vista. O interesse cresce quando a liberdade deixa de parecer um desfecho e passa a ser outro problema: uma pessoa pode cumprir sua pena e continuar cercada pelo dano que sofreu, pelo dano que causou e pelas dívidas que ninguém sabe como cobrar.

