Vencedor do Oscar pelo roteiro de “A Lista de Schindler”, Steven Zaillian escreveu e dirigiu os oito episódios de “RIPLEY”. Na Netflix, Andrew Scott interpreta o personagem de Patricia Highsmith numa adaptação em preto e branco que transforma a observação em suspense.
RIPLEY (2024)
Tom vive de pequenos golpes em Nova York quando recebe uma proposta incomum: viajar à Itália e convencer o filho de um homem rico a voltar para casa. Dickie Greenleaf leva uma vida confortável, dividida entre interesses artísticos, paisagens convidativas e a companhia de Marge Sherwood. Ao se aproximar daquele cotidiano, Tom passa a desejar mais do que o pagamento combinado. Permanecer por perto exige inventar explicações e acompanhar as suspeitas de quem observa sua chegada.
Zaillian recebeu o Oscar de roteiro adaptado por “A Lista de Schindler” e assumiu tanto a escrita quanto a direção de toda a minissérie. Essa continuidade permite que um mesmo olhar organize as cenas, os espaços e a passagem do tempo. O suspense se desenvolve com paciência para acompanhar tarefas e deslocamentos. Algo aparentemente simples pode se tornar uma dificuldade quando há outra pessoa olhando.
A fotografia em preto e branco, assinada por Robert Elswit, dá especial importância às superfícies, às sombras e às distâncias. Escadas, corredores e quartos têm presença concreta na ação. A Itália aparece como um lugar desejável, mas também cheio de portas que alguém precisa atravessar sem chamar atenção. A beleza visual participa da tensão porque torna cada movimento mais fácil de observar.
Andrew Scott constrói o protagonista por meio de uma vigilância constante. Tom estuda hábitos, escuta conversas e tenta compreender que comportamento lhe permitiria continuar naquele ambiente. Johnny Flynn oferece a Dickie uma despreocupação que depende de sua posição social; Dakota Fanning interpreta Marge como alguém menos disposta a aceitar as explicações do visitante. A diferença entre os três alimenta cenas em que a cordialidade nunca parece inteiramente segura.
A adaptação encontra força na intimidade com um personagem que precisa sustentar versões de si. O espectador acompanha a distância entre o que Tom pretende e o que consegue fazer, percebendo como cada solução pode criar uma nova dificuldade. São oito episódios para quem aprecia um suspense atento aos detalhes e ao peso dos espaços. Mesmo uma conversa tranquila ganha outra temperatura quando alguém tem muito a esconder e pouco tempo para pensar.

