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Evan Treborn (Ashton Kutcher) está na faculdade quando descobre que pode voltar à infância para tentar proteger os amigos e a garota que ama. O caminho está nos diários que escreveu durante anos, por orientação de um psicólogo, para registrar episódios que sua memória insistia em apagar. Em “Efeito Borboleta”, de 2004, dirigido por Eric Bress e J. Mackye Gruber, essa descoberta oferece ao jovem a chance de interferir em acontecimentos dolorosos. O problema é que ele consegue mudar uma escolha, mas não controlar tudo o que vem depois.

A premissa desperta uma vontade bastante familiar. Quem nunca desejou retornar a uma conversa, impedir um encontro ou ficar em casa naquele dia em que tudo deu errado? Evan recebe essa oportunidade com uma vantagem considerável sobre qualquer pessoa arrependida. Ele leva para o passado o conhecimento adquirido na vida adulta. Ainda assim, saber o que aconteceu está longe de garantir uma boa solução.

Uma infância cheia de lacunas

Desde menino, Evan sofre apagões durante situações perturbadoras. Há períodos inteiros dos quais não consegue se lembrar, embora as pessoas ao redor tenham presenciado suas atitudes. Sua mãe, Andrea Treborn (Melora Walters), procura ajuda profissional, preocupada com a saúde do filho. Os cadernos surgem nesse contexto, numa tentativa de preservar alguma continuidade entre aquilo que ele vive e o que consegue recordar.

Essas falhas de memória acontecem numa infância atravessada pela violência. Evan cresce próximo de Kayleigh Miller (Amy Smart), por quem permanece apaixonado, do irmão dela, Tommy Miller (William Lee Scott), e do amigo Lenny Kagan (Elden Henson). Os quatro compartilham experiências que deixam marcas duradouras. Entre os adultos responsáveis por esse ambiente está George Miller (Eric Stoltz), pai de Kayleigh e Tommy, que submete as crianças a abusos.

Bress e Gruber apresentam esse passado aos poucos, acompanhando o conhecimento incompleto do protagonista. Algumas situações terminam antes que Evan possa recordar o que houve. Outras deixam sinais cujo significado ele só poderá investigar mais tarde. A curiosidade nasce dessas ausências, mas também da preocupação com crianças que convivem com perigos muito maiores do que conseguem enfrentar.

Os diários permitem voltar

Já universitário, Evan relê seus registros e descobre que pode retornar aos momentos descritos nas páginas. Sua consciência adulta ocupa o corpo que tinha naquela época, permitindo tomar atitudes diferentes. Aquilo que parecia uma lembrança inacessível passa a ser um acontecimento no qual ele pode interferir.

É uma solução de ficção científica apresentada sem grandes preocupações com justificativas científicas. O interesse está no uso que o rapaz faz dessa habilidade. Evan quer poupar Kayleigh do sofrimento e acredita que uma intervenção no momento certo poderá transformar a vida dela. Sua disposição é compreensível, sobretudo porque agora possui recursos emocionais e informações que lhe faltavam quando criança.

A dificuldade aparece no retorno. Enquanto ele se concentra num episódio, os demais passam a viver sob condições diferentes durante anos. Uma pessoa protegida pode crescer cercada por outros problemas. Uma agressão impedida pode mudar relações que Evan sequer havia considerado. Para avaliar o resultado, precisa descobrir quem aqueles amigos se tornaram na nova versão do presente.

Salvar Kayleigh tem um preço

O vínculo com Kayleigh dá uma razão afetiva às viagens. Evan carrega a lembrança da menina de quem gostava e deseja oferecer a ela uma vida melhor. Amy Smart precisa interpretar uma personagem cujas circunstâncias mudam bastante, preservando traços que permitam reconhecer a mesma pessoa. A atriz sustenta essa continuidade na maneira de receber Evan, na confiança que deposita nele e na distância que estabelece.

O roteiro, porém, nem sempre oferece à personagem espaço suficiente. Muitas vezes, Kayleigh recebe uma nova carga de sofrimento para que o protagonista tenha outra razão para voltar aos cadernos. Há sentimento nessa relação, mas faz falta conhecer melhor os desejos dela fora das tentativas de resgate. Evan quer decidir o que seria uma vida feliz para os dois, embora ela não compartilhe as mesmas lembranças nem tenha participado dessas escolhas.

Tommy e Lenny tornam essa pretensão ainda mais complicada. O irmão de Kayleigh reage ao ambiente familiar com agressividade, enquanto Lenny carrega sua própria vulnerabilidade diante dos acontecimentos do grupo. Qualquer intervenção alcança também essas duas vidas. A preocupação com a garota não permite ao universitário tratar os amigos como detalhes que possam ser deixados para depois.

As boas intenções perdem força

Kutcher convence mais quando Evan está assustado do que quando precisa demonstrar segurança. O ator transmite bem o desconforto de chegar a uma realidade desconhecida, cercado por pessoas que esperam dele comportamentos dos quais não se lembra. São situações que exigem observar, perguntar e disfarçar a confusão antes de agir novamente.

Os diretores aproveitam essa desorientação para manter o suspense. O público acompanha as descobertas do rapaz e precisa reunir informações junto dele. A possibilidade de uma mudança ter dado certo permanece provisória até que Evan procure os demais e descubra o que aconteceu com cada um.

Essa sucessão também expõe as fragilidades de “Efeito Borboleta”. Bress e Gruber acumulam situações extremas e, em algumas passagens, parecem interessados demais em castigar os personagens. O sofrimento perde parte da força quando uma nova desgraça chega antes que a anterior tenha recebido atenção. As regras das viagens também ficam menos convincentes quando precisam atender a uma virada específica.

Ainda assim, o envolvimento se mantém porque Evan continua agindo por uma razão reconhecível. Ele quer ajudar pessoas que ama e acredita ter encontrado uma chance rara de fazer isso. Cada retorno enfraquece sua confiança, sem apagar o desejo de tentar outra vez. Ao abrir o diário, o rapaz sabe qual acontecimento pretende mudar. O que o espera quando fechar o caderno permanece fora de seu alcance.


Filme: Efeito Borboleta
Diretor: Eric Bress e J. Mackye Gruber
Ano: 2004
Gênero: Drama/Ficção Científica/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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