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Bula AchadosUm romance sob a tinta

Em novembro de 1966, Tom Phillips saiu à procura de uma pechincha e voltou com trabalho para décadas. Num depósito de móveis e livros usados em Peckham Rye, no sul de Londres, comprou por três pence um exemplar de “A Human Document”, romance de W. H. Mallock publicado em 1892. O pintor tinha estabelecido uma condição simples para a escolha. O primeiro livro que encontrasse por aquele preço serviria de matéria-prima para um projeto demorado. Estava acompanhado do artista R. B. Kitaj, testemunha da compra e da disposição de arrumar serviço.

Phillips começou a cobrir o texto, preservando palavras e pequenos trechos. Ao redor deles, entraram desenhos, tinta e colagens. As frases que permaneciam visíveis passavam a se relacionar de outro modo. Entre uma palavra e outra, o leitor precisava seguir caminhos abertos na superfície pintada. O romance de Mallock fornecia tanto o papel quanto o vocabulário da intervenção. Dessa convivência, em que uma obra ocupa fisicamente a outra, nasceu “A Humument”.

O Museu de Arte de Toledo descreve a mudança de procedimento. No começo, Phillips riscava com pena e tinta aquilo que não desejava conservar. A possibilidade de aproximar texto e imagem levou ao uso mais amplo da pintura. Algumas páginas continuaram a receber apenas trabalho de tinta; outras incorporaram fragmentos colados. Há uma diferença considerável entre eliminar uma frase porque ela atrapalha e cobri-la porque, naquele lugar, deve aparecer uma imagem. O espaço deixado pelo texto também precisava ser composto.

Para quem abre o volume, o efeito imediato é uma mudança de atenção. Num romance comum, o desenho da página costuma desaparecer durante a leitura. Aqui ele permanece exigindo participação. Os olhos procuram as palavras disponíveis, acompanham as ligações entre elas e encontram figuras no percurso. Ler uma passagem e olhar a imagem são atividades que interferem uma na outra. A página oferece menos texto à vista, mas não necessariamente pede menos tempo.

Uma regra restringia a liberdade do artista. Em sua introdução à edição de 2016, Phillips explica que as palavras de Mallock deveriam, salvo desvios mínimos, permanecer em seus lugares. Não bastava recolher um punhado de termos interessantes e arrumá-los à vontade. Era preciso trabalhar com as distâncias já impressas. Dessa limitação veio também Bill Toge, personagem cujo sobrenome foi extraído das palavras inglesas “together” e “altogether”. Sua presença ficou vinculada à ocorrência delas no livro.

É uma maneira peculiar de dar existência a alguém. O autor pode imaginar uma situação para o personagem, mas precisa negociar com uma página preparada por outro escritor muitas décadas antes. Um detalhe tipográfico ganha consequências narrativas. Para acompanhar essa invenção, não é necessário conhecer primeiro o enredo de Mallock. Basta perceber como a seleção muda o que uma sequência de palavras parece estar dizendo.

A história das edições mostra que Phillips também não se deu por satisfeito com a primeira solução. Houve conjuntos de páginas publicados pela Tetrad Press nos anos 1970. Em 1980 apareceu a primeira edição comercial encadernada, produzida por Hansjörg Mayer e distribuída pela Thames & Hudson. As edições seguintes trouxeram novas versões de páginas já trabalhadas. O livro avançava por substituições, oferecendo ao leitor um estado provisório de um trabalho que continuava na mesa do artista.

Uma obra dentro da outra1966o começoUm romance de 1892 se torna a matéria-prima de décadas de pintura e reescrita.
1892O romance de Mallock1966Phillips inicia o trabalho1980Edição comercial2016Sexta edição
Livro-base
“A Human Document”
Autor original
W. H. Mallock
Intervenção artística
Tom Phillips
O que mudou depois de 2016?

A sexta edição foi anunciada como final, mas Phillips retomou o projeto em 2018. Seu site registra 78 páginas de uma terceira versão produzidas até sua morte, em 2022.

Em 2016, a sexta edição completou a revisão de todas as páginas da primeira versão. O intervalo de cinquenta anos desde a compra ganhou aparência de encerramento, e a capa anunciou uma versão final. A Biblioteca da Universidade de Princeton registrou o lançamento naquele outubro, celebrando o aniversário do projeto. Parecia um ponto razoável para guardar os pincéis.

Não durou. Segundo o site dedicado à obra de Phillips, em 2018 ele já havia retornado ao projeto. Quando morreu, em 2022, tinha produzido 78 páginas de uma terceira versão. O romance comprado por três pence ainda fornecia trabalho. Depois de tantas edições, a palavra mais provisória daquela capa de 2016 talvez fosse justamente “final”.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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