Uma declaração de amor foi distribuída pelas iniciais de 38 capítulos de um livro impresso em Veneza em 1499. Para encontrá-la, é preciso suspender por um momento a leitura normal e recolher as letras que abrem cada capítulo. Reunidas, elas formam uma frase em latim. O nome da mulher aparece antes de qualquer explicação. Polia.
O livro é “Hypnerotomachia Poliphili”, publicado por Aldo Manuzio. O título já oferece alguma resistência a quem pretende recomendá-lo numa conversa. Costuma ser traduzido como a batalha amorosa de Polifilo em sonho. A mensagem escondida é mais direta que o título. “Poliam frater Franciscus Columna peramavit”, ou, em tradução livre, “Frei Francesco Colonna amou intensamente Polia”.
O recurso se chama acróstico e está longe de depender de uma tecnologia obscura. Cada letra pode ser vista por qualquer leitor que tenha acesso às páginas. O segredo nasce do modo de reunir informações que, na leitura corrente, ficam separadas. A mesma inicial que parece apenas inaugurar uma seção participa de uma frase que atravessa o volume inteiro.
A pista é especialmente tentadora porque oferece um nome para a autoria. A biblioteca da Universidade de Otago explica que a obra é tradicionalmente atribuída a Francesco Colonna, um dominicano veneziano. Faz, porém, uma ressalva indispensável. O acróstico é um indício forte, aceito por muitos estudiosos, mas não constitui prova conclusiva. Uma assinatura escondida pode alimentar uma investigação sem encerrá-la.
O que a frase permite afirmar
O acróstico fornece uma pista para a atribuição a Francesco Colonna. A Universidade de Otago ressalva que ele não resolve de forma conclusiva a questão da autoria.
É uma diferença pequena na formulação e enorme na reportagem. Seria mais simples apresentar o volume como a confissão de um frade apaixonado e tratar Polia como uma mulher cuja identidade conhecemos. O livro não autoriza essa segurança. A declaração existe na organização dos capítulos; a passagem dela para uma biografia amorosa exige evidências que as letras, sozinhas, não fornecem.
O que se pode acompanhar com mais firmeza é a viagem de Polifilo. Em sonho, ele procura a amada por um mundo de ruínas, jardins, inscrições e construções extraordinárias. A Biblioteca Angelica, em Roma, descreve o percurso como uma iniciação que vai da escuridão ao conhecimento, orientada por uma visão pagã da natureza e pelo poder de Vênus e do amor.
Nesse caminho, os edifícios não funcionam apenas como cenário. Descrições de monumentos, templos, fontes e sinais escritos fazem parte da própria aventura de interpretação. O personagem procura Polia, mas o leitor também precisa aprender a atravessar uma profusão de objetos que parecem pedir uma explicação. O acróstico combina muito bem com um livro em que olhar raramente basta.
Sua aparência material participa dessa dificuldade e desse prazer. São 170 gravuras em madeira, segundo a Biblioteca Angelica, integradas a um texto linguisticamente incomum, carregado de elementos latinos e gregos. O leitor encontra uma obra que exige atenção em várias direções. A imagem pode oferecer uma entrada onde a frase resiste, sem que isso torne o conjunto simples.
A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos inclui o volume entre os livros mais notáveis e incomuns do século 15. A data importa. Estamos diante de uma experiência realizada nas primeiras décadas da cultura do livro impresso europeu, quando a relação entre tipos, ilustrações e organização da página ainda oferecia um vasto campo de invenção. A antiguidade do objeto não diminui a inteligência de sua construção.
Há ainda outro anonimato. A identidade de quem desenhou suas célebres xilogravuras também é discutida. A Biblioteca Angelica registra atribuições possíveis, sem apresentar uma solução definitiva. O livro reúne, assim, uma declaração bastante legível e autores cuja identificação não alcança a mesma nitidez. Saber ler a frase não equivale a conhecer todas as pessoas que a puseram no papel.
Para quem se aproxima hoje, a entrada mais convidativa talvez continue sendo aquele gesto elementar de recolher iniciais. Não exige resolver todos os enigmas do Renascimento. Basta seguir as aberturas dos capítulos e anotar uma letra depois da outra. Ao final, o volume de ruínas, jardins e sonhos deixa aparecer, numa linha, um homem dizendo que amou Polia.

