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Bula AchadosA memória em partes

Antes de começar “The Unfortunates”, o leitor precisa resolver um pequeno problema doméstico. Onde colocar os pedaços do livro? Publicado em 1969 pelo inglês B. S. Johnson, o romance chega numa caixa com 27 partes separadas. Duas indicam o começo e o fim. As outras 25 podem ser embaralhadas. Uma mesa ajuda. Uma rajada de vento, provavelmente, ajuda menos.

A primeira impressão pode ser a de um escritor disposto a complicar uma atividade que já exige alguma boa vontade. Afinal, a encadernação vinha cumprindo satisfatoriamente sua tarefa de impedir que os capítulos se espalhassem pela casa. Mas a caixa tem uma razão que aparece quando se conhece o assunto. Johnson escreveu sobre a morte de um amigo e procurou uma forma que não arrumasse as lembranças numa sequência excessivamente obediente.

O ponto de partida é um trabalho banal. Um jornalista esportivo desembarca numa cidade inglesa para cobrir uma partida de futebol. A chegada desperta recordações de um amigo que morreu de câncer. A descrição da editora New Directions destaca justamente esse atrito entre a tarefa profissional e a invasão do passado. Há uma reportagem a entregar, enquanto a memória se ocupa de outra coisa.

A história tem uma base pessoal. Johnson também trabalhou como jornalista de futebol, e Tony Tillinghast, seu amigo, morreu em 1964. A cidade associada às lembranças é Nottingham. O livro aproxima uma obrigação que pode ser cumprida e encerrada de uma perda que continua reaparecendo. O jogo terá um resultado. Para o outro assunto, não existe uma informação equivalente.

Na caixa, a liberdade do leitor tem limites bastante precisos. É necessário preservar os extremos indicados pelo autor. Entre eles, porém, os cadernos não impõem uma única passagem de um episódio ao seguinte. A extensão das partes também varia. Essa desigualdade interessa mais do que a possibilidade de anunciar um número espantoso de combinações. Uma lembrança breve pode interromper outra longa, sem pedir licença à importância que o narrador gostaria de atribuir a cada uma.

A ordem da leitura27partesPrimeira e última fixas. As outras 25 podem mudar de lugar.
PRIMEIRAÚLTIMA
1969 · publicação original25 partes intermediárias2 posições fixas
O que o leitor pode mudar

A sequência das partes intermediárias pode variar. As palavras de cada parte permanecem as mesmas, e as seções marcadas como primeira e última conservam suas posições.

O gesto de trocar dois cadernos permite perceber algo que uma encadernação costuma esconder. O que acabamos de ler interfere no que leremos depois. Uma informação parece antecipação quando vem antes de determinada passagem e ganha o peso de comentário quando aparece depois. As palavras continuam sendo as mesmas. A vizinhança delas muda.

Convém não confundir o procedimento com uma aventura em que o público escolhe quem vive, quem morre ou qual porta o herói deve abrir. O leitor não recebe o poder de salvar o amigo. Seu trabalho é percorrer os fragmentos, escolher uma sequência e conviver com aquilo que nenhuma rearrumação pode corrigir. A maleabilidade do objeto encontra aí um limite incômodo.

Também seria fácil vender a caixa como uma profecia da leitura digital. O livro é anterior à popularização dos computadores pessoais, mas sua peculiaridade continua dependendo de uma operação muito física. Retirar os cadernos, segurar um deles, perder momentaneamente a posição de outro. A ordem deixa de ser apenas um problema do narrador e passa pelas mãos de quem lê.

A Picador voltou a editar a obra em 1999, com apresentação de Jonathan Coe. Em seu catálogo, a editora a descreve como uma meditação sobre a morte e uma celebração da amizade. A fórmula ajuda a devolver proporção à curiosidade material. O formato chama a atenção de longe; o que sustenta o projeto é uma experiência reconhecível, mesmo para quem nunca teve vontade de desmontar um romance.

Há algo de modesto nessa invenção tão ostensiva. Johnson não entrega ao leitor uma memória inteira, finalmente organizada e disponível para consulta. Entrega partes que podem ser aproximadas de outras maneiras. Depois da leitura, é possível juntá-las, guardar os cadernos e fechar a tampa. A caixa fica em ordem com uma facilidade que seu assunto não permite.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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