Três pavões de ouro, com pedras nas caudas, enfeitavam o livro que embarcou no Titanic em 1912. Em volta deles, ramagens douradas completavam uma encadernação na qual a moderação havia sido dispensada desde a encomenda. O volume era um “Rubáiyát”, de Omar Khayyám, que ganhou o apelido de Great Omar. Afundou na viagem para os Estados Unidos. Anos depois, quando outro artesão resolveu refazê-lo, parecia razoável esperar que o pior já tivesse acontecido.
O trabalho saíra da oficina londrina Sangorski & Sutcliffe, fundada em 1901 por dois homens que haviam se conhecido num curso noturno de encadernação. Francis Sangorski e George Sutcliffe fizeram do couro, do ouro e das pedras um repertório de possibilidades para vestir livros. O Harry Ransom Center, que conserva dezenas de trabalhos da dupla, registra entre eles um volume de Lewis Carroll com aplicação de pele de arraia. Estavam longe da discreta capa de proteção.
Para o Great Omar, John Harrison Stonehouse, da livraria Sotheran, deu a Sangorski uma liberdade que todo artesão gostaria de receber e que muitos comerciantes prefeririam não conceder. O preço poderia acompanhar a ambição. Segundo a história da encomenda reconstituída num catálogo da Sotheby’s, o resultado deveria justificar tanto a despesa quanto a pretensão de produzir uma encadernação excepcional.
Sangorski aproveitou a licença. Foram cerca de dois anos de trabalho, concluído em 1911, mais de mil pedras preciosas e semipreciosas, aplicações de couro e uma profusão de ouro. A decoração continuava no interior das capas, com serpentes e uma caveira. O livro oferecia prazeres suficientes para distrair o comprador, embora também tivesse providenciado um lembrete da morte.
Os poemas estavam numa edição ilustrada por Elihu Vedder, publicada em Boston em 1884, com a versão inglesa de Edward FitzGerald. Essa distinção importa. O desaparecimento do Great Omar não privou o mundo de um texto único. Perdeu-se um objeto irrepetível, construído sobre páginas que existiam em outros exemplares. Na bibliofilia, às vezes a parte acrescentada para guardar o livro acaba sendo aquilo que mais se deseja guardar.
A exuberância não facilitou a venda. O volume, oferecido por mil libras, acabou arrematado por 405 pelo livreiro Gabriel Wells, em 1912, conforme o relato da Sotheran publicado pela Liga Internacional de Livreiros Antiquários. Há alguma justiça comercial, embora pouca delicadeza, nessa distância entre o entusiasmo de quem encomenda e o bolso de quem compra. O transporte para a América encerraria a negociação de maneira muito mais definitiva.
O Titanic levou a encadernação, e o Great Omar nunca foi recuperado. A história poderia terminar aí, como tantas histórias de objetos que sobrevivem apenas em fotografias, descrições e lembranças profissionais. Mas os desenhos e os padrões de trabalho permitiam uma reconstrução. Stanley Bray, sobrinho de Sutcliffe, decidiu executá-la.
Segundo a cronologia da British Library, Bray trabalhou na segunda versão entre 1932 e 1939. A duração dá uma medida do empreendimento. Refazer um objeto assim exige repetir operações minúsculas, conferir posições e retomar ferramentas, durante anos, para devolver ao conjunto uma aparência que uma fotografia resume num instante. A reconstrução ficou pronta quando a Europa entrava em guerra.
O livro foi guardado num cofre bancário. A precaução seria insuficiente. O bombardeio destruiu o lugar, e a segunda encadernação perdeu-se no Blitz de Londres, em 1941. Dessa vez, a obra havia chegado inteira ao destino e estava sob proteção. Ao refazê-la, Bray conseguira vencer a ausência do primeiro exemplar. Não tinha como prever a destruição do segundo.
Três encadernações
O projeto foi reconstruído duas vezes. A terceira versão está na British Library.
Era o mesmo exemplar?
Eram encadernações distintas do “Rubáiyát”, feitas segundo o projeto original. A primeira nunca foi recuperada; a segunda também foi destruída. A que a British Library conserva é a terceira versão.
Bray voltou ao projeto. O registro da British Library data de 1985 o início da terceira encadernação, que consumiu quatro anos de sua aposentadoria. O homem que já dedicara boa parte da década de 1930 ao Great Omar tornou a trabalhar nos pavões, nas aplicações e no ouro. O volume entrou no acervo da biblioteca por legado do casal Bray, em 2005.
A biblioteca produziu também um modelo digital em três dimensões, disponível para consulta. Pode-se examinar a encadernação sem submetê-la a mais uma viagem, o que, neste caso, parece uma comodidade especialmente bem-vinda. Os pavões continuam lá. Para a terceira versão, uma prateleira e alguns cuidados de conservação acabaram sendo um destino suficientemente bom.

