Uma vela acesa debaixo da placa de tinta fazia parte do equipamento necessário para imprimir “Aurora Australis”. Sem ela, o frio engrossava a tinta até prejudicar o trabalho. Com calor demais, surgia o problema contrário. Os impressores precisavam deslocar a chama para encontrar uma temperatura utilizável. A oficina ficava na Antártida, durante o inverno de 1908, e a qualidade de cada página dependia de cuidados que dificilmente entrariam numa discussão sobre literatura.
O livro nasceu na expedição britânica de 1907 a 1909 liderada por Ernest Shackleton, conhecida pelo nome do navio Nimrod. Publicar um volume ajudaria a ocupar os meses de confinamento no cabo Royds, na ilha de Ross. A ideia exigiu planejamento antes da partida. A firma Joseph Causton & Sons forneceu equipamento, materiais e instrução. Ernest Joyce e Frank Wild tiveram três semanas para aprender um ofício que, segundo Shackleton, normalmente consumia sete anos de aprendizagem.
O editor faz essa comparação no prefácio do próprio livro. É uma maneira bastante convincente de pedir alguma tolerância ao leitor. A impressora tipográfica, o equipamento para as imagens, os tipos, o papel e a tinta foram levados até o continente. Havia, portanto, uma gráfica transportada com a expedição. Sua instalação posterior, porém, exigiria negociações com uma quantidade de espaço que não aumentava por mais importante que fosse a tarefa.
Shackleton descreve uma oficina de seis por sete pés, aproximadamente 1,8 por 2,1 metros. Nesse retângulo ainda cabiam uma máquina de costura e os beliches de dois homens. O espaço de trabalho era também espaço de moradia. Joyce e Wild cuidavam da impressão do texto, George Marston das imagens e Bernard Day da fabricação das capas. Shackleton editava as contribuições dos companheiros. Para produzir um livro, a expedição precisou montar dentro de si uma pequena equipe editorial.
O destino das caixas de mantimentos foi particularmente feliz. Day aproveitou sua madeira para fazer as capas. Marcas das embalagens permaneceram em exemplares que passaram a ser distinguidos pelo alimento indicado nelas. O Museums Victoria guarda um conhecido como “Chicken Copy”, o exemplar do frango. A história material do livro continuou visível numa parte que uma encadernação mais convencional teria tratado de esconder.
Uma equipe dentro da expedição
Cada etapa de “Aurora Australis” ganhou responsáveis entre os exploradores.
Por que as impressões variam?
Shackleton explicou no segundo prefácio que uma vela aquecia a placa de tinta. A dificuldade de regular o calor fazia algumas páginas saírem mais claras. Os exemplares também variam em conteúdo e acabamento.
Por dentro havia relatos, poemas e ficção. O sumário incluía a subida ao monte Erebus e uma entrevista com um imperador, neste caso um pinguim. Douglas Mawson contribuiu com “Bathybia”, uma narrativa fantástica. Os exploradores podiam observar o ambiente, fazer graça com as próprias circunstâncias e inventar coisas. O livro permitia que as mesmas pessoas encarregadas de tarefas científicas e práticas aparecessem sob outros papéis, inclusive com pseudônimos.
A folha de publicação localiza a produção nos meses de abril, maio, junho e julho de 1908. Em vez de um endereço comercial, fornece as coordenadas antárticas. Joyce e Wild imprimiam sob o signo dos pinguins, nome que dava à oficina uma identidade compatível com sua situação geográfica. No prefácio, Shackleton distingue o volume do “The South Polar Times”, publicação anterior, datilografada. “Aurora Australis” podia existir em vários exemplares porque estava sendo efetivamente impresso.
Essa multiplicação tinha seus acidentes. O biólogo James Murray contou, em “Antarctic Days”, que os responsáveis foram chamados para outra tarefa e deixaram uma vela aquecendo a placa. Quando voltaram, o calor havia derretido o rolo de entintagem, feito de material gelatinoso. Foi necessário refazê-lo. O relato, reproduzido pela Academia de Ciências da Califórnia, acrescenta à aventura a dimensão de uma oficina onde a peça de reposição mais próxima era uma hipótese pouco útil.
Murray também descreveu a poeira do fogão que se depositava sobre o papel e as vibrações provocadas pelo movimento dos moradores. Marston procurava trabalhar de madrugada, quando havia menos gente circulando. A cabana podia ficar cheia de homens durante uma nevasca prolongada, e cada saída trazia neve de volta nas roupas e nas botas. A impressão precisava acontecer no meio disso, nos intervalos de outras obrigações.
A tiragem não é conhecida com exatidão. O Museums Victoria estima que não tenha ultrapassado cem exemplares, em sua maior parte destinados a uma circulação privada. Os volumes tampouco são todos iguais. As diferenças de conteúdo e acabamento pertencem à produção de um livro feito naquelas condições, por pessoas que haviam aprendido depressa e tinham muito mais a fazer do que imprimir.
Ao acrescentar um segundo prefácio, Shackleton explicou que a variação na intensidade de algumas páginas vinha da dificuldade de regular o calor da vela. O comentário permite olhar uma impressão mais clara sem tomá-la apenas por defeito. Naquele ponto, alguém talvez tivesse precisado aproximar um pouco a chama.

