Em setembro de 1958, visitantes soviéticos da Exposição Universal de Bruxelas podiam encontrar um livro em russo que não estava à venda nas livrarias de Moscou. Era “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak. A edição parecia ter saído de uma casa editorial europeia. Quem a financiara, porém, preferia não aparecer na ficha técnica. O dinheiro vinha da CIA. O romance estava sendo distribuído como parte de uma operação de propaganda em plena Guerra Fria.
A história editorial de Pasternak já seria atribulada sem a participação dos serviços secretos. O escritor havia concluído um romance que atravessava a Revolução Russa e a guerra civil pela vida de seu personagem, o médico e poeta Iúri Jivago. As autoridades soviéticas rejeitaram a publicação. Em 1956, o manuscrito acabou nas mãos do italiano Sergio D’Angelo, que o levou ao editor Giangiacomo Feltrinelli. A edição italiana chegou às livrarias em novembro de 1957, apesar das pressões para que fosse abandonada.
O lançamento fora da União Soviética fez do romance um acontecimento internacional. Havia edições em outras línguas, resenhas e a expectativa de um público interessado em ler um grande escritor russo que não podia publicar seu principal romance em casa. Faltava uma coisa evidente. Uma edição em russo, acessível aos próprios compatriotas de Pasternak. A ausência era especialmente conveniente para um serviço de inteligência que procurava maneiras de expor contradições do sistema soviético.
Em janeiro de 1958, a inteligência britânica entregou aos americanos uma reprodução fotográfica do manuscrito original. Na sede da CIA, os responsáveis pela área soviética viram potencial político no livro. A agência passou a trabalhar com o serviço de inteligência holandês para viabilizar uma edição impressa em Haia. A operação deveria permanecer discreta. Não era interessante que o romance circulasse como uma peça de publicidade produzida em Washington.
O trabalho envolveu a editora Mouton e recursos da agência norte-americana. Aproximadamente mil exemplares foram impressos em 1958, com uma identificação editorial que sugeria a participação de Feltrinelli. O italiano, que havia arriscado sua carreira para lançar o romance, negou ser responsável por aquela impressão russa. A falsa atribuição criou incômodos e problemas de direitos autorais. Uma operação que pretendia divulgar literatura livre já nascia com certas liberdades tomadas sobre a edição.
Os livros seguiram para cidades europeias, entre elas Frankfurt, Berlim, Munique, Londres e Paris. Bruxelas recebeu uma parcela importante. A Exposição Universal atraía visitantes da União Soviética, que podiam obter o romance no Ocidente e, eventualmente, levá-lo para casa. A distribuição contou também com redes de emigrados russos e apoio ligado ao pavilhão do Vaticano. Um livro servia de contrabando intelectual sem precisar esconder fórmulas militares ou mapas confidenciais.
A CIA escreveu ou alterou o romance?
Não. O texto era obra de Boris Pasternak. A agência apoiou secretamente a impressão e a circulação em russo, explorando o valor político de um livro proibido pelas autoridades soviéticas.
A iniciativa tinha um cálculo preciso. Se a obra fosse proibida na União Soviética e permitida no restante do mundo, cada exemplar em russo se tornaria prova visível da censura. Era um argumento que se podia guardar no bolso. O leitor talvez se interessasse muito mais por Pasternak do que pela mensagem política. Isso não atrapalhava a estratégia. Pelo contrário. A eficácia de um romance numa campanha desse tipo dependia de ele continuar sendo literatura.
Em outubro de 1958, Pasternak recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. A reação soviética foi dura. Ele sofreu ataques oficiais e foi pressionado a recusar a distinção. Anos mais tarde, a descoberta da operação americana alimentaria versões segundo as quais a CIA teria conseguido o prêmio para o escritor. A documentação comprova o financiamento e a distribuição da edição, mas não autoriza transformar a agência na responsável pela decisão independente da Academia Sueca.
A CIA voltou ao romance em 1959. Mandou produzir exemplares menores, mais fáceis de transportar e de fazer circular. Um deles, conservado hoje no museu da própria agência, mede cerca de quatorze por nove centímetros. A ideia parecia banal. Quanto menor o objeto, mais simples seria atravessar fronteiras, passar de mão em mão e escapar dos olhos de quem controlava as leituras permitidas.
Durante décadas, as histórias sobre aquelas edições circularam entre pesquisadores e colecionadores, mas muitos detalhes permaneceram encobertos. Documentos tornados públicos em 2014 permitiram reconstituir o financiamento, as negociações com intermediários e as instruções de sigilo. O que parecia anedota de espionagem passou a ter memorandos, datas e decisões administrativas. É uma mudança considerável. Quando o assunto envolve agentes secretos, o papel carimbado costuma ser mais esclarecedor do que qualquer revelação espetacular.
Há algo desconcertante em descobrir dois tipos de interesse tão diferentes no mesmo livro. Pasternak procurava publicar uma obra sobre vidas submetidas à história, ao amor e à violência política. A União Soviética queria impedir sua circulação. Os Estados Unidos perceberam que o romance poderia servir para atacar o adversário. Nenhum dos dois governos escreveu as páginas. Mesmo assim, ambos acabaram disputando o destino do volume. O leitor soviético que conseguiu seu exemplar em Bruxelas recebeu, além de um romance, um objeto que os serviços de inteligência já haviam incluído na contabilidade da Guerra Fria.

