Na bagagem de quatro pesquisadores que viajaram pelo Norte e pelo Nordeste em 1938 havia equipamento para registrar sons e imagens. O trabalho, organizado pelo Departamento de Cultura de São Paulo sob a direção de Mário de Andrade, ficou conhecido como Missão de Pesquisas Folclóricas. Seu destino posterior seriam caixas, discos e catálogos. Antes disso, porém, foi necessário chegar às localidades e encontrar pessoas que cantassem, tocassem e aceitassem ser registradas.
Mário idealizou a iniciativa, mas não chefiou a equipe em campo. Essa função coube ao engenheiro e arquiteto Luís Saia. Com ele viajaram o músico e maestro Martin Braunwieser, o técnico de gravação Benedito Pacheco e Antônio Ladeira, auxiliar do trabalho de registro. A composição do grupo, documentada pela USP, ajuda a dimensionar a tarefa. Reunir repertório exigia mais do que levar um caderno e reconhecer uma boa melodia.
A Missão produziu um conjunto que hoje se encontra sob os cuidados do Centro Cultural São Paulo. O acervo reúne gravações musicais, fotografias, filmes, instrumentos, objetos de culto e documentos. A variedade importa porque uma execução não acontece isolada. É feita por alguém, num lugar, com instrumentos e circunstâncias que o som sozinho nem sempre consegue explicar.
Um disco conserva aspectos de uma voz que a anotação escrita não alcança. Em compensação, não informa automaticamente o nome de todos os participantes nem a situação em que cantavam. O cruzamento com cadernetas, fotografias e outros registros permite fazer perguntas mais precisas. Preservar o suporte sonoro é essencial, mas a história do que foi gravado depende também dos materiais que o acompanham.
O que acompanha a gravação
Mário de Andrade participou da equipe de campo?
Não. Ele idealizou e organizou a iniciativa à frente do Departamento de Cultura. Luís Saia chefiou os quatro integrantes da expedição.
A viagem se deu num período de repressão a práticas religiosas afro-brasileiras. Ao apresentar uma programação sobre o acervo, em 2015, o CCSP chamou atenção para a chegada da Missão a Pernambuco em fevereiro de 1938, no contexto do fechamento policial de casas de culto ao Xangô. A documentação cultural e a perseguição podiam se encontrar no mesmo território. Não se tratava de uma coleção feita fora da história.
Por isso, a palavra folclore precisa ser lida com atenção. Ela nomeava o projeto e o campo de investigação de seus organizadores, mas não deve transformar os participantes numa população anônima que apenas fornecia material. Havia conhecimentos, escolhas, vínculos religiosos e experiências locais. As pessoas registradas tinham relações com aquelas músicas antes de os pesquisadores chegarem e continuaram tendo depois que os equipamentos foram embora.
Décadas mais tarde, o pesquisador Carlos Sandroni voltou a localidades visitadas em 1938. Num artigo publicado na revista DEBATES, relata encontros realizados entre 1997 e 2012 com descendentes biológicos ou culturais de participantes da Missão. A investigação desloca a pergunta sobre o acervo. Além de saber o que ele oferece a uma instituição de pesquisa, é necessário considerar o que representa para as pessoas e comunidades às quais os registros se ligam.
Essa perspectiva amplia a ideia de conservação. Guardar um disco em condições adequadas impede a perda de um objeto. Identificar quem está nele e discutir como a gravação pode circular envolve outros compromissos. As questões de acesso e de propriedade intelectual apontadas por Sandroni não diminuem a importância da Missão. Tornam mais exigente a responsabilidade de trabalhar com aquilo que ela deixou.
A circulação posterior teve diferentes formas. Uma coleção de seis CDs, lançada pela Secretaria Municipal de Cultura em parceria com o Sesc-SP, reuniu parte das manifestações musicais registradas. O portal do acervo do CCSP também oferece instrumentos de pesquisa e informa que a catalogação e a disponibilização digital são processos em andamento. O arquivo que o público encontra resulta de sucessivas operações de organização, conservação e apresentação.
É tentador resumir a viagem como uma corrida para salvar músicas que desapareceriam. A fórmula tem um problema. Pode dar por encerradas tradições que continuaram sendo praticadas e transformadas, às vezes longe dos circuitos que lhes concedem reconhecimento. O registro de 1938 preserva uma execução daquele momento. Não substitui tudo o que uma comunidade cantou antes nem o que viria a cantar depois.
A expedição deixou a possibilidade de ouvir vozes que o tempo tornou distantes. Também deixou nomes, lacunas e perguntas para quem consulta seus documentos. A escuta fica mais interessante quando o pesquisador não se contenta com a antiguidade da gravação. Atrás do ruído do suporte houve uma pessoa diante do equipamento. É a ela que o arquivo precisa continuar permitindo chegar.

