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Bula AchadosUm concerto entre gerações

Quando a execução começou, em 5 de setembro de 2001, ainda seria preciso esperar até fevereiro de 2003 para ouvir os primeiros sons dos tubos. A abertura era uma pausa. Em Halberstadt, na Alemanha, essa espera fazia parte de uma interpretação de “ORGAN²/ASLSP”, de John Cage, planejada para durar 639 anos. O término está previsto para 4 de setembro de 2640. O público da estreia, naturalmente, não poderá conferir o encerramento.

O título abreviado vem de “As Slow as Possible”, tão lentamente quanto possível. Cage escreveu uma versão para piano em 1985 e a adaptação para órgão em 1987. Morreu em 1992. A escala de séculos adotada em Halberstadt foi uma decisão posterior de seus intérpretes e organizadores, não uma duração que ele tenha fixado na partitura. Essa diferença separa uma obra aberta à interpretação de uma lenda sobre instruções absurdamente precisas.

Os 639 anos têm uma relação com a história musical da cidade. Um órgão histórico de Halberstadt foi concluído em 1361. Tomando o ano 2000 como referência, os organizadores encontraram nesse intervalo uma duração para projetar adiante. Um passado local ajudou a dimensionar o futuro da execução. A conta é simples; o compromisso assumido a partir dela, nem tanto.

A igreja de Burchardi abriga o instrumento e permite que o som seja experimentado no espaço. As notas não se sucedem no ritmo a que o frequentador de concertos está acostumado. Um conjunto de sons pode permanecer por meses ou anos. Mudar de posição na igreja altera a maneira como se percebe a ressonância, mesmo quando o instrumento continua sustentando o mesmo acorde.

A duração, porém, depende de uma estrutura material. Um sistema elétrico fornece ar, e as mudanças exigem intervenções no órgão. Os tubos necessários podem ser acrescentados ou retirados. Não há um organista condenado a manter os dedos nas teclas durante séculos. Há um instrumento preparado para sustentar sons e pessoas responsáveis por fazê-lo continuar funcionando.

As datas desta execução

2001 · início com uma pausa
2003 · primeiros sons dos tubos
2640 · encerramento previsto
Cage determinou os 639 anos?

Não. A duração foi escolhida pelos organizadores da execução em Halberstadt, em diálogo com a história local do órgão.

Essa engenharia atravessou soluções provisórias e restrições financeiras. Numa exposição apresentada em 2021, o responsável pelo projeto Rainer O. Neugebauer reconstituiu propostas de instrumentos que não chegaram a ser realizadas e adaptações da montagem. O relato é útil porque devolve ao empreendimento a condição de trabalho em andamento. O futuro de 2640 se apoia em decisões muito mais próximas, que envolvem construtores, custos e manutenção.

A página oficial não esconde as perguntas. O que acontece se o sistema de ar falhar? Quem são os intérpretes quando o instrumento continua soando numa igreja sem ouvintes? Até que ponto uma pausa pode ser alongada? A apresentação dessas dúvidas faz parte da maneira como os organizadores explicam a experiência. A proposta não oferece uma solução universal para a expressão “tão lentamente quanto possível”.

Uma fundação privada sustenta o projeto, com participação de voluntários e doações. A data final funciona como horizonte, não como garantia. É preciso que outras pessoas assumam tarefas que os responsáveis de hoje não poderão cumprir. Esse talvez seja o aspecto menos extravagante e mais exigente do concerto. O trabalho cultural depende com frequência de continuidade institucional; aqui, a dependência ficou audível.

O visitante pode ouvir alguns minutos e ir embora. Terá acompanhado um trecho real da execução, embora talvez nenhuma mudança de nota. Não existe a obrigação de esperar por um acontecimento mais parecido com o que costuma chamar de música. O som que permanece, a acústica da igreja e a passagem do tempo já constituem a situação proposta.

Também não é preciso decretar que essa experiência seja superior a um concerto de duração convencional. Sua singularidade aparece justamente na diferença de escala. Uma apresentação de duas horas permite ao ouvinte comparar o começo com o fim. Em Halberstadt, a obra atravessa a vida de cada pessoa sem caber nela. Quem cuida do instrumento sabe que, se o plano der certo, outro fará o mesmo trabalho depois.

O ano de 2640 costuma ocupar a manchete. Dentro da igreja, no entanto, a tarefa é presente. Manter o equipamento, receber visitantes, conservar o espaço e preparar a próxima intervenção. A distância até a última nota não dispensa nenhuma dessas providências. Só torna particularmente evidente que a execução precisa continuar amanhã.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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