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Bula AchadosUma voz no disco das Voyager

Na relação de músicas enviada ao espaço pelas sondas Voyager, Blind Willie Johnson aparece perto do fim. Sua gravação de “Dark Was the Night” ocupa três minutos e quinze segundos, segundo a lista da NASA. Depois dela, vem Beethoven. Essa vizinhança foi decidida em 1977, quando uma equipe precisou escolher o que caberia num disco destinado a apresentar a Terra a um ouvinte que talvez nunca aparecesse.

Johnson havia gravado “Dark Was the Night, Cold Was the Ground” em 1927. A interpretação combina violão slide e vocalizações sem palavras. Não há uma letra a traduzir, embora o título e a origem da música se relacionem a uma tradição religiosa. No ensaio dedicado ao registro pela Biblioteca do Congresso, Cary O’Dell explica sua ligação com um hino inglês do século XVIII e com práticas de canto transmitidas entre congregações.

O instrumento e a voz dividem a gravação sem precisar preencher todos os espaços. A ausência de palavras não equivale à ausência de canto. Murmúrios e inflexões vocais têm presença própria, ao lado das notas que deslizam no violão. Essa característica ajuda a entender por que a faixa comporta tantas leituras, mas seria apressado concluir que qualquer ser, em qualquer lugar, reconheceria nela exatamente o mesmo sentimento.

A escolha para as Voyager foi humana, feita dentro de uma história cultural bastante específica. Carl Sagan presidiu o comitê responsável pelo conteúdo do disco. O folclorista Alan Lomax foi chamado a colaborar na seleção musical. Uma publicação do American Folklife Center, da Biblioteca do Congresso, registra sua participação na inclusão de quinze das 27 performances que acabaram viajando com as sondas.

A mesma documentação mostra que a diversidade do programa não estava resolvida desde o início. Lomax defendeu a presença de tradições que ampliavam uma seleção inicialmente concentrada na música clássica ocidental. O disco final aproxima repertórios que raramente dividiam uma programação de concerto ou uma prateleira comercial. A proposta exigia escolher, e toda escolha deixava uma quantidade incomparavelmente maior de música do lado de fora.

Na lista oficial estão, entre outros, Bach, Mozart, Chuck Berry, gamelão de Java, música japonesa para shakuhachi e uma gravação de casamento do Peru. Johnson entrou nesse conjunto como autor e intérprete de uma faixa concreta. Seu nome e sua execução permaneceram identificados. O disco não oferece uma voz humana abstrata. Carrega vozes de pessoas e grupos, com procedências, instrumentos e histórias particulares.

Uma gravação, dois contextos

1927 · gravação de Blind Willie Johnson
1977 · envio nos discos das duas Voyager
3min15s · duração indicada pela NASA para a faixa
A música está sendo transmitida pelo disco?

Não. O disco é um suporte físico levado pelas sondas. Sua reprodução dependeria de alguém encontrar o objeto e conseguir lê-lo.

As duas Voyager, lançadas em 1977, receberam um disco. A NASA descreve o suporte como um objeto de doze polegadas revestido de ouro, preparado para levar sons e imagens. O programa incluía música, saudações e registros do ambiente terrestre. A escolha de um meio físico impunha um limite e uma aposta. Era necessário guardar a informação num objeto e fornecer indicações para uma possível reprodução futura.

Isso não significa que a gravação esteja tocando pelo espaço. O disco acompanha a nave como portador de informação. Para ouvi-lo, um eventual destinatário teria de encontrar o objeto e conseguir reproduzi-lo. A imagem de Johnson cantando continuamente entre as estrelas é bonita, mas descreve uma metáfora. A operação real foi colocar uma gravação num suporte e enviá-lo numa missão espacial.

Há ainda uma diferença entre a importância histórica da escolha e a vida de quem foi escolhido. Johnson morreu em 1945, muito antes do lançamento. A inclusão no programa não foi uma homenagem que ele pôde acompanhar. Foi uma decisão posterior sobre o lugar daquela música numa representação da humanidade, tomada por pessoas que voltaram a ouvi-la décadas depois de sua gravação.

O episódio também permite regressar ao disco de 1927 sem a obrigação de pensar imediatamente no universo. A performance já existia antes de receber um destino espacial. Sua força não depende de quilômetros percorridos, e a NASA não a tornou musicalmente importante por incluí-la numa lista. A viagem acrescentou outra história a um registro que continuava a ser o trabalho de um cantor e violonista.

Para escutá-lo hoje, ninguém precisa esperar a descoberta das Voyager. A gravação continua acessível aos ouvintes na Terra. Esse é o pequeno desvio que a aventura espacial oferece ao ouvinte terrestre. Depois de imaginar uma recepção remotíssima, talvez ele volte aos poucos minutos que motivaram a escolha. Uma voz sem palavras, um violão e espaço suficiente entre os dois.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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