Uma corda pinçada, ruído branco e os sons de um oscilador. O inventário parece pequeno para a tarefa de anunciar viagens pelo tempo, mas foi com materiais desse tipo que Delia Derbyshire construiu a gravação original do tema de “Doctor Who”, em 1963. Antes de chegar ao aparelho de televisão, cada nota precisava existir como som gravado e como um pedaço de fita que pudesse ser cortado, organizado e combinado com outros.
A melodia era do compositor australiano Ron Grainer. Derbyshire, trabalhando no BBC Radiophonic Workshop, deu a ela sua realização eletrônica. A distinção importa porque os dois trabalhos são inseparáveis no resultado, mas não são idênticos. A partitura oferecia uma composição. Era preciso decidir como aquela composição soaria, e os timbres que a tornaram reconhecível não estavam prontos num teclado, à espera de alguém que apertasse a tecla certa.
O National Film and Sound Archive da Austrália descreve a construção nota por nota, com técnicas de música concreta e manipulação de gravações analógicas. Cortar e emendar eram operações musicais. Alterar um trecho de fita mudava o que o ouvinte receberia; escolher a fonte sonora determinava parte do caráter da frase. Naquele trabalho, o estúdio participava da criação de um modo que a imagem convencional de uma orquestra não ajuda muito a visualizar.
É fácil reduzir o episódio a uma curiosidade sobre a ausência dos computadores que usamos hoje. A diferença é mais interessante. Um som eletrônico podia depender de ações físicas bastante precisas, repetidas até se obter a duração e o encaixe desejados. A distância entre ouvir uma ideia e conseguir reproduzi-la passava pela bancada. Havia imaginação, certamente, mas também material que precisava ser medido, guardado e recuperado.
Da fonte sonora à abertura
Quem compôs e quem realizou a gravação?
Ron Grainer compôs o tema. Delia Derbyshire realizou sua versão eletrônica original no BBC Radiophonic Workshop.
O pulso grave e a linha melódica do tema produziram uma identidade sonora que atravessou anos de televisão. A versão de Derbyshire permaneceu na série, com modificações, até 1980. O arquivo australiano observa que as versões posteriores ganharam complexidade, enquanto a economia da primeira gravação continuou sendo parte de sua força. O que parecia vir de um futuro tecnológico dependia de uma oficina muito concreta.
Derbyshire havia estudado em Cambridge, com formação ligada à matemática e à música. A Universidade de Manchester, responsável por parte de seu arquivo, aponta a relação entre esses interesses e sua atividade como compositora. Isso não significa que uma equação explique o tema de uma série. Ajuda, porém, a compreender uma artista para quem proporção, organização e invenção sonora podiam fazer parte do mesmo problema.
Fora do programa de televisão, ela produziu música para teatro, cinema, festivais e experiências de rádio. O acervo de Manchester reúne 267 fitas, além de documentos de trabalho, correspondência e partituras. Há materiais em diferentes estágios de elaboração, não apenas peças terminadas. Consultar esse conjunto permite ver o que costuma desaparecer quando uma carreira passa a ser resumida pelo trabalho que ficou mais famoso.
É preciso, inclusive, procurar os documentos no lugar certo. As fitas originais de montagem do tema de “Doctor Who” estão no arquivo da BBC em Perivale, segundo a descrição de Manchester. O conjunto da universidade se relaciona principalmente ao trabalho independente de Derbyshire, embora inclua produções da emissora. Nem tudo que está numa caixa de um compositor foi composto por ele, e o próprio catálogo registra gravações de outros autores.
A biblioteca John Rylands informa que cópias digitais do acervo sonoro passaram a poder ser ouvidas em sua sala de leitura no fim de 2015. A preservação acrescenta outra etapa a esse processo de trabalho. O que nasceu em fita precisa de cuidados para continuar acessível, e a digitalização permite examinar os materiais sem submeter continuamente os originais ao desgaste da reprodução.
Talvez a melhor maneira de voltar ao tema seja escutá-lo lembrando a corda, o oscilador e as emendas. A associação não diminui o estranhamento. Torna mais perceptível o tamanho do trabalho realizado com tão poucos ingredientes. Durante alguns segundos de abertura, a televisão oferecia um mundo desconhecido. Na origem daquele mundo, havia uma mulher organizando som à mão.

