Discover

Nos Estados Unidos dos anos 1970, o professor William Hundert (Kevin Kline) tenta despertar o interesse de um aluno rebelde pela História Antiga em um colégio masculino de elite. Sua dedicação ao ensino ganha um desafio particular com a chegada de Sedgewick Bell (Emile Hirsch), filho de um senador influente e pouco disposto a respeitar as regras da instituição. Em “O Clube do Imperador”, de 2002, o diretor Michael Hoffman acompanha essa relação sem poupar o educador de uma pergunta incômoda. Até onde sua vontade de ajudar o garoto pode comprometer o tratamento dado aos demais estudantes?

Hundert gosta da rotina, conhece a matéria e acredita no valor daquilo que ensina. Para ele, estudar gregos e romanos também significa discutir as responsabilidades de quem um dia poderá ocupar cargos importantes. Seus alunos pertencem a famílias ricas, com acesso a oportunidades que a maioria dos adolescentes jamais terá. O professor espera que deixem a escola levando alguma coisa além de boas notas e contatos úteis.

Sedgewick chega com outra disposição. Faz piadas, interrompe as aulas e questiona a importância daqueles personagens antigos para sua vida. Sabe conquistar os colegas e percebe que uma provocação bem colocada pode render mais atenção do que uma resposta correta. Hundert, acostumado a ser ouvido, precisa disputar o interesse da turma com um adolescente que tem talento para transformar repreensão em diversão.

Um professor perde a tranquilidade

Emile Hirsch dá ao rapaz uma combinação convincente de arrogância, esperteza e necessidade de aprovação. Sedgewick pode ser desagradável, mas sua presença tem energia suficiente para abalar a disciplina da sala. É fácil reconhecer nele aquele colega que fazia a turma rir enquanto o restante dos alunos tentava disfarçar para não receber bronca também.

Kevin Kline trabalha numa frequência mais contida. A postura ereta, a fala cuidadosa e o esforço para preservar a compostura pertencem a um homem que leva sua profissão muito a sério. O ator deixa aparecer, por baixo desse rigor, a satisfação de ser respeitado. Quando Sedgewick debocha da matéria, atinge tanto o conteúdo da aula quanto o orgulho de quem passou a vida ensinando aquilo.

Essa vaidade torna Hundert mais interessante. Ele é dedicado e se importa com os estudantes, mas também deseja que reconheçam seu valor. Conquistar o aluno mais resistente passa a representar uma realização pessoal. Aos poucos, a atenção destinada ao garoto ganha um peso que ultrapassa a necessidade de resolver um problema de comportamento.

O senador estabelece as regras

Na tentativa de obter ajuda, Hundert procura o senador Bell (Harris Yulin). Espera conversar com um pai preocupado com a educação do filho, mas recebe uma advertência sobre o alcance de sua função. O político quer que o professor ensine a matéria e deixe a formação do menino sob responsabilidade da família.

A conversa ajuda a compreender o ambiente em que Sedgewick cresceu. O pai trata a autoridade com familiaridade e dispensa qualquer interferência que considere inconveniente. Para Hundert, acostumado a defender princípios diante de adolescentes, lidar com um adulto poderoso é uma experiência bem menos confortável. Sua posição na escola não lhe garante influência dentro daquela família.

Hoffman acerta ao colocar essa diferença de poder dentro de uma conversa, sem precisar interromper a história para explicá-la. O educador pode exigir leitura e corrigir provas, mas não determina quais exemplos o estudante recebe em casa. Ainda assim, insiste em se aproximar do rapaz. Quando Sedgewick demonstra algum interesse pelos estudos, Hundert acolhe a mudança com entusiasmo.

É uma reação afetuosa e compreensível. Também pede cuidado. O desejo de ver alguém melhorar pode tornar uma pessoa generosa demais na avaliação dos sinais dessa melhora.

Uma vaga no concurso

O concurso Senhor Júlio César dá à relação um objetivo definido. A competição premia o conhecimento sobre a Roma Antiga e oferece prestígio aos participantes. Para o mestre, a preparação representa uma oportunidade de estimular o compromisso de Sedgewick com a matéria. Para os estudantes, há vagas a conquistar e colegas a superar.

Entre os candidatos está Martin Blythe (Paul Dano), um aluno aplicado e muito mais reservado. Sua presença merece atenção porque lembra que o trabalho de Hundert envolve uma turma inteira. Enquanto o adolescente rebelde recebe incentivo por começar a estudar, outros já cumprem suas obrigações sem despertar o mesmo entusiasmo.

Dano dá a Martin uma discrição que combina com o desconforto dessa situação. Ele não precisa interromper a aula para merecer consideração. Seu esforço existe antes de qualquer gesto especial do professor. Ao colocar os dois jovens na mesma disputa, Hoffman aproxima a boa intenção do risco de favorecimento.

A diferença entre incentivar e privilegiar passa a depender de escolhas pequenas, feitas longe dos grandes discursos. Hundert terá de avaliar trabalhos e distribuir oportunidades. Seu afeto por um aluno não elimina a responsabilidade com os demais.

Kevin Kline sustenta as dúvidas

“O Clube do Imperador” tem passagens solenes em excesso. Hoffman por vezes insiste na importância do ambiente escolar e na reverência ao educador quando a atuação de Kline já oferece tudo de que a cena precisa. O ritmo também perde um pouco de vigor quando as falas parecem preparadas para deixar uma lição.

O protagonista, porém, sustenta o interesse. Kline permite gostar de Hundert sem exigir concordância com todas as suas atitudes. Há algo dolorosamente humano naquele profissional experiente que continua sujeito à vontade de ser admirado e à esperança de fazer diferença na vida de alguém.

A relação com Sedgewick cresce nesse terreno desconfortável. O jovem deseja reconhecimento, mas resiste às exigências que o acompanham. O professor quer ajudá-lo, embora nem sempre perceba quanto de sua própria satisfação está envolvido nesse esforço. Entre os dois, permanecem os colegas, as provas e as vagas de uma competição que precisa ser justa.

Hundert conhece os exemplos da Antiguidade e sabe explicá-los com segurança. Quando precisa corrigir os trabalhos de seus próprios alunos, já não dispõe da distância confortável de quem comenta as escolhas dos outros.


Filme: O Clube do Imperador
Diretor: Michael Hoffman
Ano: 2002
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também