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Bula AchadosA geografia antes da viagem

Ursula K. Le Guin desenhou um arquipélago e deu nome às ilhas antes de saber quem morava nelas. O mapa estava pronto para receber viagens, habitantes e problemas que ainda não tinham sido escritos. Esse foi um dos primeiros passos de “A Wizard of Earthsea”, publicado em 1968, o romance que abriu a série de Terramar. A folha oferecia à autora uma geografia. O restante teria de aparecer durante o trabalho.

Há uma pequena diferença entre essa história e a versão mais apressada da curiosidade. Terramar já tinha começado a existir em contos. Em entrevista a John Plotz, publicada pela Public Books, Le Guin contou que escrevera duas histórias ambientadas em ilhas com feiticeiros quando recebeu de um editor o convite para uma fantasia destinada a leitores mais jovens. Sua primeira reação foi duvidar da própria capacidade de escrever para crianças.

A pergunta que a fez avançar era bastante prática. Como alguém se torna feiticeiro? A possibilidade de uma escola lhe pareceu interessante. Para localizar esse aprendizado, voltou às ilhas das histórias anteriores, sentou-se e desenhou um mapa maior. Vieram os nomes. Os costumes dos habitantes e os acontecimentos de cada lugar podiam esperar. A escritora já dispunha de endereços para coisas que desconhecia.

No guia de leitura produzido pelo National Endowment for the Arts, Le Guin relembra a satisfação de nomear aquelas terras. Naquele estágio, ignorava o que acontecia nelas e quem as habitava. O depoimento tem a graça de uma autora admitindo o quanto ainda não sabia sobre o universo pelo qual se tornaria conhecida. Para começar, bastava haver ilhas separadas pelo mar e a possibilidade de passar de uma a outra.

Como Terramar ganhou forma

Contos; Mapa; Romance de 1968
ContosIlhas e feiticeiros já existiam nas histórias anteriores.
MapaLe Guin desenhou e nomeou o arquipélago antes do primeiro romance.
Romance de 1968As viagens de Ged deram vida aos lugares do desenho.

O livro acompanha Ged desde a juventude, em Gont, até o aprendizado da magia e as consequências de seu desejo de demonstrar poder. Roke, onde funciona a escola, ocupa um lugar nessa geografia. Os deslocamentos dão ao crescimento do personagem uma forma concreta. Ele precisa sair, atravessar distâncias, chegar a comunidades cujas vidas não se reduzem à sua. O oceano impede que os lugares se tornem apenas portas consecutivas de um corredor.

Le Guin voltou ao assunto numa carta aberta de 2005 sobre a credibilidade da fantasia. Explicou que desenhara Terramar logo no começo, mas só aprendera algo sobre cada ilha quando a narrativa a levara até lá. Também podia mencionar feitos de Ged que ainda não conhecia. Uma referência lançada no texto ficava à espera da ocasião em que seria necessário desenvolvê-la. O leitor recebia a impressão de um passado maior do que a história contada.

Essa liberdade tinha exigências. Na mesma carta, a escritora insistia na coerência das regras de um mundo inventado e na precisão dos detalhes. Até um cavalo de fantasia precisa de água e comida depois de um dia de viagem. Para ela, a imaginação perdia credibilidade quando o autor alterava as condições do mundo conforme a conveniência da cena. A descoberta podia ser gradual; as consequências do que já fora estabelecido continuavam valendo.

O site oficial da autora conserva outra informação útil para quem encontra reproduções de Terramar. Anos depois da publicação, Le Guin refez o desenho original a partir do mapa impresso nas primeiras edições. Produziu uma versão em linhas de tinta preta e outra com tinta e lápis de cor. Assim, a imagem encontrada hoje pode registrar um retorno da escritora à própria cartografia, e não a folha exata usada na preparação do romance.

Desenhar antes de escrever não significou encerrar antecipadamente o trabalho de invenção. Le Guin podia consultar um nome, escolher uma direção e ainda ignorar o que encontraria. O mapa ajudava a manter as distâncias e, ao mesmo tempo, deixava lugares disponíveis. Na próxima viagem, alguma daquelas ilhas teria de ganhar uma história.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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