No dia 1º de novembro de 1866, Fiódor Dostoiévski tinha um romance pronto e um problema aparentemente simples. Precisava entregá-lo ao editor. O editor não estava. A ausência, num dia normal, seria um contratempo burocrático. Naquele dia, poderia custar ao escritor nove anos de direitos sobre os livros que ainda escreveria. Dostoiévski acabou levando o manuscrito a uma delegacia de São Petersburgo. Precisava menos de um leitor do que de um recibo.
O livro se chamava “O Jogador”. Tinha sido ditado em 26 dias, entre 4 e 29 de outubro, a Anna Grigórievna Snítkina, uma estenógrafa de vinte anos recém-contratada. O autor já era célebre, havia conhecido a prisão, o exílio e o jogo, e naquele mesmo ano publicava “Crime e Castigo” em capítulos. Anna conhecia seus romances. O que nenhum dos dois podia prever, quando ela chegou para o primeiro dia de trabalho, era a importância que um contrato editorial acabaria tendo na vida dos dois.
O negócio havia sido firmado com Fiódor Stellóvski, editor disposto a explorar a falta de dinheiro de um romancista que carregava dívidas próprias e obrigações deixadas pela morte do irmão. Dostoiévski recebera uma quantia em troca dos direitos de edição de obras já escritas. A cláusula mais perigosa exigia um romance novo até 1º de novembro de 1866. Se o prazo fosse descumprido, Stellóvski poderia publicar sem remunerá-lo tudo o que viesse a escrever durante nove anos. Para um escritor que vivia do próprio trabalho, a perspectiva tinha a delicadeza de uma sentença.
O mais estranho é que Dostoiévski sabia muito bem o que assinara. Ainda assim, passou meses trabalhando em “Crime e Castigo”, enquanto a obrigação se aproximava. No começo de outubro, o livro prometido praticamente não existia. Um amigo sugeriu o recurso à estenografia, técnica ainda pouco difundida naquele meio literário. Um professor recomendou sua aluna Anna. Ela chegou ao apartamento do escritor no dia 4. Não encontrou o ambiente ordenado que provavelmente facilitaria a vida de uma secretária. Encontrou um homem com pressa, contas atrasadas e uma história ainda por escrever.
A divisão do trabalho tinha algo de oficina, mas uma oficina sem espaço para erros. Dostoiévski organizava cenas e ditava durante algumas horas; Anna registrava em sinais abreviados, voltava para casa e preparava a cópia que serviria de base à revisão. No dia seguinte, começavam outra vez. O método parecia sobretudo um modo de economizar tempo. Acabou mudando também o ritmo da invenção. Em lugar do escritor sozinho diante da página, havia agora duas pessoas sustentando, com disciplina bastante concreta, o avanço da narrativa.
A etapa de ditado terminou em 29 de outubro. A cópia e a revisão continuaram até a entrega oficial, dentro do prazo contratual.
“O Jogador” não saiu dessa urgência como simples encomenda mal disfarçada. Alexei Ivánovitch, preceptor de uma família russa endividada numa cidade de águas alemã, acompanha uma roda de personagens que esperam uma herança, calculam vantagens amorosas e deixam a roleta mandar no que fariam no dia seguinte. Dostoiévski conhecia o fascínio do cassino por experiência própria. Aqui está uma das ironias mais saborosas da história. O escritor endividado por apostas escreveu, sob risco de perder seu futuro econômico, uma ficção sobre gente que confia justamente na possibilidade de uma vitória salvadora.
A velocidade impressiona, mas talvez menos que o modo como a história não perde seu centro moral. Os personagens de Dostoiévski apostam dinheiro, claro, porém a roleta organiza algo mais embaraçoso. Permite sonhar com uma saída súbita da humilhação, da dependência, da necessidade de conquistar o favor de alguém. O dinheiro seria apenas o instrumento. O prêmio verdadeiro é a fantasia de não ter mais de pedir nada a ninguém. Também era isso, fora da ficção, que o escritor tentava garantir ao cumprir a exigência de Stellóvski.
A ditadura do prazo terminou em 29 de outubro, quando o ditado foi concluído. Anna preparou a cópia; houve ainda correções. Então surgiu o episódio da entrega. Segundo os relatos preservados sobre o caso, Stellóvski estava ausente e não foi possível obter da editora um comprovante de recebimento. A saída foi depositar o manuscrito perante uma autoridade policial, com registro datado. Um romance que nascera do risco de um contrato foi salvo por outra peça de papel, bem mais prosaica, mas desta vez favorável ao autor.
Anna permaneceu na história depois de cumprir a função para a qual fora contratada. Poucos dias mais tarde, Dostoiévski a pediu em casamento. Casaram-se em fevereiro de 1867. Ela não foi apenas a jovem que anotou frases de um gênio. Administraria negócios, enfrentaria credores, organizaria edições e ajudaria a proteger a continuidade material da obra. A participação dela costuma aparecer em biografias como um episódio sentimental. O romance feito a quatro mãos, cada qual com sua tarefa, oferece uma leitura mais interessante e menos condescendente.
Há uma tentação evidente de transformar os 26 dias numa fábula sobre inspiração e genialidade. Seria injusto com ambos. O caso é mais concreto, e por isso mesmo mais surpreendente. Um romancista teve de modificar seu processo de trabalho; uma mulher dominava uma técnica que ele precisava aprender a usar; e uma delegacia serviu de última trincheira contra um mau contrato. Daquela combinação de literatura, taquigrafia e burocracia saiu um livro que ainda se lê. Também saiu uma sociedade de vida e trabalho que duraria até a morte do escritor.

