Uma caixa de papelão no quarto de Hilda Hilst guardava fitas magnéticas, rolos e cassetes. Quando a cineasta Gabriela Greeb visitou a Casa do Sol, em Campinas, aquele material chamou sua atenção. Havia ali uma escritora falando, fazendo perguntas, esperando respostas. Parte das gravações vinha de uma experiência que Hilda levou a sério durante anos. Ela ligava o gravador e procurava, nos sinais do rádio, vozes de pessoas que já tinham morrido.
As tentativas documentadas entre 1974 e 1979 ganharam outro destino muito depois, no filme e no livro “Hilda Hilst pede contato”, de Greeb. O intervalo importa. A história pertence aos anos em que a escritora fazia suas experiências, e também ao trabalho posterior de quem voltou a escutar as fitas. Entre uma coisa e outra, Hilda morreu, em 2004. Sua voz permaneceu disponível para uma conversa de natureza bastante diferente.
Na Casa do Sol, onde viveu de 1966 até a morte, escrever e receber amigos faziam parte de uma existência que não cabe inteiramente na figura da autora recolhida. A casa abrigava convivência, trabalho e as perguntas que Hilda levava para seus livros. O gravador acrescentou um objeto concreto a essa inquietação. Era preciso acionar o aparelho, registrar o som, voltar a ouvi-lo. A expectativa de uma resposta tinha de atravessar uma fita.
O procedimento envolvia o chiado entre estações de rádio. Hilda seguia experiências divulgadas por Friedrich Jürgenson, autor de “Telefone para o além”, e procurava reconhecer vozes no material registrado. A expressão transcomunicação instrumental designa essa tentativa de estabelecer contato por meio de aparelhos. Chamar assim o procedimento descreve a intenção de quem o praticava. Não demonstra a origem sobrenatural dos sons.
A própria escritora fez essa distinção. Numa entrevista à revista Planeta, em 1977, reproduzida pela Casa da Poesia, contou a reação hostil de pessoas a quem apresentara as fitas. Ao recordar o episódio, explicou que não sabia se as vozes eram realmente de mortos e tratava essa possibilidade como hipótese. Considerava que os registros mereciam atenção mesmo sem uma resposta definitiva sobre sua origem. A ressalva costuma desaparecer quando a história vira apenas uma anedota sobre excentricidade.
O acervo entregue a Greeb por José Luis Mora Fuentes, amigo e herdeiro da autora, reunia cerca de cem horas de áudio. Esse número exige um cuidado simples. Não eram cem horas compostas exclusivamente por supostas mensagens do além. Em entrevista ao site Mulher no Cinema, a diretora apresentou um conjunto em que também havia leituras de poemas e comentários de Hilda sobre a própria obra. As experiências conviviam com outras formas de usar e guardar a voz.
Para uma cineasta, a caixa oferecia mais do que um assunto curioso. Havia material para construir uma narrativa conduzida pela própria escritora. Greeb contou que pensou em inverter a situação das gravações, fazendo a voz de Hilda chegar aos vivos. O projeto reuniu documentação e ficção, com a atriz Luciana Domschke interpretando a autora. Convém manter essa diferença ao assistir. A presença de uma voz original não transforma toda imagem do filme em registro da vida de Hilda.
Em 2018, “Hilda Hilst pede contato” chegou ao cinema e ao livro. A publicação incluiu entrevistas, notas do processo de criação, storyboard e transcrições. Aquilo que poderia permanecer como uma curiosidade biográfica passou a oferecer matéria para ouvir e examinar. O trabalho de Greeb também permite deslocar a atenção da resposta que se desejava obter para a pessoa que formulava as perguntas.
Nas fitas, a voz identificável é a de Hilda. É possível acompanhá-la sem decidir que houve comunicação com os mortos, e sem reduzir sua busca a uma piada. O interesse documental começa justamente nessa possibilidade. A escritora que procurava alguém do outro lado deixou registrado o seu próprio lado da conversa. Anos depois, uma caixa aberta no quarto devolveu esse som a outros ouvintes.

