John Cain (Josh Duhamel) acorda em um hospital no México sem saber quem é, como foi parar ali ou por que homens armados estão atrás dele. Depois de sobreviver a uma perseguição de carro, perdeu a memória e agora precisa escapar de criminosos que exigem informações das quais não se lembra. Essa é a situação que movimenta “Blackout”, suspense de ação lançado em 2022 e dirigido por Sam Macaroni. Para o paciente, recuperar o passado seria ótimo. Conseguir sair vivo do hospital já parece uma meta suficientemente ambiciosa.
A primeira pessoa a oferecer algum amparo é Anna (Abbie Cornish), que se apresenta como sua esposa. Ela conhece detalhes de sua vida, cuida dos ferimentos e tenta ajudá-lo a lembrar. O problema é que Cain não reconhece aquela mulher. Precisa decidir se aceita sua companhia enquanto ainda tenta descobrir por que alguém gostaria de matá-lo. Nesse estado, até uma demonstração de carinho merece certa cautela.
Uma esposa que ele não reconhece
Anna ocupa um lugar delicado na história porque representa a possibilidade de proteção sem oferecer ao protagonista a segurança de uma lembrança compartilhada. Para ela, existe uma relação anterior ao acidente. Para ele, há uma desconhecida afirmando que os dois têm uma vida juntos. Abbie Cornish trabalha bem nessa diferença e mantém a personagem próxima o bastante para ajudar, mas reservada o suficiente para despertar suspeitas.
A desconfiança cresce porque Anna sabe cuidar de ferimentos e enfrentar situações perigosas com uma desenvoltura pouco comum. Cain percebe que ela guarda informações, embora não tenha condições de exigir todas as explicações antes de aceitar ajuda. Essa dependência dá algum interesse à relação. Ele pode desconfiar à vontade, mas continua machucado, cercado e sem uma alternativa particularmente convidativa.
Duhamel sustenta melhor essa vulnerabilidade quando precisa agir. Seu personagem esqueceu pessoas e acontecimentos, mas preservou uma habilidade considerável para lutar. A amnésia foi bastante seletiva, convenhamos. É uma facilidade conhecida dos filmes de ação, e “Blackout” aposta nela sem muita cerimônia. O ator compensa parte dessa conveniência com esforço físico e uma expressão de desorientação que permanece mesmo quando Cain consegue se defender.
Um velho conhecido exige uma maleta
A chegada de Eddie (Omar Chaparro) acrescenta um problema à internação. O chefe criminoso conhece Cain e fala com a intimidade de quem compartilhou negócios e experiências com ele. Também quer recuperar uma maleta desaparecida. Eddie acredita que o paciente sabe onde ela está, e a perda de memória não torna essa cobrança menos perigosa.
Chaparro alterna cordialidade e ameaça com desenvoltura. Seu personagem pode tratar Cain com afeto e, pouco depois, permitir que seus homens o ataquem. Essa proximidade é perturbadora porque o protagonista não sabe o que fez para merecer tamanha familiaridade. Se um traficante o considera alguém da família, talvez seu passado seja menos respeitável do que gostaria de imaginar.
A maleta dá um objetivo concreto à perseguição. Os criminosos querem encontrá-la, Cain precisa descobrir o que sabe sobre ela, e ninguém parece disposto a aguardar sua recuperação. A busca também torna cada conversa uma disputa por informação. O paciente tenta obter respostas, mas seus interlocutores querem arrancar dele algo que talvez esteja perdido junto com as lembranças.
Um hospital sob controle criminoso
O hospital oferece poucos lugares seguros. Homens armados circulam pelos corredores, interferem no atendimento e transformam quartos em espaços de perseguição. O Dr. Garza (José Sefami), responsável por cuidar de Cain, trabalha sob essa pressão. Ele precisa atender os pacientes em um ambiente onde os criminosos impõem suas vontades e comprometem qualquer possibilidade de proteção.
Esse confinamento é uma das escolhas mais produtivas de Sam Macaroni. Cain pode conseguir escapar de um agressor e continuar preso no mesmo prédio. Uma porta fechada ganha importância, assim como uma passagem desocupada ou a presença de alguém disposto a ajudar. O perigo permanece próximo porque o protagonista tem poucas opções de deslocamento.
A concentração das brigas nesse espaço, porém, também provoca desgaste. Cain enfrenta sucessivos ataques, mas nem todos acrescentam algo à busca pela identidade ou pela saída. Em certos trechos, a próxima agressão chega antes que a anterior tenha produzido uma descoberta relevante. Duhamel mantém o empenho, embora o roteiro dependa demais de sua resistência física para prolongar a fuga.
Ajuda pelo telefone, dúvidas nos corredores
O contato com Ethan McCoy (Nick Nolte), ligado à agência antidrogas americana, abre outra possibilidade de socorro. Ethan conhece Cain e tem informações sobre sua vida anterior ao acidente. Para o homem hospitalizado, ouvir alguém capaz de preencher essas lacunas é um alívio. Ainda assim, continua dependendo da palavra dos outros para saber quem pode ajudá-lo.
As lembranças surgem em fragmentos e acrescentam peças ao que Anna, Eddie e Ethan dizem. Macaroni mantém o público próximo da confusão do protagonista, o que favorece a curiosidade. O recurso perde força quando muitas versões se acumulam e as revelações precisam dividir espaço com outra rodada de golpes. A vontade de surpreender acaba exigindo mais explicações do que essa história enxuta comporta.
Cain é um homem ferido que precisa escolher uma companhia sem reconhecer ninguém ao redor. Josh Duhamel dá presença ao fugitivo, Abbie Cornish preserva a dúvida sobre Anna e Omar Chaparro torna Eddie uma visita que nenhum paciente gostaria de receber. Há conveniências e brigas em excesso, mas também uma situação capaz de prender a atenção. Entre aceitar uma ajuda suspeita e permanecer ao alcance dos perseguidores, Cain segue procurando uma passagem para fora do hospital.

