A essência naturalmente ilusória da arte cinematográfica é capaz de transformar quase tudo em que toca em bons enredos. Os cenários minuciosos, o elenco azeitado e a fotografia sem defeitos colaboram para que o público se identifique com tramas as mais espinhosas e herméticas, e até atribua-lhes beleza ou mal-estar o suficiente para epifanias. Paul Hyett usa o terror para apontar um perene desconforto do homem com o que não conhece, e é essa a sensação que se impõe em “Uivo”. Hyett tem o condão de aprisionar o espectador num ambiente claustrofóbico que deixa clara a sua vulnerabilidade diante do desconhecido, um dos princípios mais elementares do gênero. Malgrado o diretor não se furte a esticar a corda, qualquer um se vê reagindo como os personagens se vivesse algo tão medonho.
Medo sobre trilhos
À noite, um trem pode levar os passageiros muito mais longe do que a lógica permitiria. Passageiros e tripulação vão se convencendo de que há uma estranheza qualquer a viajar com eles no momento em que a composição de repente para numa floresta nos arredores de Londres e o maquinista desaparece. Apavorados, os viajantes tentam não entregar-se ao desespero, mas os sons grotescos que vêm da mata sugerem que fenômenos sobrenaturais alastram-se como fungos numa cesta de pães, vertendo sangue. Joe vê o que parece apenas um contratempo como a oportunidade de subir no conceito de seus superiores, desde que vença sua tibieza. Hyett transforma o argumento central do texto de Mark Huckerby e Nick Ostler numa jornada por emoções primitivas. E Ed Speleers nos leva.

