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A essência naturalmente ilusória da arte cinematográfica é capaz de transformar quase tudo em que toca em bons enredos. Os cenários minuciosos, o elenco azeitado e a fotografia sem defeitos colaboram para que o público se identifique com tramas as mais espinhosas e herméticas, e até atribua-lhes beleza ou mal-estar o suficiente para epifanias. Paul Hyett usa o terror para apontar um perene desconforto do homem com o que não conhece, e é essa a sensação que se impõe em “Uivo”. Hyett tem o condão de aprisionar o espectador num ambiente claustrofóbico que deixa clara a sua vulnerabilidade diante do desconhecido, um dos princípios mais elementares do gênero. Malgrado o diretor não se furte a esticar a corda, qualquer um se vê reagindo como os personagens se vivesse algo tão medonho.

Medo sobre trilhos

À noite, um trem pode levar os passageiros muito mais longe do que a lógica permitiria. Passageiros e tripulação vão se convencendo de que há uma estranheza qualquer a viajar com eles no momento em que a composição de repente para numa floresta nos arredores de Londres e o maquinista desaparece. Apavorados, os viajantes tentam não entregar-se ao desespero, mas os sons grotescos que vêm da mata sugerem que fenômenos sobrenaturais alastram-se como fungos numa cesta de pães, vertendo sangue. Joe vê o que parece apenas um contratempo como a oportunidade de subir no conceito de seus superiores, desde que vença sua tibieza. Hyett transforma o argumento central do texto de Mark Huckerby e Nick Ostler numa jornada por emoções primitivas. E Ed Speleers nos leva.


Filme: Uivo
Diretor: Paul Hyett
Ano: 2015
Gênero: Ação/Terror/Suspense/Fantasia
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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