No mundo ideal, amor e dinheiro ocupariam cada qual seu próprio universo, saberiam de sua respectiva importância e jamais atrever-se-iam a cruzar o caminho um do outro, justamente por dependerem de coisas distintas para existir. Na vida como ela é, porém, casos os mais românticos não se sustentam sem transações comerciais e financeiras mais ou menos delicadas, planilhas de gastos e custos, caixas com notas fiscais. Esse expediente, longe de arruinar namoros longos, noivados promissores ou casamentos firmes, contribui para aumentar as chances de tudo permanecer correndo com alguma ordem e atenuar um pouco a ação do severo tempo. Uma fortuna repentina cura algumas dores de cabeça, mas não é a panaceia que muita gente pensa, e assim toma corpo “Bilhete Premiado”. A finlandesa Lenka Hellstedt encadeia boas divagações sobre os mistérios por trás daquilo que une duas pessoas, sem abdicar do humor.
A sorte vira
Hellstedt e a corroteirista Jenny Dahlström adaptam “Kaikki Oikein” (“tudo certo”, em tradução literal; 2014), romance da também finlandesa Anna-Leena Härkönen, sublinhando as contradições entre solidez financeira e plenitude do espírito, uma equação complexa. O golpe de sorte que acerta Eevi Puttonen tinha tudo para ajudá-la a passar por cima de mágoa e memórias infelizes, mas só faz reforçar suas inseguranças, mal-estar que fica cada vez pior. A diretora concentra em sua protagonista uma reflexão acerca dos papéis que somos forçados a assumir em circunstâncias muito específicas, autoviolência que não demora a interferir na maneira como enxergamos quem nos rodeia. Essa guerra tácita entre valores e aparências ganha um tom agridoce nas cenas em que Elsa Saisio externa a agonia da personagem, e resta claro que para Eevi dinheiro na mão é vendaval. Já a dupla com Antti Luusuaniemi é ouro puro.

