Quando precisou fugir da guerra do Kosovo, em 1999, Lamija levou consigo uma possibilidade de ajuda que vinha de muito antes de seu nascimento. Seus pais, Derviš e Servet Korkut, haviam sido reconhecidos por proteger uma jovem judia durante a Segunda Guerra Mundial. O certificado dessa homenagem, apresentado à comunidade judaica em Skopje, ajudou a abrir o caminho para que ela e o marido encontrassem segurança em Israel.
No aeroporto, um homem os esperava. Era Davor Baković, filho de Mira Papo, a mulher que os Korkut tinham acolhido em Sarajevo. O reencontro entre as famílias aconteceu pelos filhos. Derviš morrera em 1969 e não poderia ter previsto a guerra que, trinta anos depois, empurraria sua própria filha para fora de casa.
O pai de Lamija trabalhava no Museu Nacional da Bósnia e Herzegovina. Bibliotecário e estudioso muçulmano, cuidava de documentos numa cidade em que a ocupação e o regime fascista croata perseguiam judeus, sérvios e outras populações. A classificação de uma pessoa podia determinar se ela continuaria viva. Ocultar uma identidade, naquele contexto, era uma tarefa muito diferente de preservar o anonimato de um visitante.
Mira chegou à proteção dos Korkut em 1942, segundo a reconstrução do historiador Hikmet Karčić, publicada pelo projeto de educação sobre o Holocausto do IranWire. Ela havia procurado refúgio entre os partisans e retornara a Sarajevo em condições precárias. Na casa do casal, recebeu roupas muçulmanas e passou a ser apresentada como uma jovem albanesa. Servet participou diretamente desse abrigo. A coragem que a história costuma atribuir ao bibliotecário foi também a de sua mulher.
Korkut ficou conhecido por outro resgate daquele período, o da Hagadá de Sarajevo. O manuscrito judaico medieval estava sob os cuidados do museu e corria o risco de cair nas mãos dos ocupantes. Ele ajudou a escondê-lo. Os relatos divergem em detalhes sobre o percurso do volume, razão suficiente para resistir à tentação de transformar cada movimento do salvamento numa cena perfeitamente reconstituída.
Há algo de especialmente concreto na proximidade dessas duas histórias. O funcionário responsável por guardar um livro também abriu a casa para uma pessoa perseguida. O manuscrito sobreviveu e pôde voltar à instituição. Mira sobreviveu e teve uma vida posterior, uma família, um filho. Essa continuidade humana só apareceria publicamente, de forma decisiva para os Korkut, muitos anos depois.
Em 1994, Mira relatou o resgate ao Yad Vashem. O memorial reconheceu Derviš e Servet como Justos entre as Nações, distinção concedida a não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus durante o Holocausto. A relação oficial dos homenageados da Bósnia registra os dois nomes naquele ano. Preservar Servet nessa relação é preservar também a dimensão doméstica do risco, que não terminava quando o bibliotecário deixava o trabalho.
O caminho de uma lembrança
O testemunho sobre o primeiro resgate tornou possível reconhecer a família quando veio outra guerra.
A história teve ainda uma demora dolorosa. Depois da guerra, Korkut foi preso pelo regime comunista iugoslavo. Mira carregou a culpa de não ter testemunhado em sua defesa, conforme a reportagem de Geraldine Brooks para a revista “The New Yorker”. A homenagem tardia não corrigiu os anos perdidos. Produziu, no entanto, um registro que a família poderia apresentar quando o sobrenome voltasse a precisar de proteção.
Lamija vivia no Kosovo quando a violência de 1999 a obrigou a sair. A memória do que seus pais haviam feito ganhou então uma consequência prática. O documento permitiu identificar aquela família, mobilizar ajuda e organizar a saída para Israel. Davor soube da chegada e foi ao encontro da filha dos protetores de sua mãe.
O episódio corre o risco de parecer uma história de recompensa automática, como se um gesto generoso produzisse garantias para o futuro. As guerras que separam as duas pontas desmentem essa facilidade. Houve pessoas que guardaram uma lembrança, uma sobrevivente que a registrou e outras que decidiram agir quando ela voltou a fazer diferença. No aeroporto, Lamija encontrou o filho de Mira.

