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Bula AchadosMúsica, trabalho e abolição

Chiquinha Gonzaga saiu para vender partituras de porta em porta. O dinheiro tinha um destino bastante mais urgente que o pagamento de uma edição musical. Serviria para comprar a alforria de José Flauta, um músico escravizado. A compositora punha em circulação aquilo que sabia fazer para tirar outro trabalhador da música da condição de propriedade de alguém.

O episódio está registrado na biografia mantida pelo portal Musica Brasilis, que também menciona sua arrecadação para a Confederação Libertadora. José aparece em outros relatos como Zé Flauta. Há uma história inteira comprimida nesse nome pelo qual o músico chegou até nós, mas não convém completá-la por conta própria. As fontes consultadas confirmam a alforria e a venda de músicas, sem oferecer uma contabilidade dessas vendas ou uma descrição segura do encontro entre os dois.

Uma partitura, naquele ambiente, era trabalho que podia ser vendido. Permitia que a composição saísse das mãos da autora, passasse a outro piano, fosse tocada numa casa ou numa reunião. Chiquinha conhecia por dentro esse circuito. Separada, sem o amparo familiar de antes, precisava ganhar a vida. O instrumento que recebera como parte de sua formação doméstica acabou servindo a uma carreira pública que sua família estava longe de desejar.

Nascida no Rio de Janeiro em 1847, ela era filha de um militar e de Rosa de Lima Maria, descendente de uma mulher escravizada, como registra o Instituto Moreira Salles. A história familiar a situava dentro das contradições do país. A educação de uma jovem destinada a um casamento respeitável convivia com uma origem que a sociedade escravista fazia questão de hierarquizar. O piano cabia nessa educação. Viver dele, frequentando músicos e trabalhando fora de casa, já era outro assunto.

Em 1877, a polca “Atraente” ajudou a estabelecer seu nome como compositora. Chiquinha tocava, ensinava e circulava nas rodas de choro. Em 1885, chegou ao teatro com “A Corte na Roça”. São marcos de uma profissional que precisava conquistar espaço num meio em que sua presença causava resistência. A campanha abolicionista entrou nessa vida de trabalho, aproveitando a circulação das músicas e a possibilidade de transformar reconhecimento público em arrecadação.

Há outro episódio de sua atuação contra a escravidão que merece ser separado do caso de José Flauta. Em pesquisa divulgada em 2022, Wandrei Braga apresentou documentos relativos a João, cozinheiro escravizado que pertencera ao patrimônio do casal formado por Chiquinha e Jacinto Ribeiro do Amaral. Em 8 de março de 1875, ela assinou uma carta de alforria para ele. O marido contestou a decisão judicialmente.

Para não confundir

Dois episódios, duas pessoas

A venda de partituras para José Flauta e a carta assinada para João pertencem a histórias diferentes.

José FlautaJoão · 1875
José FlautaMúsico cuja alforria foi comprada com a venda de músicas.
JoãoCozinheiro citado na carta assinada em 8 de março de 1875.
A distinçãoA carta de João não documenta a alforria de José Flauta.

O processo expõe uma dificuldade adicional. A vontade de Chiquinha encontrou uma ordem que limitava os atos da mulher casada e tratava uma pessoa como bem a ser disputado. A pesquisa acompanha o litígio e anúncios posteriores sobre João. Essa carta, portanto, não deve ser apresentada como a alforria de José Flauta, nem seu valor transferido para a história do músico. São pessoas e episódios diferentes.

A distinção ajuda a enxergar uma trajetória, em vez de montar uma anedota conveniente. Chiquinha participou do movimento abolicionista de maneiras diversas. A venda das partituras tinha uma vantagem prática evidente. Ela podia oferecer algo que conhecia, produzido por seu próprio trabalho, e destinar a receita a uma campanha que precisava de recursos. A música circulava com uma finalidade que não aparecia necessariamente impressa na capa.

“Ó Abre Alas” viria em 1899, depois do fim legal da escravidão. É a composição que costuma chegar primeiro quando seu nome é lembrado, quase sempre acompanhada da imagem da pioneira do carnaval. A história de José Flauta desloca um pouco o ouvido. Antes de uma multidão cantar a marcha, houve partituras vendidas uma a uma e um músico cuja liberdade entrou nessa conta.

Bula Achados

Bula Achados reúne descobertas e histórias pouco conhecidas sobre livros, escritores, bibliotecas e outras invenções da cultura. Uma editoria da Revista Bula.

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