Em 1945, Vladimir Nabokov publicou uma hipótese sobre a chegada de um grupo de borboletas azuis às Américas. Seus ancestrais teriam vindo da Ásia, pela região de Bering, em cinco movimentos distintos. O primeiro grupo avançara para o sul; outros chegariam depois. “Lolita” ainda estava dez anos adiante. O escritor olhava pelo microscópio para um passado de milhões de anos.
Em 2011, um estudo publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B comparou essa proposta com evidências genéticas. Nabokov havia acertado a origem geral, o número de chegadas consideradas e a sequência dos grupos. Entre a formulação da hipótese e o trabalho que a sustentou passaram-se 66 anos. É um intervalo longo até para quem estava acostumado a esperar a resposta de uma editora.
A surpresa depende, em parte, de uma injustiça com o pesquisador. O artigo de 2011 faz questão de apresentar Nabokov como um taxonomista sério, responsável por contribuições importantes ao estudo daqueles insetos. No início da década de 1940, ele trabalhara com a coleção do Museu de Zoologia Comparada de Harvard. A celebridade do romancista acabou tornando a outra atividade parecida com uma excentricidade de fim de semana.
O grupo em questão é o das borboletas da seção Polyommatus, conhecidas em inglês como blues. A pergunta era como seus diferentes ramos estavam aparentados e por que se distribuíam daquela maneira entre os continentes. O desenho de uma asa pode chamar a atenção de um leitor de romances. Para estabelecer parentescos, Nabokov examinava detalhes anatômicos muito menos vistosos, sobretudo a genitália dos machos.
Esse pormenor faz falta na versão do escritor que adivinhou a evolução por inspiração. Havia espécimes, comparações e uma prática minuciosa de distinguir estruturas. O salto intelectual consistia em usar essas diferenças para formular uma história de dispersão. Nabokov arriscava uma explicação que outras pessoas poderiam examinar, corrigir ou rejeitar.
A equipe internacional que voltou ao problema tinha entre seus pesquisadores Roger Vila e Naomi Pierce, de Harvard. Segundo o relato publicado pela universidade, foram oito anos de trabalho, com coleta de amostras do Canadá à Patagônia. Alguns dos insetos procurados apareciam em pequenas populações no alto dos Andes, por períodos muito curtos do ano. A resposta genética também exigiu gente caminhando atrás de borboletas.
Com as sequências de DNA, os pesquisadores reconstruíram relações de parentesco e estimaram quando as linhagens haviam se separado. A origem asiática e as cinco chegadas receberam apoio. A primeira remontava a aproximadamente 11 milhões de anos, e o encadeamento proposto por Nabokov se manteve. A correspondência era específica o bastante para impressionar sem precisar do exagero de que ele teria antecipado toda a genética moderna.
Uma hipótese, outro instrumento
O estudo genético sustentou a origem asiática e a ordem das cinco chegadas propostas por Nabokov para as borboletas azuis das Américas.
O que foi confirmado
A pesquisa trata de um grupo específico, a seção Polyommatus. O apoio à hipótese envolve parentesco, origem e ordem das dispersões por Beríngia. As datas evolutivas são estimativas do estudo moderno, não cálculos feitos por Nabokov.
Também é bom guardar a escala da história. Não se trata de uma borboleta individual que saiu da Ásia e completou uma viagem até a América do Sul. Trata-se de linhagens que se espalharam e se diversificaram ao longo de incontáveis gerações. A palavra migração, tão útil no título, pode nos fazer imaginar uma travessia única onde o estudo investiga uma história evolutiva.
O artigo acrescentou uma explicação climática ao percurso. Os grupos que chegaram mais tarde tinham ancestrais mais tolerantes ao frio. A região de Bering funcionava como uma passagem cujas condições mudavam, favorecendo organismos capazes de suportá-las. Esse resultado pertence ao trabalho dos pesquisadores de 2011; atribuí-lo inteiro a Nabokov apagaria justamente a pesquisa que tornou sua hipótese novamente interessante.
A comparação entre os dois momentos tem sua graça. De um lado, estruturas observadas ao microscópio. Do outro, sequências moleculares, modelos e estimativas de tempo. Os instrumentos mudaram, e uma explicação construída com os recursos anteriores suportou um exame que seu autor não tinha como realizar.
É possível ler “Lolita” sem saber nada disso. Mas, depois de conhecer a história, fica mais difícil tratar as borboletas apenas como um detalhe pitoresco da biografia de Nabokov. Na bibliografia científica de 2011, o trabalho de 1945 continua lá. A assinatura famosa também era a de um colega.

