O datiloscrito recusado ainda existe. Está entre os documentos preservados no Palazzo Lanza Tomasi, em Palermo, ao lado dos manuscritos de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. É um objeto menos espetacular que a poltrona de um príncipe ou os móveis resgatados de um palácio bombardeado. Para a história da literatura, porém, poucas peças daquela casa têm uma ironia tão precisa. Duas editoras deixaram passar “O Leopardo”.
Lampedusa morreu em Roma em 23 de julho de 1957, aos 60 anos, sem ver seu romance publicado. A Feltrinelli o lançou em novembro de 1958. Em 1959, o livro recebeu o Prêmio Strega. O intervalo entre esses três acontecimentos cabe numa linha; para o autor, foi grande o suficiente para que tudo o que chamamos de consagração acontecesse fora de seu alcance.
Lampedusa havia perdido o palácio da família no bombardeio de Palermo em 1943. No fim da década, comprou parte da residência da via Butera onde hoje fica a casa-museu. Ali reuniu livros, móveis e pinturas salvos dos escombros. O homem que escreveria sobre uma aristocracia em declínio conhecia também a experiência bem material de ver a casa familiar reduzida a ruínas.
As editoras que recusaram o romance foram Mondadori e Einaudi, conforme registra o arquivo do Prêmio Strega. A mesma fonte informa que Giorgio Bassani recebeu o manuscrito de Elena Croce. Bassani reconheceu ali um livro a publicar, e a Feltrinelli o colocou em circulação com seu prefácio. Entre o original devolvido e o clássico houve leitores determinados, decisões editoriais e trabalho. A posteridade precisou de gente que abrisse o envelope.
O autor era de fato um aristocrata siciliano, príncipe de Lampedusa e duque de Palma, e começou a escrever ficção tarde. Sua biografia na Feltrinelli salienta a distância em relação aos ambientes literários. Isso ajuda a situar o caso sem convertê-lo na fábula confortável de um gênio a quem todos viraram as costas. Duas recusas são duas recusas. Já bastam.
“O Leopardo” acompanha o príncipe Fabrizio de Salina durante a transformação política da Sicília no período da unificação italiana. Lampedusa buscou parte da matéria na história de sua família e, especialmente, na figura do bisavô. O livro trazia para a ficção um mundo que seu autor conhecia por dentro e cuja permanência já não podia tomar como certa.
Três anos, um autor ausente
Lampedusa morreu antes da primeira edição. A publicação pela Feltrinelli e o Prêmio Strega vieram nos dois anos seguintes.
O documento que ficou
O Palazzo Lanza Tomasi preserva o manuscrito completo e o datiloscrito recusado. O arquivo do Prêmio Strega identifica Mondadori e Einaudi como as duas editoras que rejeitaram a publicação.
Há uma coincidência incômoda entre esse assunto e o destino editorial do romance. Um escritor examina o desaparecimento de uma ordem social, põe no centro da narrativa a passagem do tempo e morre antes que o texto comece sua vida pública. A coincidência rende uma boa história, mas não explica a força do livro. Milhares de manuscritos têm percursos infelizes; poucos continuam sendo lidos depois que a infelicidade biográfica deixou de ser novidade.
O sucesso veio depressa. O registro do Strega associa o prêmio de 1959 à venda de mais de 100 mil exemplares. Em 1963, Luchino Visconti levou o romance ao cinema, com Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon. A adaptação ampliou uma circulação que já existia. O livro havia encontrado seu público antes que Lancaster aparecesse como o príncipe de Salina.
Para o leitor de hoje, as recusas parecem incompreensíveis porque vêm depois da reputação. Abrimos “O Leopardo” sabendo que estamos diante de um clássico; os primeiros leitores editoriais não dispunham dessa legenda. Reconhecer a diferença não exige absolver um julgamento ruim. Apenas devolve à descoberta literária o risco que as listas de grandes obras costumam apagar.
A casa de Palermo conserva tanto o manuscrito completo quanto o datiloscrito recusado. Guardar os dois é uma boa maneira de evitar que a história termine numa sentença genérica sobre o triunfo do talento. Um mostra o trabalho que foi feito. O outro lembra que fazê-lo não bastou para abrir a porta.
Lampedusa deixou um único romance. A carreira pública desse romance começou quando já não havia autor para receber o primeiro exemplar.

