Jorge Luis Borges recebeu a notícia de uma promoção e foi à prefeitura pedir explicações. Trabalhava numa biblioteca municipal de Buenos Aires. O novo posto, segundo contaria, consistia em inspecionar aves e coelhos nos mercados públicos. Era 1946, Juan Domingo Perón havia chegado à Presidência, e a administração encontrara um destino bastante peculiar para um de seus adversários.
A palavra “promoção” merece as aspas que o próprio Borges lhe deu. Seu relato apresenta a mudança como uma maneira de humilhá-lo, retirando-o de um trabalho ligado aos livros e destinando-o a uma função para a qual sua trajetória não tinha serventia. A resposta foi pedir demissão. Borges nunca cumpriu a carreira de fiscal de galinhas que a anedota, contada depressa, às vezes lhe atribui.
O cenário anterior também estava longe da solenidade que hoje associamos ao escritor. Ele havia entrado na Biblioteca Municipal Miguel Cané em 1937, como auxiliar. Uma reportagem do jornal argentino La Nación reproduziu sua ficha funcional, na qual a burocracia se preocupava em registrar que o empregado sabia ler e escrever. O documento enumerava ainda os idiomas que conhecia. Há formulários que envelhecem melhor como peças de humor involuntário.
A biblioteca ficava no bairro de Boedo. Foi durante aqueles anos de emprego municipal que Borges escreveu parte dos contos que o tornariam decisivo para a literatura do século 20. “Ficções” saiu em 1944, quando ele ainda trabalhava ali. A prefeitura podia deslocar um servidor de repartição. O livro já estava fora de seu alcance.
Convém conservar uma distinção documental. A notícia da inspeção de aves e coelhos vem, sobretudo, da narrativa autobiográfica de Borges. La Nación observa que não ficou registro daquele cargo com essa designação. A cronologia do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, por sua vez, relaciona a transferência às declarações antiperonistas que ele havia assinado e registra sua saída antes de assumir a função. O núcleo do episódio resiste; a nomenclatura administrativa pede cautela.
O emprego e a saída
Borges era auxiliar de uma biblioteca municipal. Ao contar a transferência para a inspeção de aves e coelhos, registrou que pediu demissão antes de exercer a função.
De onde vem a designação do cargo
A expressão “aves e coelhos” aparece no relato autobiográfico de Borges. La Nación ressalva que não ficou registro do cargo com essa designação. A cronologia do CCCB relaciona a transferência a suas declarações antiperonistas.
Fora da prefeitura, Borges passou a dar aulas e conferências de literatura. Em suas notas autobiográficas, lembraria o medo que sentia de falar em público e a surpresa de descobrir que conseguia fazê-lo. O emprego perdido abriu uma vida profissional diferente, com viagens e exposições diante de plateias. Isso não transforma a perseguição em favor. Apenas mostra que sua consequência escapou à intenção do castigo.
A crueldade dependia de Borges entender a mensagem. Fiscalizar mercados é um trabalho necessário. A humilhação estava em usar a transferência para demonstrar que a administração podia ignorar suas aptidões e dispor de sua vida profissional. O suposto benefício burocrático obrigava o destinatário a escolher entre aceitar o recado e perder o salário.
O fato de hoje sabermos quem Borges se tornou altera a leitura da cena. Vemos um dos grandes escritores do século diante de uma repartição que lhe reserva galinhas. Naquele momento, porém, também havia um homem que precisava trabalhar. A fama posterior dá ao episódio um final satisfatório que não estava disponível a quem apresentou a demissão.
Os anos da Miguel Cané deixaram “Pierre Menard, autor do Quixote” e “A biblioteca de Babel”, entre outros contos. É difícil imaginar contraste mais áspero entre uma produção literária capaz de multiplicar mundos e uma decisão administrativa empenhada em reduzir o espaço de quem a produzia. Ainda assim, seria excessivo transformar a perseguição na explicação de uma obra que já existia.
Em 1955, depois da queda de Perón, Borges foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional. A cronologia oferece uma inversão quase pronta para o narrador. É preciso apenas lembrar que essa era outra instituição. Em 1946, o posto perdido havia sido o de uma biblioteca municipal; a direção nacional viria nove anos depois.
As galinhas acabaram entrando na biografia de Borges. Como serviço prestado pelo escritor, nunca. Como retrato da imaginação de uma repartição, ficaram.

