A raiva pode transformar a vida de um homem e, consequentemente, o destino de uma nação. A fagulha aparentemente inofensiva que nasce das frustrações ganha relevo, conduz a ideias monstruosas e guia comportamentos absurdos, e esse cenário de tensão pode ser o que falta para mudanças tão repentinas quanto bestiais. No dia 29 de abril de 1992, quatro oficiais do departamento de polícia angelino, três brancos e um hispânico, foram absolvidos do crime de agressão contra Rodney King (1965-2012), um operário da construção civil afro-americano, após terem-no perseguido em alta velocidade. A busca por sentido em meio a esse caos da existência é um recorte específico, todavia certeiro, em “1992”, sobretudo para um homem negro e no limite da vulnerabilidade mais cruel. Aqueles episódios de violência desproporcional e repulsiva fazem de Mercer Bey, o protagonista do ótimo filme de Ariel Vromen, um mártir involuntário, mas convicto — além de um rebelde em defesa de uma causa nobre.
A banalidade do mal
Mercer acaba de receber a liberdade condicional, mas logo conclui que sua reintegração será um processo traumático. Antoine, o filho de dezessete anos, parece estar trilhando o caminho que o levou à prisão, e ele mesmo não consegue sair da velha vida. Um assalto à fábrica em que está trabalhando ameaça seus planos de recomeço, e a partir daí Vromen e o corroteirista Sascha Penn cercam essa figura marginal das sombras do passado. A mais nefasta delas é Lowell, líder da quadrilha que arregimenta os filhos Riggin e Dennis nessa empreitada, valendo-se da convulsão social que o prefeito Tom Bradley (1917-1998), também afro-americano, não controla. Sucedem reviravoltas meio inverossímeis e até fantásticas no descaminho de cansaço e ilusão de Mercer, temperadas com as performances cruas de Tyrese Gibson e Ray Liotta, o segredo de um filme que se dedica a rememorar sem grandes pretensões a onda de paranoia e angústia existencial que desabou sobre os Estados Unidos pós-Reagan. E que perdura.

